Dentifrício

Espelho de fronte.
Semidesperto reflexo.
Escovejo dentes
Sem qualquer sorriso.
Cuspo na pia
O branco de espuma.
Frescor que escoa
Até a quietude do ralo.
Escovejo sorriso
E o sorriso escoa.
Frescor do sorriso espelhado.
Frescor do sorriso no ralo.

pedro viegas porto alegre 11/04/2005

Randomatizes

Azeite e vinagre de vinho velho…
Classe nitrato, bass reflex, aracnoide.
Detrito latifólio no chão da mata.
Flato neutro: parada para ouvir
o dom de Brahma, a rapsódia dos blastos.

Croma: divindade magnificada na aberrância.
Tecla em lata, batucada com lua de catraca e batente.
E, domo de ronda, desopilo bronco desatado.
Segue teste adiante, acuidade na hipótese
de blasfêmia, gota aguda no tapume do zimbório.

Caiu uma ultra anágua, vejo vassoura,
som na calçada: vendendo acelga,
vai bacuri, Uiraquitã, vai!

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 27 de outubro de 2004

Casamento do céu e do inferno

No azul do céu de metileno
a lua irônica
diurética
é uma gravura de sala de jantar.

Anjos da guarda em expedição noturna
velam sonos púberes
espantando mosquitos
de cortinados e grinaldas.

Pela escada em espiral
diz-que tem virgens tresmalhadas,
incorporadas à via-láctea,
vaga-lumeando…

Por uma frincha
o diabo espreita com o olho torto.

Diabo tem uma luneta
que varre léguas de sete léguas
e tem ouvido fino
que nem violino.

São Pedro dorme
e o relógio do céu ronca mecânico.
Diabo espreita por uma frincha.

Lá embaixo
suspiram bocas machucadas.
Suspiram rezas? Suspiram manso,
de amor.

E os corpos enrolados
ficam mais enrolados ainda
e a carne penetra na carne.

Que a vontade de Deus se cumpra!
Tirante Laura e talvez Beatriz,
o resto vai para o inferno.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Estrelamentos

Há coisas no ar…
Labaredas lambem o láparo
Sob estrelas de colostro enquanto
O lobo leva o lábaro estrelado
E lépida lesma lavra a losna
No atulhamento do vaso.

Raízes tramam agregados
No degredo de uma terra
Sob céus azuis austrais.

Estrelamentos são possíveis,
Tudo é possível, arcos sem íris,
Gostar sem desejo:

Eis o segredo da paz
Nessas águas revoltas.

Pedro Luiz Da Cas Viegas.
Gravataí, 10/08/2012.

Dança

Densa dança que condensa
Intensa chama desses passos
Tão leves quanto os olhares
Mais leves que os espaços.

As dimensões de um cosmos
Cria e trama em compassos.
Avança e traça segundos
Feitos de tons e matizes.

E nessa luz te encontro
Fazemos parte do drama.
Sou sua cor, movimento

E és tu que me conduzes
Por estes tempos que ardem
Entre risos, fogos e luzes.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 10/07/2012

Chá de jasmim IV

O bom sangue corre nas veias.
Receias o mal que não conheces.
As preces como mantras garantidos.
Terás sido a melhor das que não tive.

Ourives das peças mais consagradas,
Te agrada saber que nada sei.
Qual lei fala de ser comum.
Humano, vacum, todo o fim é o mesmo.

A esmo, tudo matamos, bichos e gentes.
Lamentas, choras choros ensaiados.
Traçados os planos, o dia seguinte.
Pedintes, miséria, falta de sorte.

Ser forte, subir e descer o caminho.
Teu destino, grafado no pó deste vento.
Cada momento, que seja o elo faltante.
Errante, integro a massa vazia.

O avançar da idade sepulta a vontade abortada.
Desperta o grito no estertor da agonia.
Submerge a ilha nas vagas do mar,
Derivar, indeciso, em meio, ao longo, ao fim.

Telhados escondem estes mecanismos.
Esfregar fuligens das pratas.
Polir, enganando o tempo que passa.

Devir, apenas o fim que principia,
Conteúdo pulsante de um estojo de ossos.
Estrutura, treliça armada, cimento, ferrugem.

Granular natureza, discreta, finita.
O circuito fechado revela
A função das paredes.

De joelho ao pé da estátua.
Uma gota pintada na ferida de gesso.
Gestos de pedra.

Arte da dor.
Não há chá
Sem a morte da flor.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 2002

Agora

Circulo em trânsito entretecido
Em diáspora plena de vício tenso.
Vejo amêndoas agridoces ao óleo
Do viço do seio farto
E Vênus ouvindo mar na concha,
Coaxos, martelos, velhos mantras.
A lacraia riscando a cambraia
E um pote cheio no decote pleno.
Há lua de nova luz,
Velha palidez na face do poeta
Que concebe um lampejo, um anjo, um fauno.
Quero um beijo, ouça e prove
E sinta a cada passo:
O astrolábio e as estrelas,
As pegadas e os caminhos
Canibais de cada dia
Que consomem os andares
Nos conduzem
A destinos destilados no futuro.
As paredes do agora,
Pedra sobre pedra
-Poliedro-
Definitivamente se consomem
Em poemas não escritos.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 22 de junho de 2012

Angra


Atomímica bombatômica
No deca serão fogos
Fogos de arte físsil
Nos céus de artifício
De cobalto e plutônio
Dos lixões das Angras
— Digas,  povo, por que exultas?
— Digas, povo, por que sangras?

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre,30/06/02
Gravataí, 03/06/ 2012