Vivendo

Perdeste o jeito.

 

Teus olhos não são mais os mesmos

e os cães já não te fazem festa.

 

Teimas em despertar para fazer o mesmo

a cada dia mais curto.

 

Perdeste o jeito, mas contens

uma centelha.

 

Perdeste o jeito e estás contido

em contos nunca escritos.

 

Teus olhos correm ao prato

de mangas fatiadas.

 

E ainda continuas vivendo

pretendendo se andradiano.

 

Pedro Luiz Da Cas Viegas

Cachoeirinha, 01 de agosto de 2016.

Calor

Consumido me sinto sob o Sol
A cada inspirar
A cada espirar.

Consumido me sinto sobre a Terra
Procurando minha sombra
Derretida em suor.

Combustível, sinto-me liquefeito
Como se de fato fosse
Uma parte dessa estrela.

Gravataí, 12/02/2014

Cigarras

A você, que acredita que a cigarra explode:

Por que motivo é tão difícil
Acreditar que ela simplesmente
Descarta o exoesqueleto vazio e seco

Antes de sair cantando
Até explodir nossos ouvidos
Nessas nossas tardes vazias e secas?

Abafadas tardes de cigarras explosivas.

Gravataí 31/12/2013

Prata

A prata da Lua

Quisera fosse vermelha

Fosse verde ou azul

Uma cor menos crua

 

A prata de sempre

Do astro sem luz que espelha

Espelha e espalha silente

A luz da velha estrela

  

Que noutro lado do mundo

Performa o giro do dia

O dia de sempre

O giro sem rumo

A noite de sempre

A sempre velha luz fria

 

Pedro Luiz Da Cas Viegas

Porto Alegre 02 de fevereiro de 2002

 

Idiossincrasias

O estranho ser colecionava homens em gaiolas e costumava escolher ao acaso algum deles e submetê-lo à dor. Isso fazia com que o homem produzisse música, o que era bom para o estranho ser. Por conseguinte, a dor seria algo bom para os homens, já que a resposta era algo assim tão bom. Ora, a música dos pássaros…

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 07 de julho de 2013.

Molusco

Choveu um pouco neste final de tarde. Na noite quieta
sobre a floreira, discreto, um caracol espia seu mundo. Não.
Hoje não estou disposto a matar nada. Pego o simpático molusco
e o coloco sobre uma Saintpaulia. Alguém não gosta disto. Não,
não vou atirá-lo às pedras da rua.

Agora ele deve estar continuando sua busca. Talvez
pense ao seu modo invertebrado.

E eu continuo sem saber se sei se vale a pena pensar.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, maio, 2005.

Um bem-te-vi pousa na caneleira

Um bem-te-vi pousa na caneleira.

Quisera tu poder dizer o que sentes,
mas, vazio de sentidos,
limita-te a ver a ave pousada
e a ouvir seus gritos
que não decifras.

Teu silêncio abre caminho
entre a luz;
Refletido pelas folhas,
pequenos sóis gritando “bem-te-vi”.

Teu silêncio é denso e sem sentido
e num átimo a ave o percebe
e alça voo até outro paradeiro.

Ficam as folhas e seus sóis agora quietos
acompanhando teu silêncio.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 12/01-28/04/ 2013.

A garganta de Mengcheng

Minha nova casa
na garganta de Mengcheng
onde velhas árvores
e salgueiros ainda resistem.
Quem nela vai morar,
quando eu me for?
Ah, preocupações vãs
com coisas tão passageiras!

-Wang Wei

Visita

Ao sul de meu rancho, ao norte,
por toda parte
chuva de primavera.
Dia após dia eu só enxergo
o voo das gaivotas.
Trilhas repletas de flores,
por que varrê-las?
E para vós, abro enfim
a porta de junco.
O mercado é longe,
e para o almoço
não tenho muita escolha.
Quanto à bebida,
a casa é pobre
e só posso vos oferecer
vinho rústico.
E se convidássemos meu vizinho
para se juntar a nós?
Vou até a cerca chamá-lo;
juntos acabaremos
com esse jarro de vinho.

– Du Fu

Levíssimo incenso

Não estou tranquilo. Passa o dia irremediavel.
Apesar dessa doçura, apesar dessa leveza
envolvente em tudo, ainda assim
não estou tranquilo.

Essa leveza de coisa que evapora. Essa doçura
dissolvida no silêncio.
Não estou tranquilo.

