Medo

o que há
o que falta
eu transcorro
eu não permaneço
o que corre nestas veias
eu me decomponho
eu me liquefaço
eu me diluo
o que falta
o que há

tempo, tempo,
vinho, vinho,
carne,
dor,
dor,
mil vezes dor,
mil vezes carne,
quisera o vinho
parasse o tempo, tempo

mil vezes tempo,
o vinho, as veias,
os olhos morrem
virtude e vício
o artifício
o desespero

dor, dor,
mil vezes dor,
alguma luz
incerto túnel
perdida ilha
nau condenada

não há porto
nem paradeiro
não há destino
somente a água
somente a cheia
somente a morte

dor, dor,
não há calor
é frio de alma
é profundeza
é agonia
não há mais volta
a um condenado

quisera o vinho
parasse o tempo
quisera o tempo
não fosse algoz
não há mais tempo
não há mais vinho

apenas dor
dor, apenas dor,
dai graças
por esta dor
eis o teu dom
toda esta dor

a tua dor,
o teu tormento,
teu desespero,
clamai aos céus
por esta dor,
glórias e glórias

quisera o vinho
me desse a mão
e me levasse
a um lugar
sem esta vida
somente dor

semente dor
de um novo mundo
sem mais desejos
sem mais memórias
sem mais saudades
somente dor

é este o mundo
é esta a vida
sem mais palavras
sem ilusões
é este o mundo
dor, é esta a vida

vida, uma estaca no peito.
o medo, o medo,
me apega à vida
vida, esta estaca no peito,
medo, medo,
esta cola que me apega.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 03/10/2025

Listas

metapoesia, existencial, filosófico

Li sua lista de coisas para fazer
antes de morrer.
Seus lembretes.
Sua agenda.
Seu roteiro.

Divertidíssima lista.
Divertidíssima essa urgência.
Divertidíssima essa angústia.
Divertidíssima pressa
de antecipar o final.

Cá para nós, meu amigo,
já não me faço concessões
ou me imponho desejos
pois tive de tudo um pouco
e até desilusões.

Instantes os tive muito,
instantes que não anotei,
instantes que se esconderam
entre um café e outro,
entre um silêncio e um beijo.

Não fui à Grécia.
Mas fui ao fundo
buscar este poema
perdido dentro de mim.

E me bastou.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 15/06/2025

Comentário
Neste poema, a ironia inicial — “divertidíssima lista” — age como porta de entrada para uma crítica sutil ao modo contemporâneo de quantificar experiências. O eu lírico desconstrói a lógica da “lista de desejos” em favor de uma vivência mais silenciosa, verdadeira e introspectiva. A viagem interior (“não fui à Grécia... mas fui ao fundo”) se apresenta como mais autêntica do que qualquer roteiro turístico.
Com um lirismo sóbrio e uma dicção firme, Listas é também um gesto metapoético: é o próprio poema que emerge do mergulho, do instante não planejado. E basta.

Via única

Não, não quero dormir
É como morrer inutilmente
Mente inútil adormecida
Com tanta vida latente
Vida latente
Leite de vida
Vida láctea
Tanto leite derramado
Vida, única via
E suas estrelas perdidas

Pedro Viegas
Porto Alegre, maio de 2002