Espera

Desperto pasmo e não te vejo.
Percebo as horas avançadas,
o corpo que reclama,
o sono que persiste.

Reverbera a fadiga da distância
e do tempo entre nós.
Peço que voltes logo
para abrandar o tempo.

Te aguardo como quem aguarda
um cometa de raro brilho
e efêmera passagem,
indelével maravilha.

Acima das nuvens negras
que sufocam esperanças
queima o sol o seu caminho,
ditosamente escarlate.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 27/02/2026

Três e vinte

Três e vinte.
Os ponteiros não andam, correm em debandada.
Sobre o corpo pesa a vida.
Sobre a alma, as escolhas.

Três e trinta.
O que dizer do livre-arbítrio?
A vida ensina que vale mais a escravidão
sob o jugo de um sábio.

Três e quarenta.
A luz é necessária.
A luz não alcança os abismos.
É necessário emergir.

Três e cinquenta.
Foram-se trinta minutos.
Urge emergir.
Me acostumei neste abismo.

Quatro horas.
Não sei escolher.
Preciso de mão que me arranque
desta escuridão.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 19/02/2026

On/off

Quem liga 
Para o que digo? 
Meu tempo 
Meus planos 
Quem ligou 
A luz que cega?       

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 12/11/2004

Zodíaco

Ó parede, somente tu me escutas.
Respondes reverberando,
na frieza do reboco,
esta voz que ninguém ouve.

Pensava inocente
que as estrelas me ouvissem,
mas percebo, no estelário desta noite,
uma beleza que é distância e ausência.

Ó parede, me perdi olhando o céu
à procura de algo familiar.
Mas Órion não veio e a Lua
repousa entre as sombras.

Tu, parede, sucedâneo do Zodíaco,
o silêncio é teu vaticínio.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 17/02/2026

Capitulação

Resmungam nos quintais
os cães,
o vento,
as horas liminares.

Versos nascem
e morrem esquecidos
distantes dos olhares.

O que sei de ti, que não me lês?
O que sei  dos cães nesses quintais?

Do vento inconsolável e das horas taciturnas —
o que sei?
Há algo a saber?

Durmam, doces e amargos versos.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 15/02/2026

Quintais

No quintal do vizinho
um cachorro resmunga.

Selo os ouvidos
para não ouvir.

No quintal de mim mesmo
uma alma resmunga.

E agora?
E agora?

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 14/02/2026

Procura-se luz

Uma libélula emerge da noite.
Sonhou com o sol.

Fria é a luz das luminárias
Nessas noites repletas de luzes
e asas perdidas em vôos errantes.

Procura-se luz.
Há um sol que te aguarda
na multidão dos luzeiros
dispersos no abismo do mundo.

Vejo o inseto que mergulha.
Vejo-me.
Brilho de tolo.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 14/02/2026

Partida

Te falo do tempo,
da chuva mansinha,
da torta na geladeira,
do menino que saiu na chuva.

Te falo de tudo o que vejo,
tudo o que sinto.

Mas eu te compreendo.
Tu não podes perder o avião das dezoito.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha,  15/02/2026

A próxima dança

Calo minhas vozes para ouvir a chuva.
Ela fala algo antigo.
Ouve-se um borborigmo
nas entranhas do céu.

A penumbra e a chuva envolvem
a alma, o jardim e seus sonhos.
Dançam a água e o vento abraçados
sob o olhar fatigado das flores.

Os dançarinos se vão e permaneço
ao alcance dos braços do sol
que se põe além da janela, guardião
de uma tarde de sonhos que finda.

Vai-se o sol e a noite traz certa música.
Eu, o jardim e a lua
aguardamos a próxima dança.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 12/02/2026

Um longo passeio

Desabrocham as novas horas.
A vida é pendão de glicínias.
Nesse jardim eu desperto,
mármore que o sol aquece
entre jasmins e azaleias.

Sobre as telhas, o galo
mostra o rumo do vento
e as roupas no varal
respiram suave dança
de braços dados com a brisa.

As dálias e os suspiros
confidenciam saudades
dos tempos das borboletas
e da leve, leve inocência.