-É a vida que docemente se esvai como levíssimo incenso.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 14/03/2013 – 17/04/2013

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Macerófagos

Enquanto maceram-se os alimentos
Vão se ruminando os pensamentos
As azias que corroem
As idéias que corrompem
Regurgitam-se trituradas
As mais preciosas esperanças

II

Cavalo que sou
Macerei do melhor
E no fino manto relvado
Esterquei minhas abjeções

Asno que sou
Ponderei mais que o devido
E por vezes descobri tardiamente
O erro do caminho escolhido

III

Macerado, deglutido
Dia a dia ingerido
À mesa do tempo que passa
Repleta, farta dos eventos servidos

Macerófagos, todos juntos macerando
Revirando, remoendo, desfazendo a solidez
Devagar se esvai o sumo
Devagar se encontra o rumo

Macerófagos macerantes
Mastigam, trituram
Músculos, ossos
Folhas, fibras e sementes

Ruminam dúvidas, certezas e temores
Dilaceram as próprias esperanças
Num macerar sem sabores

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre. Junho, 2001.

Você acaba de chegar do lugar onde nasci

Você que acaba de chegar
do lugar onde nasci:
deve saber de tudo
o que acontece.
Por favor,
antes de partir,
viu se na frente da janela com a cortina de seda
a pequena ameixeira de inverno
já estava florida?

-Wang Wei

Luz

A luz do poente contra as vidraças
Reflete nesta sala uma cor dourada.
Na água que bebo sorvo dessa luz
E sinto luminoso sabor de vida,
Essa vida que correu entre estrelas,
Escorreu entre as vidraças,
Alcançou a minha água
Iluminou meu paladar
E foi-se em gotas de ocaso.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 03/03/2013

Caro Dr.

Caro Dr.
Não suporto ignorar o meu próprio ser.
Preciso ser o que sou nesta alma vivente.
Por mais que seja a droga potente,
Esta alma não tem mais recurso.
Eis que a vida surgiu de um impulso.

Caro Dr.
Permita viver meu niilismo abjeto.
Permita viver meu viver sem projeto.
Permita agora caminhar com meus passos,
Sem querer explicar as razões dos fracassos.

Caro Dr.
Não pretendo me enquadrar no modelo vigente.
Por mais que eu erre não deixarei de ser gente.
Por mais saciado não estarei satisfeito:
Na mais bela flor somente vejo defeitos.

Obrigado Dr.
Sinto agora aceitar minha percepção deste mundo.
Aceito, desejo e alimento cada vez mais profundo.
O que eu quero e talvez tão logo consiga.
Tantas outras insânias minha alma persiga.

Paciência Dr.
A conta Dr.
Até quando Dr.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 02 de Julho de 2001

Elegia 1938

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

Carlos Drummond de Andrade

Casamento do céu e do inferno

No azul do céu de metileno
a lua irônica
diurética
é uma gravura de sala de jantar.

Anjos da guarda em expedição noturna
velam sonos púberes
espantando mosquitos
de cortinados e grinaldas.

Pela escada em espiral
diz-que tem virgens tresmalhadas,
incorporadas à via-láctea,
vaga-lumeando…

Por uma frincha
o diabo espreita com o olho torto.

Diabo tem uma luneta
que varre léguas de sete léguas
e tem ouvido fino
que nem violino.

São Pedro dorme
e o relógio do céu ronca mecânico.
Diabo espreita por uma frincha.

Lá embaixo
suspiram bocas machucadas.
Suspiram rezas? Suspiram manso,
de amor.

E os corpos enrolados
ficam mais enrolados ainda
e a carne penetra na carne.

Que a vontade de Deus se cumpra!
Tirante Laura e talvez Beatriz,
o resto vai para o inferno.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Planos

Pegar algo,
Fazer algo.
Pegar um cão e passear.
Pegar um carro e rodar.
Pegar um martelo
Inserir prego em madeira.

Pegar uma pedra e atirar.
Pegar ventos
Aspirar frios.
Aspirar e tremer.
Tremer e parar.

Pensar no próximo passo.
Passo a passo
Estacionário impasse
Quem tiver vontade de aço
Que minha vontade trespasse
E arranque desta cadeira
Esta cabisbaixa caveira

Mostre o caminho do sol
Não consigo sorrir
Vou pegar o espelho
Atirar ao pavimentado passeio

-Meus cacos sérios
Serão pisoteados
E ficarei quieto
Meu peso na alma

O grito trancado por trás do gradil
Agarro uma grade – o vão é estreito
O horizonte que vejo
A avenida e o vento
Caniloquazes chamados
Serei eu, serão eles?

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre . 7, outubro, 2001.

Protopenso

Protopenso em azul vazio
Para libertar a mente deste moedor
Moe dor
Mó de medo

Protopenso leves flores
Sem venenos ou espinhos
Brisa fresca no relvado
Inocentemente verde
Protopenso fugir desta rede

Sinto mais do que penso
Protopenso

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 29/09/2012

A adega de dias perfeitos

Tema recorrente
Avilóquios, canilóquios
Dia ensolarado
Vozes, risos
Gentes dormitam saciadas
Ressonam profundamente
Adormecidas no vazio

Tema insistente
O mesmo tema, sempre o mesmo
O que haveria de mudar
Com que poder
Com que vontade
Alterar eternidade?

