Poças e pedras

O poeta disse
que no caminho havia uma pedra.
No meu caminho
não havia pedras.
Havia aquelas poças
onde pés descalços pisavam
em despreocupada corrida na chuva
em idas tardes de verão.

Algo ficou para trás.
Não foram as poças,
Não foram as chuvas,
Não foram as tardes.

Procuro saber
e pergunto a essas pedras
o que ficou para trás
que tanto me falta agora.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 13 a 23/04/2025

Poças e pedras (2a versão)

O poeta disse
que no meio do caminho
havia uma pedra.

No meu caminho
não havia pedras.
Havia aquelas poças
onde pés descalços pisavam
em despreocupada
corrida na chuva
em idas tardes de verão.

Com o tempo
eu me fiz pedra
e as pedras se fizeram
e hoje dou razão ao poeta.

As chuvas não são como antes,
nem as tardes,
nem mesmo o sol.

Hoje evito as poças
e o frio nos meus pés.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 24/04/2025

Linhas tortas


 
Farei meu paradoxo paradigma. 
Aceitei como bênção meu estigma. 
Um antigo e nobre vinho eu beberei.  
Este ser que nascerá festejarei: 
 
Triste ovelha negra convertida 
Da vida estranha, estranha vida. 
Da minha carga não mais reclamarei. 
Me falou o negro corvo. Ouvirei: 
 
“Jogaste com o arbítrio a ti dado 
Quiseste culpar Deus pelo teu fado 
Mas viste pela clara evidência: 
 
‘Mais ensina o erro que o acerto’. 
Larga esse teu destino incerto, 
Traça as linhas da tua existência!” 
 
 
Pedro Luiz Da Cas Viegas 
Porto Alegre, janeiro 2003 – 20/04/2025

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Comentário:
Um soneto imperfeito que se desdobra em paradoxo existencial, entre o fado trágico e a esperança de aprender com os erros. A presença do corvo reforça o clima gótico e simbólico, enquanto a reflexão filosófica sobre o arbítrio e o destino conduz o eu lírico a um novo paradigma.

Tercetos ácidos

Minha mente, endogenia lisérgica
Vejo-me neste transe circular
Num labirinto squib and hoover

Vejo sorrisos sem rostos
E vejo rostos sem sorriso
Sob os beats do Liberator

Irmãos Químicos conduzem
Este caos na ordem certa
Meu paraíso hipnótico

Minha fuga, minha energia
Em oníricos decibéis,
Em eletrônicas odisséias

Estofo das minhas horas
Elixir p’ra minha alma
Até o distante alvorecer

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 14/04/2025

Descansa

Descansa.
Mesmo enquanto algo urge, pois
O cão ladra por costume.
E a chuva, essa tem maus hábitos,
E a aguardamos, tensos. Mas descansa.

Descansa, pois
Pilha o tempo nossas forças. É sua
Natureza ser, devir, ter sido.
E dizem ser ele ilusão, mas este cansaço,
Ah, este cálice de tédio,
Este calor e esta espera, o tornam
Assim, presentemente denso.

Mas descansa,
Animula vagula blandula,
Descansa.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 23/02/2025