Dentifrício

Espelho de fronte.
Semidesperto reflexo.
Escovejo dentes
Sem qualquer sorriso.
Cuspo na pia
O branco de espuma.
Frescor que escoa
Até a quietude do ralo.
Escovejo sorriso
E o sorriso escoa.
Frescor do sorriso espelhado.
Frescor do sorriso no ralo.

pedro viegas porto alegre 11/04/2005

Dança

Densa dança que condensa
Intensa chama desses passos
Tão leves quanto os olhares
Mais leves que os espaços.

As dimensões de um cosmos
Cria e trama em compassos.
Avança e traça segundos
Feitos de tons e matizes.

E nessa luz te encontro
Fazemos parte do drama.
Sou sua cor, movimento

E és tu que me conduzes
Por estes tempos que ardem
Entre risos, fogos e luzes.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 10/07/2012

Noção de tu e você

Mal me quer e já desiste. Sequer testaste tentando.
Vago senso, sentir nada. Talvez de quando em quando.
Palavra por palavra, pensada, face parada, mudez.
Cala e grita, credo nas cruzes, mas que bela palidez.

Não passe mal, eu só peço, nem tenha assim tanto medo.
Me reza e me chora e quem sabe me critica, tua boa intenção.
Me jura e fere e cura, me estraçalha inda hoje, cedo, cedo.
Mas nem agora nem depois, quem sabe quando, coração.

Um momento, aguarde, aguarde. Já não tarda.
Talvez morra dentro em pouco. Fosca, parda.
Vejo era que finda. Percebendo, percebendo.

São meus olhos ou é tudo que já some consumido?
É agora, já percebe? Inda estará me ouvindo?
Oh sim, a senha, a senha. Eu já ia esquecendo.

Pedro Luiz Da Cas Viegas.
Porto Alegre, 26/11/2004

Agora

Circulo em trânsito entretecido
Em diáspora plena de vício tenso.
Vejo amêndoas agridoces ao óleo
Do viço do seio farto
E Vênus ouvindo mar na concha,
Coaxos, martelos, velhos mantras.
A lacraia riscando a cambraia
E um pote cheio no decote pleno.
Há lua de nova luz,
Velha palidez na face do poeta
Que concebe um lampejo, um anjo, um fauno.
Quero um beijo, ouça e prove
E sinta a cada passo:
O astrolábio e as estrelas,
As pegadas e os caminhos
Canibais de cada dia
Que consomem os andares
Nos conduzem
A destinos destilados no futuro.
As paredes do agora,
Pedra sobre pedra
-Poliedro-
Definitivamente se consomem
Em poemas não escritos.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 22 de junho de 2012

Dança do cisne

Inelástica, inerente,
Inevitavelmente
Coeso ao centro do ato
No eterno átimo
De angular esforço,
Atrativamente
Orbitando no sistema
Cisma o cisne
Ensimesmado no confronto
Do oculto enfisema
Enquanto avançam nos seus cursos
Seres, deuses, astros,
Naves neste caldo cósmico,
Éter e poeira,
Pensamentos.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 13/06/2012

Tua chama

Carnes em bocas ávidas,
Pétalas em água cálida,
Sumos de frutas grávidas,
Dragão sobre a pele pálida.
Suspenso em arco voltaico
Lanço palavras ao vácuo
E não me faço ouvir.
Apenas a Lua lê meus lábios
E permanece muda.
Fina seda plástica encobre tua pele
E a brisa não existe sem teu toque.
Pendem vitoriosos astros envelhecendo tua memória.
Louvada sejas enquanto brilhes em mim
E apague-se com o meu próprio olvido
Tua chama.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 16/06/2012

Retilineamentos

Preciso continuar nesta linha.
Atesto o desconcerto na brandura calma,
Diafanar de dia findo, tepidez parada,
Luas vazias e mancheias,
Quanto custa, quanto custa.

Giro não é sério sem eixo
Imaginário ou feito de algo.
Bonecos ou não, deixam um espaço
Entre aqui e ali.
E parece haver um caminho ou mais
De uma saída.
Ao menos.

Estireno

Plastifólios. As gotas rolam livres.
Ar quasiplexo desfeito no borborigmo.
Leveza maior que a do algodão adocicado
Girando e o vento levando a bola de cor salteada.
Que memória clara e que movimentos.
Traços livres pensam moldado algo que vem,
Na semana, no fim de semana,
Um vaso velho
Arranhado ou semi quebrado,
Cola tudo, nem é possível.
Tecido, tem sido difícil,
Ter sido sarcástico,
De madeira, de carne,
De plástico.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí – ?

Indecorosa

Flor na minha tela
IndecoRosa
Mente delicada
Pensa flora
Enquanto a miro tenso

Fina palidez
A imagino
Coisa nova, tez do pêssego

Então a despetalo
Na minha retina

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí 01/03/2012