Vai aonde?
Vai à festa?
Festa após festa
Após festa e o que resta

Após uma longa doce sesta
Acumulando um currículo de horas festejadas
Acumulando um montículo de horas bem gozadas
A conclusão há de chegar curta e certa

O tempo é destilado dos eventos
E o sono o impregna de fermentos
Avinagrado, o fim do dia engarrafado
Rotularei mais um na minha adega
Mais um litro deste vinho descarnado

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, janeiro 2003

Maya

Sob a luz, crio sombras.
Na água, crio ondas.
Crio meus passos n’areia
E movimento no espaço.
Vibra no som que crio
Esta voz que logo calo.
E crio minha ilusão.
Minha doce esperança.
Crio minha memória
Destinada ao olvido.
Minha vida inteira,
Minha obra efêmera.
Meu breve instante.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 23/11/2012

Fuga chuvaz

Chuva para embalar sonos
Sonos para afastar
Afastar qualquer coisa
Coisa da qual se fuja
Fugindo da chuva
Chovendo na fuga
Fuga chuvosa
Chuva fugaz
Chuva fugosa
Fuga chuvaz

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 04/09/2001

Indo para casa

Indo para casa esqueço os detalhes mínimos que ali encontro.
No subúrbio matrizes gritam para as crias os gritos gritados a gerações.
As coisas paradas quase revelam minha vontade.
Milhares ou centenas de milhares de latidos ociosos.
Panelas e seus conteúdos fervem, quando há o que ferver.
Panelas também podem se tornar ociosas.
O trânsito é louco, enlouquece, flui na sua forma sólida, metálica, emborrachada, sobre uma matriz asfáltica.
Flui e pára incessante, dotado de vida própria.
Centenas de muitos milhares de células em vias confusas, apertadas
entre cinzas e avermelhados de prédios e nuvens carregadas de um ócio sem chuva.
O pensamento se torna ocioso nestes tórridos passos com cheiro de fuligem do diesel.
Os caminhos quase sempre se confundem embora sejam sempre os mesmos, embora não existam outros.
Sinais luminosos, sonoros, sinais pichados nas paredes, sinais de cansaço, tédio, dúvida, esperança, felicidade.
Estou quase chegando.
Logo vou lembrar de algo.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 8/4/2004

Randomatizes II

enquanto ouvindo música de caixilho de ouvido
à luz do lusco fusco renovando
quadrimoto, segue plenosexo à gaitada
em reviravolta: coitividas de meio em meio turno

em meio, ao sabor, emolduradamente
a turbilhões, a colmeias de enxames (quantas, quantas)
cascatarias de concordantes margaridas
e seus pólens e estames e estigmas

oh meu ser, o que seria desta luz
sem os meus olhos a ver obra toda esta

pulsa à flor daquela pele
e tão profunda – mente – pulsa
que és parte plena
de tudo algo e convulsa

Pedro Luiz Da Cas Viegas
29 de outubro de 2012

Verdade

A verdade.
A verdade e suas lâminas.
A verdade e suas pétalas.
Andar no fio da verdade.
Verdade
Mal te quero
Bem te quero.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 18 de outubro de 2012

Coincidência

Benditos frutos que brotam
De casa em casa
Da urbe, locais de dormir.
E os frutos se mostram
De casa em casa
Após tanto tempo,
Na urbe, locais de sorrir.

Sonhos e frutos na urbe
Sob o céu cinza.
Os dias, as falas, os passos
Na urbe, seja onde for,
Serão sempre os mesmos
Os dias, falas e passos,
Os frutos, sonhos e sonos,
Beijos, risos e vozes,
Deslocamentos.

Deslouco, percorro,
Distância ocorrida
E tudo eu vejo e ouço
De um ângulo de tantos
Guardado na urbe,
Num canto.

Eu, eu, eu. Sou o conteúdo,
Conteúdo que transporto,
Não importa a distância,
A altura ou velocidade.
Aqui, lá, acolá, e mais adiante,
Serei eu, eu, sempre eu
Minha carga,
Minhas tendências,
Meu próprio silêncio.

Serei eu, eu, sempre eu.
O meu próprio medo.
Não importa o templo,
A beleza da urbe, o tempo.
Serei eu, eu, sempre eu
O meu próprio consolo.

E tu serás, talvez,
Serás talvez sempre espelho,
Não importa onde estejas,
Do que eu possa ser,
Do que eu deva ser,
Do que eu me conceba,
Do que pudesse ser concebido,
Uma grande, completa e estranha
Coincidência.

