Linhas tortas


 
Farei meu paradoxo paradigma. 
Aceitei como bênção meu estigma. 
Um antigo e nobre vinho eu beberei.  
Este ser que nascerá festejarei: 
 
Triste ovelha negra convertida 
Da vida estranha, estranha vida. 
Da minha carga não mais reclamarei. 
Me falou o negro corvo. Ouvirei: 
 
“Jogaste com o arbítrio a ti dado 
Quiseste culpar Deus pelo teu fado 
Mas viste pela clara evidência: 
 
‘Mais ensina o erro que o acerto’. 
Larga esse teu destino incerto, 
Traça as linhas da tua existência!” 
 
 
Pedro Luiz Da Cas Viegas 
Porto Alegre, janeiro 2003 – 20/04/2025

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Comentário:
Um soneto imperfeito que se desdobra em paradoxo existencial, entre o fado trágico e a esperança de aprender com os erros. A presença do corvo reforça o clima gótico e simbólico, enquanto a reflexão filosófica sobre o arbítrio e o destino conduz o eu lírico a um novo paradigma.

Absinto II

Consagro meu silêncio
Aos teus olhos de  Budesa sorridente.
Consagro meus suspiros
Ao teu sorriso vaporoso indecente.

Mas és tu um sonho inalcançável
Distante, criação de outro mundo,
Ideal de um louco desvairado,
Anseio de um pobre moribundo.

Restam-me o silêncio e os suspiros,
Nunca mais aquele brilho de outrora.
Resta-me sonhar o impossível,
Suave toque e doce beijo de amora.

Fim, fim! Nunca mais! disse o corvo.
Resta a companhia do velho absinto.
Passam as horas, nostalgia absorvo.
É o que me resta, tenho e também sinto.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 10 de março de 2025