Pingentes de luz transbordam
dos olhos suspensos em sonho.
As flores e as nuvens estampadas no céu
me deram as mãos para um longo passeio.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 12/02/2026

Palavras não dizem

As palavras são tão poucas,
mas tanto falam as flores
aos ouvidos da brisa,
que me traz tantos segredos.

Aquele gato entre a relva
vê coisas que não posso explicar.
Decerto também ouve a brisa
e o grande sonho da taturana.

Decerto também tu sonhas
colhendo botões que despertam.
Falas com o sol e as formigas
e os besouros que te querem ver.

Sorrio um céu de andorinhas,
de safiras e ametistas,
manto cobrindo um mundo
que ainda não despertou.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha,  11/2/2026

Um certo motivo

Dize-me qual é o motivo da flor.
Decifra-me o que o vento tanto sussurra.
Explica-me essa insistência do sol em queimar no vazio.

Não tive forças para abrir a porta e ver a mesma manhã.
Os pássaros têm parecido mais tímidos.
As borboletas, mais miúdas.

Tenho falado com Ele.
Sim, Ele me ouve.
Ele não me dá mel, mas as abelhas.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 10/02/2026





Self-arquitetura

Dos escombros que de mim restaram
construí esta imponente ruína
ante a qual os castelos ao redor apequenam-se.

Pedro Luiz da Cas Viegas
Cachoeirinha, 09/02/2026

Golem

Lembro-me de ter morrido várias vezes nesta vida.   
E a cada ressurreição quedei-me abismado.   
Ultimamente tenho percebido que as mortes continuam ocorrendo   
sem que me causem grande espanto.   
A cada minuto morro.    
A cada minuto ressuscito.   
Mais Golem, menos Alma.     
   
Pedro Viegas, 7.2.2026

Abismo

Eu estou aqui, tu estás aí. Estamos tão próximos, ligados por essa distância que nos separa. O vento me despertou de um sonho em que quase nos tocávamos. Desperto tão próximo de ti que nossos sonhos se confundem.

E percebo, nesse contato tão distante, que não há sonho em mim, que não há sonho em ti, que não há sonho entre nós. Há apenas o vento que sibila e o frio espaço que separa tantas estrelas.

pedro luiz da cas viegas
8.2.2026

Cão mundo

Sol salamandra, gotas de vidro.
Depois deste sono, esperar por mais sono.
O homem é a pedra no sapato do homem.
Ladra o cão advertindo aquele passante.
Ladram o sol e a lua.
Ladram as flores e a relva.
Ladram as nuvens e a brisa.
Ladra o aroma do diesel.
Ladram os túmulos.
Cão mundo, estrelas caídas.
Anjos não fazem poemas.

Vi a nossa apoteose.
Vejo o nosso ocaso.
Nos assistem essas partículas
em quântico desencanto,
em cínica indiferença.

Desligamos as luzes.
Adormecemos novamente.

Cachoeirinha, 8fev2026

SÁBADO:1:13

Há horas de palavras sem forma.
Há coisas que palavras não descrevem.
A vontade é um prurido disperso na alma.
A felicidade mora num planeta a eons-luz de distância.
Fico aqui,
entre horas,
palavras sem forma,
coisas indescritíveis e este prurido na alma.

Esta coisa, que palavra poderá descrever?
Esta ausência, sentes?

Pedro Viegas, 7.2.26

Escândalo

Ah, essas coisas absurdas que insistem em existir.
Essas existências absurdas,
absurdas como a vida,
por si mesma absurda.

Vês a lua?
Ainda está lá.
E me olha, estás vendo?
E me pisca ofuscada no seu próprio refletir.
Me pisca como fazendo um convite,
ou querendo dizer algo
que sempre gritei
no silêncio de mim mesmo.

Ah, essas coisas que calamos
aguardando confessor.
Talvez a lua me ouvisse os gritos.
Por isso, entre as nuvens desta noite,
esconda seu escândalo.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 01/02/2026

11:00

A toalha e suas mensagens de café.
A mesa fala sobre a penumbra deste cômodo.
O furo na toalha parece dizer algo.
O café mistura-se ao leite.
O açúcar se dissolve. 
Dissipa-se o calor de tudo e o frio
permeia as palavras.
As coisas parecem não mais ter o que dizer.
Eu procuro dizer algo.
Para alguém,
para Deus,
para mim mesmo.