Pedro Viegas
Porto Alegre, 16/março/2003

Brilham no quintal

Brilham no quintal
Sobre os borrões das flores

Brilham no equilíbrio do espaço
Na ruptura do concreto
No corte do abstrato

Brilham saturando
A dimensão do mensurável
Com a pequenez do que é imenso

Brilham avivando
Minhas lentes à distância
De um olhar roubado

-Colibrilhos

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 05 de setembro de 2012

Luta

Luto contra ninguém
E ninguém me vence
Com certeiros golpes.
Procuro me esquivar
Mas ninguém é mais rápido.
Acerta-me um e mais outro
Golpe em seqüência dorida.
Luto contra ninguém
E ninguém me convence
De que estou a perder
Para minha própria sombra.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 10 de setembro de 2012

Arrasa-me

Pesquiso, busco,
brusco, preciso
Rastreio em banda larga
Rastreio meu rastro estreito
Desconectado mesmo pesquiso
A razão destas fases
Tantas fases de fases
Pesquiso as tuas
E ouço adentro ouvido
Tuas frases, teu contato
E pesquiso, busco, penso
O sentido que me fazes
A falta que me trazes
Contata-me
E então me arrases

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, maio, 2004

Amoramaro

A mordo amor
Com todos dentes
Dentes cheios,
Damor tecidos
Carnes amornas,
Carnes, sentes?
Abandonado amorfismo dos sentidos
Ameno amar
Amarameno
Amor amaro
Amargo destilado dos desejos

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 20/02/2003

Eternos

Plástico, concreto, asfalto,
Fibra de vidro, velhas estrelas.
O céu está quieto.
Ebulem dias no outro lado do mundo.
Ainda ouço os latidos de outrora.
Os velhos latidos
Agora são novos, os mesmos,
Eternos.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 14/03/2012

Inspiração

Gota n’água que faltava.
Vertente de ver-te, reflexo
Concêntrico centrado que mira o foco.
Sabor difunde, cala, maltrata,
Encerra, engloba, mira flores famintas,
Enche bocas, palavras e versos.
Verbos em silêncios.
Versos em murmúrios.
Verbos em altíssonos.
Versos aos gritos
Emergem das águas profundas.
Algum leviatã inspirado.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 09 – 11/08/2012

Composição

brotam coisas da terra
dando graças aos céus
o vento quer dizer algo
o zinco solto retruca

vento, poeira,
móveis cansados
concreto dormente
sussurram luzes perdidas

quadros desbotados
de palavras soltas
brotam bolores
destilados de horas

pedro luiz da cas viegas
porto alegre, 24 de outubro de 2004

Estrelamentos

Há coisas no ar…
Labaredas lambem o láparo
Sob estrelas de colostro enquanto
O lobo leva o lábaro estrelado.
E lépida lesma lavra a losna
No atulhamento do vaso.
Raízes tramam agregados
No degredo de uma terra
Sob céus azuis autrais.
Estrelamentos são possíveis,
Tudo é possível, arcos sem íris,
Gostar sem desejo: Eis o segredo da paz
Nessas águas revoltas.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 10/08/2012

Elixir

Meu mundinho paralelo.
Não conheço o que conheces
Não conheço tuas dores
Desculpa se sou distante.

Reconheço, sou disléxico
Para coisas de emoção
Mas tenho um coração
Que quer sair do letargo.

Quisera tomar um trago
De saudável elixir
De fazer brilhar a alma
Iluminando o existir.

Preciso de um ensejo
Preciso de um contato
Quem sabe com o seu beijo

Desperto, renovo de fato.
Ainda resta esperança
A vida é uma criança.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 10 de agosto de 2012.

Endogenia I

enchi um pote com pedras
roladas lá da barranca
fiz o fogo na macega
e guardei a cinza branca

risquei teu nome na poeira
que se fez sobre a estante
rasguei a roupa na farpa
do aramado lá da estância

andei bastante, cansei
inútil tanta distância
sem onde se ter chegado

olhei o tigre e o urso
que nada sabem de reis
e o cachorro amigados

e vi ratos e baratas
lutando silenciosos
enchi um pote com pedras
de lugares preciosos

esperei tua resposta
sem que houvesse pergunta
lembrei dos meus bois da canga
e me fiz parte da junta

pedro luiz da cas viegas
porto alegre, 23 de oububro de 2004

Morno amor adorno

Amor
Morno amor
Amorno
Amornece o fogo dos meus dias
Arrefece
Transparece, transfigura
Engana e mutila
A razão desfigurada
Que este amor adorna

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 19-02-2003

Sede

Alma amiga,
Não sou um sensitivo,
Tampouco sinestésico.
Também procuro lenitivo,
Também procuro anestésico.
Mas, alma, por que voas longe
Por estes arrabaldes?

