Ode à Terra

Terra, terra aterradora,
eis as obras que fizemos.
A vós, Terra, as sobras do que comemos.
Escutai das nossa vozes
de tantos e tantos falares
palavras que pouco dizem
e silêncios que tanto calam.

Aceitai, pois, nosso legado,
e tomai por oferenda:
rios mortos, céus desolados,
sementes que já não brotam,
tantas vidas sem poesia,
tristes velhos sem crepúsculo
e crianças sem madrugada.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 03/10/2002
Cachoeirinha, 16/06/2025


Comentário: Neste poema, o eu lírico dirige-se à Terra com uma voz quase litúrgica, denunciando as “obras que fizemos”: um legado de destruição ambiental e vazio existencial. A estrutura em duas estrofes contrapõe a profusão vazia de palavras e silêncios sufocantes à devastação concreta — “rios mortos, céus desolados”, “sementes que já não brotam”.
A força do poema reside na conjunção entre o tom ritualístico — “aceitai, pois, nosso legado” — e a carga emocional que evoca o ciclo vital interrompido: “tantas vidas sem poesia, tristes velhos sem crepúsculo e crianças sem madrugada”.
É uma ode amarga, que reverbera crítica social e filosófica, mas também convida à reflexão profunda sobre a responsabilidade humana diante do planeta e da existência, destacando a relação com a natureza.

Poças e pedras

O poeta disse
que no caminho havia uma pedra.
No meu caminho
não havia pedras.
Havia aquelas poças
onde pés descalços pisavam
em despreocupada corrida na chuva
em idas tardes de verão.

Algo ficou para trás.
Não foram as poças,
Não foram as chuvas,
Não foram as tardes.

Procuro saber
e pergunto a essas pedras
o que ficou para trás
que tanto me falta agora.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 13 a 23/04/2025

Poças e pedras (2a versão)

O poeta disse
que no meio do caminho
havia uma pedra.

No meu caminho
não havia pedras.
Havia aquelas poças
onde pés descalços pisavam
em despreocupada
corrida na chuva
em idas tardes de verão.

Com o tempo
eu me fiz pedra
e as pedras se fizeram
e hoje dou razão ao poeta.

As chuvas não são como antes,
nem as tardes,
nem mesmo o sol.

Hoje evito as poças
e o frio nos meus pés.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 24/04/2025

Sapatos

Narilene ganhou três sapatos.
Um deles, de salto solto.
Outro, sem a sola estava.
O terceiro, desenhado a lápis sem ponta,
Narilene dobrou para colorir outro dia.
E seguiu descalça pelos sonhos que podia ter.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 23/05/2012