Pedro Luiz Viegas.
Cachoeirinha, 6/2/2026

19:00

Todos estão ocupados.
Uns nascem,
uns crescem,
uns morrem.
Parei em algum ponto.
Talvez eu seja um eterno nascituro.
Todo este crescimento se resume em sofrer,
carregar uma cruz
e agradecer.
A loucura do mundo não é a minha loucura.
Mas não sou convicto da minha própria loucura.
Começo a desejar e me alegrar com o fim,
pois percebo estar entre aqueles que morrem para o mundo.
E eventualmente para a vida.
O mundo parece me acompanhar nesta morte.
Mundo malnascido.
Mundo que incha como carniça varada pelo gusano.
Mundo que não cobiço.
Mundo.
É este o mundo.
Sou este o eu.

Pedro Viegas. Cachoeirinha, 5/2/2026

Sonho num sonho

Todos dormem.
As coisas,
os bichos,
as gentes.
Sono de justos.

Meu sono é sono que não cessa.
Esta vigília é uma seção insone
de um sono sem fim.

Fazem parte deste sono
a rua, os postes,
as luzes de diáfano sódio,
as estrelas, a lua
e o estofo breu do abismo.

Faço parte deste sono
e deste sonho que se passa
em confins jamais sonhados —
onde sou de mim desperto
para sonhar ao teu lado.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha,  04/02/2026

Viagem

Longa é a espera.
Difícil é o caminho.
Estreita é a passagem.

Convém levar para a viagem
provisão para o corpo,
ilusão para a esperança.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 04/02/2026

Penitência

A dor. Agradeço pela dor.
Espero que a dor seja a minha redenção.

O corpo dói, a alma aprende
a se postar de joelhos.

Os joelhos — eles reclamam
da dureza deste piso.

A dor. Agradeço pela dor.
Que os joelhos também agradeçam.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 01/02/2026

O congresso

Gritas, ó galo.
Fazes parte do congresso
dos perdidos arrabaldes.

Faz parte do congresso
o fartum trazido pela brisa,
imemorial, atemporal.

Faz parte do congresso
o braseiro derramado sobre a terra,
a loquacidade dessas almas esfumaçadas.

Faz parte do congresso
esta mudez voluntária
transmutada em poesia.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 2/2/2026

Meu deserto

Tinto, seco,
como as areias do Namib,
é este coração
que a névoa mantém vivo.

Tinto, seco,
é o dia que permeia
cada vaso deste corpo
com a solidão dessas dunas.

Em meu coração há um Namib
de dunas rubras e escaldantes.

Em meu coração há um Negueb
cujas rochas florescem com a chuva.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 01/02/2026

Cai a tarde

Cai a tarde,
Caem as almas
adentrando os portais.
Nuvens de brasas
percorrem um indiferente azul flamejante.

O que faço aqui,
olhando este ocaso,
este inevitável final de linha?
Sob o sol fui apenas mais um.
Nada há a ser mudado.

Cai a tarde,
Caem as almas,
Cai o último baluarte
que abrigava um resquício de esperança.
O que havia de ser, consumou-se.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha,  28/01/2026

Indecifrada

Não, não me pede para compreender-te.
Não desejo mais entender a vida
ou pensá-la exaustivamente.

Passamos pela vida.
A vida nos trespassa.
E tu és meu enigma.

A vida, devo apenas vivê-la.
E a ti, devo muito mais viver-te:
até o último instante, indecifrada.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 24/01/2026

Riscado

Agora escrevo assim: risco a esmo
Sobre absolutamente nada e até mesmo
Sobre a busca do melhor dia logo à frente,
Sobre a bruma que me invade insistente.

Escrevo sobre nada, eu insisto.
E desse mesmo nada eu me invisto.
Não escrevo sobre a beleza deste dia,
Não penso no futuro nem respiro nostalgia.

Risco a esmo estes versos despojados.
Risco desta alma o derradeiro, ingente fado:
Risco estes versos para esquecer a breve Morte.
Risco ao acaso o meu rumo, o meu azar e a minha sorte.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha,  12/01/2026

Oi amor

Oi, amor
Tudo bem?
Isto não é vida, amor.
E este amor não é vida.
E este amor e esta vida
Sequer são amor.