Cansaste dos teus sonhos,
Buscas novos ares.
Cheia de incertezas,
Anseias por altares.

Alma, por que vagar tão densa?
Deixes o teu peso como a nuvem
De boa e fecunda chuva
Sobre a terra que a aguarda.

Fiques, chovas em versos
O que sentes,
Faças do poema a vertente
De onde se sacia a sede,
Esta sede que sentimos.

Esta sede que cantamos.

Pedro Luiz Da Cas Viegas,
Gravataí, 22/07/2012

Segredo

Concha. Refúgio da ostra
Solidão nacarada
No seio do mar.

Ostra. Abraças, proteges,
A riqueza da tua dor.

Mergulharei nessas águas,
Buscarei teu segredo
Para que brilhes ao sol.

Pedro Luiz Da Cas Viegas.
Gravataí, 04-22/07/2012

Dança

Densa dança que condensa
Intensa chama desses passos
Tão leves quanto os olhares
Mais leves que os espaços.

As dimensões de um cosmos
Cria e trama em compassos.
Avança e traça segundos
Feitos de tons e matizes.

E nessa luz te encontro
Fazemos parte do drama.
Sou sua cor, movimento

E és tu que me conduzes
Por estes tempos que ardem
Entre risos, fogos e luzes.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 10/07/2012

Ilha

Porção de mim
Cercado de teus cuidados
De todos os lados

Isolado do mundo
Esquecido de mim
Não mais te vejo ou ouço

Um mar vazio
Ou cheio de algo que nos é estranho
Ocupa o espaço que antes era somente teu

Precisamos de uma garrafa
E algumas mensagens
Para fazer uma grande travessia

E trazer de volta ao contato nossas orlas
E preencher com nossas vidas as águas desses mares

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 09/07/2012 – 20/07/2012

Tempo

O meu tempo
O teu tempo
Estas coisas imiscíveis
Nossos tempos impossíveis
Ocupando o mesmo espaço
Em uma fotografia
Passamos despercebidos
Nesta grande galeria
Que se encobre de poeira
O meu tempo
O teu tempo
Quem vai querer perder tempo
Prestando atenção a nós dois?

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 09/07/2012

Larva

diga ou cálice
beba revertendo
o sentido do verbo
verbo será vetor
sentido sem direção
quantas grandezas
guarda uma palavra
palavra, larva que vira
bicho de asas
esvoaçante na luz
ofuscante rebrilho da prata
de um cálice
cheio de um vinho
que bebo calado

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre –

Uma gota

Aromas, cantigas de roda
Sorrisos dispersos no meio
Claves de sois poentes
E luas cheias de tudo.

Chakras expostos na areia
E um coração de cigarra.
Uma gota de azul
Do azul desse céu

De incenso tão leve
De tão leve intenso
Quero provar ao fim do calor
E da luz deste dia

Para levar a um sonho.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 29/06/2012

Beba água

Beba muita água
Sais, solutos, eis que somos.
Dissolva a mágoa até a concentração
De um sorriso
De incisivos ou até cisos.
Ais precipitados nos tecidos
Serão levados no enxágue.
Beba água, muita água.
Somos sais, solutos
E um conjunto de atributos
De controle rigoroso.
Evite o sentimento indigesto;
Meça antes
A palavra e o gesto
E beba água,
Muita água.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 29-30/06/2012

Relíquias

Guardei o seu sorriso
No âmbar da memória.
Relíquia fóssil
No fundo da gaveta.
Retrato em sépia
Testemunho de outra era
E um pôr do sol
Secando uma rosa.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 24/06/2012

Tergiversos

Oh minha paixão…
Não há como ser épico.
Meus versos, tergiversos,
Falam do vento,
Canções sem acordes,
Moinhos e giros,
Pipas no alto
Catando azul.

E, nos céus de Cabul
Ou qualquer cidade,
Que a brisa guarde
O segredo da flor
Que guardei para ti.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 27/06/2012

Encontro

Brilham as caliandras na manhã pacífica.
A leve brisa não abala os insetos
Que procuram o doce néctar.
Fecho levemente os olhos ao sol
Para ver melhor você
Que me dá bom dia.
E então sorrimos
E cada um de nós
Segue sossegado
Seu caminho
De flor
Em flor.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 23/06/2012

Quero um beijo

Quero um beijo, ouça e prove
E sinta a cada passo:
O astrolábio e as estrelas,
As pegadas e os caminhos
Canibais de cada dia
Que consomem os andares
Nos conduzem
A destinos destilados no futuro.

As paredes do agora,
Pedra sobre pedra
-Poliedro-
Definitivamente se consomem
Em poemas não escritos.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 21/06/2012

Minha fraca eterna chama

Brilha em tudo que se foi e permanece sendo.
Meu corpo-alma é todo brilho ao sentir teu som.
Sinto o frio e sinto o sol e assim estou mais desperto
E sinto mais a vida que por muito pouco esqueço.

