Terra, terra aterradora,
eis as obras que fizemos.
A vós, Terra, as sobras do que comemos.
Escutai das nossa vozes
de tantos e tantos falares
palavras que pouco dizem
e silêncios que tanto calam.
Aceitai, pois, nosso legado,
e tomai por oferenda:
rios mortos, céus desolados,
sementes que já não brotam,
tantas vidas sem poesia,
tristes velhos sem crepúsculo
e crianças sem madrugada.
Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 03/10/2002
Cachoeirinha, 16/06/2025
Comentário: Neste poema, o eu lírico dirige-se à Terra com uma voz quase litúrgica, denunciando as “obras que fizemos”: um legado de destruição ambiental e vazio existencial. A estrutura em duas estrofes contrapõe a profusão vazia de palavras e silêncios sufocantes à devastação concreta — “rios mortos, céus desolados”, “sementes que já não brotam”.
A força do poema reside na conjunção entre o tom ritualístico — “aceitai, pois, nosso legado” — e a carga emocional que evoca o ciclo vital interrompido: “tantas vidas sem poesia, tristes velhos sem crepúsculo e crianças sem madrugada”.
É uma ode amarga, que reverbera crítica social e filosófica, mas também convida à reflexão profunda sobre a responsabilidade humana diante do planeta e da existência, destacando a relação com a natureza.