Oi amor.
Se me escutas, responde.
Sequer sei quando, ou onde
Aquele trem me dividiu
Em opiniões tão opostas
No Terminal da Despedida.

Oi amor.
Espero não estares sentida
Por algo que não prometi
E que aguardas
Com a chegada das chuvas.

Oi amor.
Creio que não me ouves.
Creio que não me vês.
Decerto sequer me pensas.
Tu dormes.
Decerto sequer me sonhas.

…Oi amor. 
   

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha,  10/01/2026

Nosso amor

É xadrez a tampa desse pote.
É xadrez a toalha sob os limões.
É xadrez o jogo desta vida
Onde sou rei encurralado
Num derradeiro xeque-mate.

Frita o frango.
Faz uma xícara de arroz
Com uma colher de sopa de sal.
Deixa em fogo baixo.
E reza, reza por nós.

Eu vou lutar, mas
A vida não deveria ser uma arena.
De onde vêm esses golpes,
Essa ansiedade,
Essa dor que arde na alma?

Mas talvez não seja o mundo.
Talvez seja aqui dentro, vês?
Vês esta tempestade?
Mas também há um sol serenamente
Brilhando: nosso amor.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 06/01/2026

Relax

Respirei profundamente.
Foi como ar puro
alimentando fogo de forja.
Por um momento
o cinza tornou-se cores.

Por um momento,
através das grades da janela,
entrou a luz
e tudo se tornou
mais vívido,
mais nítido,
mais claro.

E a mosca
perdida na vidraça
me esclareceu
o quanto podemos nos perder
em errantes voos.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 28/12/2025

REFLEXÃO 3


A morte não é nada.
Pior é o que pode vir depois.
Pior ainda é não poder escolher o traje.

Restos

O espelho reflete a parede
às minhas costas.
A parede reflete a luz
sobre ela jorrada
de um ponto no teto.

O teto se abre exibindo
o mecanismo do tempo,
suspenso no fundo dos olhos
com que miro
alguém no espelho.

Tanto tempo repousaste
sem perceber que te ias
levado pela corrente.
O que de ti restou
agora te mira desse espelho.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 27/12/2025

Letargia

Neste Natal cantam os galos.
Rasgam o sossego com seus gritos.
É cinza o tempo que escorre,
É cinza esta dor que me consome a alma.

Os galos advertem.
Acumulei em demasia
As paixões de todo descartáveis
E neguei o que em mim ainda ardia.

As poças entre as pedras da rua
As vejo através das grades do portão
E as folhas e o cão e minha alma
Adormecem em cinzenta letargia.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 25/12/2025

E alguma esperança

Dormi.
Sonhei sonhos de sais.
O dia foi mais outro
E uma tristeza sem corpo
Nem conteúdo
Habita as horas
Que me preenchem vasos,
Alvéolos e interstícios.

A cada hora que passa
O mundo me é mais estranho.
Quanto mais o mundo conheço
Mais desconheço a mim mesmo.

Os sonhos dizem algo
Que não sei discernir.
O sono renova o ânimo
E a vida passa
A cada sonho que seca.

Tudo está fora dos eixos,
Eis o que os sonhos nos dizem.
Mas o ânimo é uma gangorra.
E agora os sais são bem vindos.
E alguma esperança.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha,  26/12/2025

Liberdade 2

Nada sei.
Sequer sei se há algo para ser sabido.
Algo que de fato importe.
Os homens naufragaram no seu conhecimento.
Subverteram a Verdade
Em arrogante Gnose
E perversas ideologias.
Pretenderam alcançar as alturas do Sol
Com asas de cera
E tomaram a queda como vôo livre.

Ah, Liberdade…
Toda queda é livre
E pular é livre escolha.
Autossuficientes,
Acreditam-se mais leves que o ar
Até que o dureza do solo
Os desperte tardiamente do delírio.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 21/12/2025

Botas

Sob as solas de minhas botas
Gritam caminhos por mim trilhados.
Eles se abraçam aos meus passos
Como lama e escarro jacente
Nas calçadas e sarjetares do mundo.