Mesmo enquanto falas sem que eu te ouça,
Mesmo assim tão surdo e cego sinto:
Estás aqui, não há mais nenhum além.
E mudo. E ainda mais emudecido permaneço.

E sofro alegria por saber ser pequena parte tua
Contemplando tua obra de horrores e belezas.
E por um momento sou eterno na certeza

De que me tocas pelo ar, pela chuva e pelo pó da terra nua.
De que me falas pelas vozes das caladas multidões.
E que me ouves e manténs a minha alma, minha fraca chama acesa.

Pedro Luiz Da Cas Viegas    
Porto Alegre, 30/11/2004

Noção de tu e você

Mal me quer e já desiste. Sequer testaste tentando.
Vago senso, sentir nada. Talvez de quando em quando.
Palavra por palavra, pensada, face parada, mudez.
Cala e grita, credo nas cruzes, mas que bela palidez.

Não passe mal, eu só peço, nem tenha assim tanto medo.
Me reza e me chora e quem sabe me critica, tua boa intenção.
Me jura e fere e cura, me estraçalha inda hoje, cedo, cedo.
Mas nem agora nem depois, quem sabe quando, coração.

Um momento, aguarde, aguarde. Já não tarda.
Talvez morra dentro em pouco. Fosca, parda.
Vejo era que finda. Percebendo, percebendo.

São meus olhos ou é tudo que já some consumido?
É agora, já percebe? Inda estará me ouvindo?
Oh sim, a senha, a senha. Eu já ia esquecendo.

Pedro Luiz Da Cas Viegas. Porto Alegre, 26/11/2004

Dentifrício

Espelho de fronte.
Semidesperto reflexo.
Escovejo dentes
Sem qualquer sorriso.
Cuspo na pia
O branco de espuma.
Frescor que escoa
Até a quietude do ralo.
Escovejo sorriso
E o sorriso escoa.
Frescor do sorriso espelhado.
Frescor do sorriso no ralo.

pedro viegas porto alegre 11/04/2005

Chá de jasmim IV

O bom sangue corre nas veias.
Receias o mal que não conheces.
As preces como mantras garantidos.
Terás sido a melhor das que não tive.

Ourives das peças mais consagradas,
Te agradas saber que nada sei.
Qual lei fala de ser comum.
Humano, vacum, o fim é o mesmo.

A esmo, tudo matamos, bichos e gentes.
Lamentes, chores choros ensaiados.
Traçados os planos, o dia seguinte.
Pedintes, miséria, falta de sorte.

Ser forte, subir e descer o caminho.
Teu destino, grafado no pó deste vento.
Cada momento, que seja o elo faltante.
Errante, partícula percorre a massa vazia.

O avançar da idade sepulta a vontade abortada.
Desperta o grito no estertor da agonia.
Submerge a ilha nas vagas do mar,
Derivar, indeciso, em meio, ao longo, ao fim.

Telhados escondem estes mecanismos.
Esfregar fuligens das pratas.
Polir, enganando o tempo que passa.

Devir, apenas o fim que principia,
Conteúdo pulsante de um estojo de ossos.
Estrutura, treliça armada, cimento, ferrugem.

Granular natureza, discreta, finita.
O circuito fechado revela
A função das paredes.

De joelho ao pé da estátua.
Uma gota pintada na ferida de gesso.
Gestos de pedra.

Arte da dor.
Não há chá
Sem a morte da flor.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 2002

Agora

Circulo em trânsito entretecido
Em diáspora plena de vício tenso.
Vejo amêndoas agridoces ao óleo
Do viço do seio farto
E Vênus ouvindo mar na concha,
Coaxos, martelos, velhos mantras.
A lacraia riscando a cambraia
E um pote cheio no decote pleno.
Há lua de nova luz,
Velha palidez na face do poeta
Que concebe um lampejo, um anjo, um fauno.
Quero um beijo, ouça e prove
E sinta a cada passo:
O astrolábio e as estrelas,
As pegadas e os caminhos
Canibais de cada dia
Que consomem os andares
Nos conduzem
A destinos destilados no futuro.
As paredes do agora,
Pedra sobre pedra
-Poliedro-
Definitivamente se consomem
Em poemas não escritos.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 22 de junho de 2012

Dança do cisne

Inelástica, inerente,
Inevitavelmente
Coeso ao centro do ato
No eterno átimo
De angular esforço,
Atrativamente
Orbitando no sistema
Cisma o cisne
Ensimesmado no confronto
Do oculto enfisema
Enquanto avançam nos seus cursos
Seres, deuses, astros,
Naves neste caldo cósmico,
Éter e poeira,
Pensamentos.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 13/06/2012

Reação

Seja o princípio
Ativo e perene
Absorvido no sistema.