Desci com minhas botas
Às latrinas do mercado
E encontrei a resposta para a pergunta
Que jamais fiz:
O que procuro?

A resposta sempre esteve
Aqui, bem aqui dentro
E no inenso vazio à minha volta.
Mas não hei de lançar
Pérolas aos porcos.

Hoje percorro outras vias.
A carga ainda é pesada
E as botas me apertam —
Pés cansados
De inúteis caminhadas.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 20/12/2025

Veias

Rumo em dor lenta, dor 
De sentir chama no peito. 
Brasa, aperto, medo e ânsia, 
Proximidade e distância, 
Ardente dor, ardentes tempos 
De muita seca e chuva em demasia. 
E a alma afaga 
Afogadas esperanças 
Que ventos varrem dos caminhos 
Dessas vidas transeuntes. 
 
Rocha vermelha. Muita pedra 
Para um só coração. 
Que a dor de viver fragmenta 
E torna em pó 
Que corre em veias 
De pedra 
De gelo 
De desespero. 
 
Pedro Luiz Da Cas Viegas 
Cachoeirinha,  20/12/2025 

Ruas


 
Tenho a nítida impressão de que a rua da minha infância encolheu. 
De fato, o bairro todo — a cidade. 
 
Talvez meu coração tenha encolhido pela escassez de sonhos. Já não sonho, e o que resta desta vida é ranger de portas e de dentes. 
 
Busco em algum sal o sossego para a alma. Enquanto umas coisas morrem, outras vão nascendo, e a rua adormecida e ressecada apenas encolhe, descolore e se sucede em imorredoura senescência. 
 
A rua que me viu crescer há de saber da minha morte, para juntá-la à sua própria. 
 
Pedro Luiz Da Cas Viegas 
Cachoeirinha,  13/12/2025 

REFLEXÃO 2

O autoconhecimento é aquele processo no qual o indivíduo, ao se conhecer cada vez mais, cada vez mais se desconhece.

Prognóstico II

Eis meu ocaso.
Sem cores.
Apenas cinza e dores.
E este velho medo.

Tarde, é tarde.
Não há tempo.
Não há modo.
Resta o medo.

O medo que aperta o peito.
O medo incerto e não sabido.
O medo fera.
O medo maltrapilho.

Aguardo o início.
O decorrer.
O desfecho.
O prognóstico.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 12/12/2025

Pronóstico II

He aquí mi ocaso.
Sin colores.
Solo gris y dolores.
Y este viejo miedo.

Tarde, es tarde.
No hay tiempo.
No hay modo.
Queda el miedo.

El miedo que aprieta el pecho.
El miedo incierto y no sabido.
El miedo fiera.
El miedo andrajoso.

Aguardo el inicio.
El transcurso.
El desenlace.
El pronóstico.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 12/12/2025

Fora da rua há muito cansei – in: Santuário

Fora da rua há muito cansei. Alguém me leve deste jardim. Há muito não sei se sou eu que passo pelo tempo ou se é o tempo assim, apressado. Espero, com esta imagem ainda forte de metal contra vida distraída, que o tempo tenha sido indolor para aquele cão. Algo, na tela do pára-brisa, voou em giro rápido, não sei, não quero, mas penso, aquele pára-choque amassado e os músculos e o corpo, trajeto no asfalto, instante eterno. O menino correu, percebi muito em um relance. Aquele motorista não teve tempo, velocidade consome. O cão desfeito. O menino, a mãe, aflição na face do menino que corre. Talvez a chuva esteja lavando agora o sangue. Talvez a lágrima esteja lavando agora a dor. O passado eterno.


Vida louca, coração de rocha vermelha.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 200?

Lírios e pássaros

Dias longe de casa.
Dias sozinho.
Chove a água que se derrama das almas
Sozinhas, caladas.

Mas sejamos como esses pássaros
E esses lírios do campo
Que não planejam nem temem
O decorrer e o fim dos seus dias.

Que passe essa chuva.
Que passe este peso.
Que passe esta vida
Como brisa carregando suave olor.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Brasília, 27/11/2025

REFLEXÃO 1

A todos aqueles que admiram Lúcifer como sendo o primeiro rebelde e descontente, eu digo que ele também foi o primeiro condenado.

Dentifrício

Espelho de fronte.
Semidesperto reflexo.
Escovejo dentes
Sem qualquer sorriso.
Cuspo na pia
O branco de espuma.
Frescor que escoa
Até a quietude do ralo.
Escovejo sorriso
E o sorriso escoa.
Frescor do sorriso espelhado.
Frescor do sorriso no ralo.

pedro viegas porto alegre 11/04/2005

Prata

A prata da Lua
Quisera fosse vermelha
Fosse verde ou azul
Uma cor menos crua
A prata de sempre
Do astro sem luz que espelha
Espelha e espalha silente
A luz da velha estrela
Que noutro lado do mundo
Performa o giro do dia
O dia de sempre
O giro sem rumo
A noite de sempre
A sempre velha luz fria

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 02 de fevereiro de 2002

Multidão

Multidão

E então alguém diz
-O que vais fazer agora?
E outra voz responde
-Não sei para onde ir.
Sou muitos neste corpo só.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, maio 2002

Texturas 2

A beleza da vida depende do ângulo sob o qual é olhada.

Texturas

Quantas palavras uma imagem economiza. Quantas coisas as palavras banalizam.

Resenha – O jogo das contas de vidro – Hermann Hesse

O livro O jogo das contas de vidro, de Hermann Hesse, não é uma leitura fácil. O autor parece chamar atenção para isso no trecho em que descreve um livro que José Servo examina: “Por fim, puxou um volume encadernado, já um pouco desbotado, cujo título, Sabedoria de um brâmane, o atraiu. Primeiro em pé, logo depois sentado, folheou o livro que continha centenas de poesias didáticas, uma curiosa miscelânea de verbosidade oca e de verdadeira sabedoria, de filistinismo e autêntico estro poético. Não faltava esoterismo a esse livro estranho e tocante, assim quis lhe parecer, mas essa doutrina arcana vinha envolta numa casca grosseira, de fabricação caseira.”
De fato, por vezes a leitura é monótona e prolixa, de uma narrativa densa mas vazia de significado. Este não é um livro para entreter, longe disso. O autor buscou algo mais, de modo que não, não é nada fácil este livro. Das poucas resenhas que li deste livro, todas foram muito superficiais e parece que ou o livro foi lido às pressas ou não se compreendeu a mensagem.
O jogo das contas de vidro foi o ponto culminante da carreira do escritor, já idoso, e lhe valeu o Prêmio Nobel de Literatura de 1946.
O livro é dividido em três partes.
A primeira, dividida em 12 capítulos, é uma biografia do protagonista.
A segunda parte é um conjunto de poemas escritos por José Servo.
Na terceira parte são narradas três “existências” do protagonista, que são exercícios propostos a ele como parte de suas atividades em Castália.


Iniciei a releitura a partir da terceira parte do livro, que narra as três encarnações anteriores de José Servo. Acabei de ler o capítulo intitulado “O Conjurador da Chuva”. Simplesmente magnífico, tanto pelo enredo como pelo conteúdo. Nada melhor que uma releitura passados tantos anos da primeira imersão neste livro. É como se agora eu compreendesse o que na primeira ocasião não percebia.
Neste capítulo aborda-se o fato de, apesar do homem primitivo não ter sido dotado do refinamento da razão, seus sentidos e intuição eram mais desenvolvidos. Aborda-se o papel que o medo da natureza, dos elementos, das feras e doenças teve na espiritualização do homem primitivo. Hoje, com a hybris científica, o homem perde inclusive o sentido da vida.
A segunda encarnação de José Servo é o tema de “O Confessor”. Neste capítulo, trata-se da encarnação de José Servo na pessoa do penitente Josephus Famulus. Um elemento presente ao longo de toda a obra é o conceito de servir ao próximo, um conceito essencialmente cristão. Näo é acaso o nome do protagonista. Um capítulo dos mais emocionantes do livro.
Um momento que chamou de modo especial minha atenção foi quando Dion Pugil falou a Josephus Famulus que o cristão não deve tentar converter os pagãos felizes, mas sim aos infelizes que buscam ajuda e que mais cedo ou mais tarde algo acontece com aquela volátil felicidade e acabam por buscar a Deus. Enquanto em “O conjurador da chuva” a ênfase foi o animismo, nos dois seguintes, “O confessor” e “A encarnação hindu” tem-se respectivamente o cristianismo e a filosofia hindu.
O capítulo “A encarnação hindu” é uma belíssima narrativa da vida de Dasa e uma ilustração sobre maia, a natureza ilusória da existência. Neste livro e nos livros Siddhartha e O Lobo da Estepe o autor demonstra influência da filosofia e da espiritualidade orientais, mais notadamente o budismo e o taoismo. Neste capítulo é dada grande ênfase para a ioga, isto é, a praticada pelos ascetas iogues.