Seja o sistema
Aflito e sereno
O contraste no seu corpo.

Sejam nossos corpos
Conteúdo e continente,
Reação e reagentes.

Amalgamados seremos.
O princípio transmutado,
O desejado equilíbrio.

Pedro LDC Viegas
Gravataí, 04/05/2012

Tua chama

Carnes em bocas ávidas,
Pétalas em água cálida,
Sumos de frutas grávidas,
Dragão sobre a pele pálida.
Suspenso em arco voltaico
Lanço palavras ao vácuo
E não me faço ouvir.
Apenas a Lua lê meus lábios
E permanece muda.
Fina seda plástica encobre tua pele
E a brisa não existe sem teu toque.
Pendem vitoriosos astros envelhecendo tua memória.
Louvada sejas enquanto brilhes em mim
E apague-se com o meu próprio olvido
Tua chama.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 16/06/2012

Randomatizes

Azeite e vinagre de vinho velho…
Classe nitrato, bass reflex, aracnoide.
Detrito latifólio no chão da mata.
Flato neutro, parada para ouvir:

O dom de Brahma, a rapsódia dos blastos.
Croma: divindade magnificada na aberrância.
Tecla em lata, batucada com lua de catraca e batente
E, domo de ronda, desopilo bronco desatado.

Segue teste adiante, acuidade na hipótese
De blasfêmia, gota aguda no tapume do zimbório.
Caiu uma ultra anágua, vejo vassoura, som na calçada:
Vendendo acelga, vai bacuri, Uiraquitã, vai!

 

Pedro Luiz Da Cas Viegas

Porto Alegre, 27 de outubro de 2004

Meditativo

Queria ser centro e sou esquecido.
Sou centro onde queria estar incógnito.
Sirva-se. As frutas estão frescas, orvalhadas
da manhã.
Sumarentas doces frutas.
Doces e delicadas peles que te envolvem.
Serena assim serena a fitar o doce
lume da manhã
que se insinua.
Teu corpo delicado dentre a bruma.
Provemos do pomar
sobre a relva inda molhada.
Seus pés nus o que temer
na relva fresca e fina.
Venha entre estas alamedas
por onde vago e se
sozinho eu me perco.
É doce o rico sumo das
frutas do pomar.
Prove.
Tome de minha boca
o sumo dessa fruta.
Dividamos.
E sobre a relva esqueçamos
olhando o céu que nos protege,
sentindo a brisa que me traz teu cheiro.
Tu és presente.
Sinto presente para a vida.
Serei eu digno de que proves
dos pomares nos quais me perco?
Dos pomares que plantei na minha mente?

Pedro Viegas
Porto Alegre, Setembro 2001

Angra


Atomímica bombatômica
No deca serão fogos
Fogos de arte físsil
Nos céus de artifício
De cobalto e plutônio
Dos lixões das Angras
-Digas, povo, por que sangras?

Pedro Luiz Da Cas Viegas
30/06/02
(Edição de 03 de junho 2012)

Mimos em rimas


Mimos,
Meus mimos,
Mimos meus,
Quem me mima mais
É Deus,
Por permitir que eu viva
E aprenda a desmimar,
E quando for desmimado,
Novo monstro então criado,
Vou ensinar que o mimo
É util em versos que rimo
Por saber aproveitar
Punhaladas deste mundo
Que nada têm de mimosas
E fazem as rimas rançosas
De tanto mimar infecundo.

Pedro Viegas
Porto Alegre, 27/abril/2003

Lentes


Se ao mirado o infinito revela
Um rosário de eras que findas
Nos chegam a cansadas retinas
Como pontos num vazio que impera,

Que dizer destes olhos que miram
Desta terra, nada mais que um grão
De poeira, nebulosas que giram,
Pelo cristal desta lente, esta escuridão?

Destes olhos do mesmo pó oriundos
De distanciadas eras, momentos, segundos
A fluírem na luz, nestes mecanismos,
Destas janelas perplexas diante do abismo…

Pedro LDC Viegas
Porto Alegre, 6-8 de novembro de 2001

Multidão

Multidão

E então alguém diz
-O que vais fazer agora?
E outra voz responde
-Não sei para onde ir.
Sou muitos neste corpo só.

Pedro LDC Viegas
Porto Alegre, maio 2002

Via única

Via única

Não, não quero dormir
É como morrer inutilmente
Mente inútil adormecida
Com tanta vida latente
Vida latente
Leite de vida
Vida láctea
Tanto leite derramado
Vida, única via
E suas estrelas perdidas

Pedro Viegas
Porto Alegre, maio de 2002

Miopia

Vejo as flores da paineira
Como tela impressionista.
Um borrão desta janela;
Minha lente ilusionista.