O livro é um grande tributo ao indivíduo, à autodeterminação, ao serviço e, sim, à busca da nobreza de espírito. O livro narra a vida de José Servo, cuja trajetória  foi marcada por dúvidas, mas também pela transcendência e pelo despertar. A caminhada do protagonista foi marcada pelo serviço ao modo de São  Cristóvão,  que visava sempre servir aos senhores mais poderosos (para um cristão não há outra coisa que se possa fazer que não seja servir ao maior Senhor, já que toda obra é feita para Sua glória). José queria que sua vida fosse um transcender, um progredir, um despertar ao final de cada etapa da vida, quando o ânimo e as possibilidades parecem se esgotar. Pode parecer algo egoísta, mas é falsa aparência. Quem faz o bem visando seu crescimento somente pode fazer bem ao mundo. Outro aspecto explorado é uma aristocracia do espírito, capaz de transmutar, no período de uma vida, um mero plebeu num verdadeiro nobre. Mas a impressão que tive é que o livro fala muito mais do que está escrito.  Toda a vida de José Servo, a constante mudança dos meios na busca de uma transcendência e, finalmente, seu último discípulo, Tito,  e o triste desfecho do livro, me fizeram pensar. Havia pensado sobre o tom orientalista do livro, e se talvez Hermann Hesse quisesse expressar, desse modo, maia. Sim, as partes do livro estão interligadas, uma parte explica a outra.  Confesso que nesta segunda leitura compreendi muito melhor a obra, mas este é o tipo de leitura para se digerir lentamente com o tempo. É uma obra monumental pela sua complexidade e beleza e o autor faz jus ao Nobel recebido em 1946.


Um lado negativo no livro é a ênfase dada à filosofia e religião orientais. O cristianismo tem um pequeno lugar na obra. A moda orientalista vigorava nos tempos do autor. Como diz Jeffrey Nyquist em “O Tolo e seu Inimigo”: cui bono?

Biloca Catarina

Amor

Semidurmo de alma e corpo,
feto sob útero de cobertas,
na penumbra de um quarto casular.

Tu me chamas para a vida,
tu perguntas o que eu tenho.
— Não sei, eu digo.
Não sei, duvido de mim mesmo.
Não sei sequer se me conheço,
não sei o que quero,
o que sou ou quem sou.

— Meu bem, talvez isto passe
com uma xícara de café.

Me traz, então.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha,  24/05/2025

Encontrados – 3

Alguém me deseja um bom dia.

Tenho um péssimo dia.

É, não são apenas meus desejos que não se concretizam.

In: Encontrados – Pedro Luiz Da Cas Viegas

Céus de maravilhas

Voo baixo.
Muito abaixo desses sonhos.
Muito abaixo das estrelas
Dos céus de maravilhas.
No meu voo,
Deliro no silêncio em meios tons.
Voo leve junto a pálidos floresceres.
Quase toco as superfícies desses seres.
Que famintos admiram estas asas.
Ouço o bramido desses seres.
Tremem minhas asas
E logo ganho altura.
Volto para os céus de maravilhas
Enquanto meu sonho não acaba.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 20/08/2025

Bustos e cenotáfios

esta cabeça que dói,
que dói por esta tarde,
por este dia, pelo que foi
e pelo que há de ser ou não ser.
por alguma questão desimportante
ou de sumiça importância.
sim, por algo ela dói, pois há um peso no mundo
e esta alma pesa feito sibilo incessante.

preciso retirar esta barba.
é como esculpir pedra bruta
que pulsa enquanto pensa pesando,
enquanto pesa pensando
pensamentos sem peso,
peso sem pensamentos,
pensamentos que esmagam,
pensamentos que vagam,
bolhas de vento que são.