Pintura que os meus olhos
Criam, assim, à distância
Ao transformarem beleza
Em colorida aberrância.

Transformo, pois, em poema
As distorções deste dia
Para não se tornar em pena
O peso desta miopia.

Porto Alegre, 03 de abril – 01 de junho de 2012

Barro


Eu vejo a terra
E vejo tristeza.
Terra molhada de chuva,
Tristeza molhada de chuva.
Suja tristeza da terra.
A vejo triste de chuva.
A vejo chuva de terra.
Triste, vejo o que vejo:
É seca a terra em mim
E falta água que em barro
Molde uma alma, enfim.

Pedro Viegas
Porto Alegre, maio / 2002

Doce ciranda (Eclipse)

Doce ciranda nossa.
Satelizo-me ao teu ser,
Perfaço no teu entorno minha órbita,
Meu trajeto no espaço duma vida .
Me eclipsas e aceitas atrativa,
Emanas teu raiar, ofusca e guia
Minha eterna idavolta em torno teu.
E já perdi minha luz própria.

Chá de jasmim III

Primeiro gole

Calêndulas floridas
Campo grosseiro
Caçador de milagres
Cachorro mateiro

Trilha dos passos
Amassa a ramagem
A picada tem fim
Inicia a viagem

Segundo gole

A marca na casca
A seiva que escorre
Na mata, na lasca,
Na vida que morre

Na folha, no caule,
Nos veios da terra
Na carne ferida,
Nos campos de guerra

Terceiro gole

Despenca o rochedo
Floresce o juá
Espinhos no couro
Saudades de lá

Ossinhos no solo
Solar solidão
O céu está nu
As nuvens se vão

Último gole

Flores na pedra
Suave rudeza
Estrelas de quinta
Primeira grandeza

Noite de cima
Na beira do rio
Corisco no escuro
Brilhar fugidio

O que foi já não volta
O ciclo sem fim
O viver que revolta
-Meu chá de jasmim!

Pedro Viegas
5 outubro 2002

Via Crucis

Rua larga.
Pavimento percorrido.
Passos, sussurros, agitação.
Esquecimento no caos de mil solados.
Almas pisadas enegrecidas na fuligem,
Pavimento desgastado;
Pressa, desespero, calma indiferente
Convivem no mesmo fluxo.

Marquises,
Último refúgio,
Observatório da luta:
Mil passantes determinados,
Rumos difusos em mil trajetos
Nos labirintos de concreto.
Olhar perdido no rio caótico
Feito de olhares perdidos em incerto rumo.

Passos incertos,
Duvidosas esperanças.
O meio fio atulhado.
Detritos no esquecimento
Aguardam o destino do descarte.
O pavimento sempre renovado,
As certezas nunca comprovadas.

Via Crucis de miríades.
Sísifus cumprindo o destino.
A carga é pesada .

Porto Alegre, 2001

Ouço

Ouço.
Transporto-me para onde não conheço.
Vejo.
Estou onde sempre estive.
Penso.
Acordado é melhor sonhar.

Sapatos

Narilene ganhou três sapatos. Um deles de salto solto. Outro sem a sola estava. Outro, desenhado a lápis sem ponta, Narilene dobrou para colorir outro dia. E seguiu descalça pelos sonhos que podia ter.

Retilineamentos

Preciso continuar nesta linha.
Atesto o desconcerto na brandura calma,
Diafanar de dia findo, tepidez parada,
Luas vazias e mancheias,
Quanto custa, quanto custa.

Giro não é sério sem eixo
Imaginário ou feito de algo.
Bonecos ou não, deixam um espaço
Entre aqui e ali.
E parece haver um caminho ou mais
De uma saída.
Ao menos.

Deambulo

Deambulo plenamente
No amplexo do concreto.
No ar semirevolto
Tepidez de plenilúnio

Chão de ruas sujas,
Sarjetares de infortúnio.
Cresce a pressa.
Passos adensados no trajeto.

Confluem vistas para o ponto.
Vago em vias.

Indecorosa

Flor na minha tela
Indecorosa
Mente delicada
Pensa flora
Enquanto a miro tenso

Fina palidez
A imagino
Coisa nova, tez do pêssego

Então a despetalo
Na minha retina

Gravataí 01/03/2012

Estireno

Plastifólios. As gotas rolam livres.
Ar quasiplexo desfeito no borborigmo.
Leveza maior que a do algodão adocicado
Girando e o vento levando a bola de cor salteada.
Que memória clara e que movimentos.
Traços livres pensam moldado algo que vem,
Na semana, no fim de semana,
Um vaso velho
Arranhado ou semi quebrado,
Cola tudo, nem é possível.
Tecido, tem sido difícil,
Ter sido sarcástico,
De madeira, de carne,
De plástico.