pulsa profundamente
esta pedra sob esta barba
como a cabeça solene
e sonolenta de um busto
sob os pombos da praça,
amantes de bustos e cenotáfios.

pulsa profundamente
esta carne
sob esta lâmina.

pulsa.
pulsa a pedra.
pulsa a carne.
vive a lâmina.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 2012
Cachoeirinha, 19/08/2025

Tetania

a vida é séria, talvez não.
uma série de espasmos
e reações em sentido contrário
à minha vontade.

não consigo sorrir.
não consigo chorar.
eis a alma em tetania.

— vade retro!
te querer, vida?
por bem, não me queres…
por mal, não me queiras!

***

não me queiras, vida,
se é para me vestir de ausência,
se é para fingir um sentido
em cada passo sem cadência.

mal te quero, vida.
em que pese amar-te,
é bem dura esta lida
dia a dia a levar-te

como carga aos ombros
pesando na alma
aos trancos e tombos
feridas e traumas.

bem te quero, vida.
apesar dos pesares,
não incluo a partida
entre meus desejares.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 19/08/2025

Atroz

O amplexo dos teus lábios envolve os meus,
o complexo entrelaçar dos nossos seres.
Nua realidade…
O sem nexo em minha mente sucedeu

Ao saber assim de ti tantos quereres
Por este que não contempla o mesmo rumo
E apenas da bela flor deseja o sumo

Sem no entanto deixar em tua alma, indelével,
Alguma marca que te seja intolerável.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, abril/2001.

Pores do Sol

Brilhou mais uma vez, impávido,
o Sol.
E tudo cá embaixo esteve o mesmo,
assim como acima ou além dele
e, acima e além de tudo mais,
sempre foi, tem sido e há de ser,
sempre e sempre:
A mesma querida e inevitável
mesmice universal.

Hoje não vi o Sol descer do palco.
Eis as dúvidas:
Porventura terei perdido algo?
O que teria encontrado?
Uma revelação?
Como abarcar tantos possíveis?
(Eis um impossível)

Viver o que é possível
ou ver todos os pores do Sol,
eis a questão.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
17/08/2025

2 respostas a “Pores do Sol”

  1. Avatar de غيث الروح

    Suas palavras chovem sobre a alma um sussurro de possível e impossível ao mesmo tempo,
    nos questionando sobre o pôr do sol que vemos todo dia,
    sobre a mesmice que parece fixa,
    e sobre os momentos em que a alma tenta abarcar todas as possibilidades…
    Em seu texto, encontramos o silêncio do universo sussurrando: viver o momento, apesar de todos os impossíveis.

    Ghayth da Alma☁️

    Curtido por 2 pessoas

    1. Avatar de Pedro Luiz Da Cas Viegas

      Muito grato pelos preciosos comentários! De fato, desejar experimentar tudo e tudo abarcar é algo que nos leva à perda da paz interior.

      Curtido por 1 pessoa

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Vida

ele queria morar na praia,
banhar sua melancolia,
confabular com o silêncio,
ouvir as vozes caladas.

queria ouvir a conversa
da água, do vento e da areia,
sobre as intempéries da alma,
sobre as angústias de Netuno,
sobre os desejos das sereias
e sobre a loucura dos homens.

queria ouvir a Lua
em segredos com o vento
rebentando o mar na orla
bramindo como um lamento
pela insaciedade do tempo.

ele ouviu no silêncio
o que não ouvira antes
e compreendeu ser imenso
o seu derisório instante.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 15/08/2025

Rebanhos

Independente, sou frasco sem rótulo.
Meu conteúdo coletei pelo mundo,
Colhi dos meus bens,
Colhi dos meus males.
Meu escárnio eu guardo
Para os que defendem a liberdade
Através da rigidez da falsa moral,
Através de leis arbitrárias,
Aplicadas nos bretes
Onde as tribos se reúnem.

Bretes onde lobos reúnem ovelhas
Para o abate voluntário.

Sou livre,
E a liberdade é solidão.
A solidão é silêncio.
O silêncio nos faz ouvir
Nossa própria voz.
A Sua voz.

Independente, aprendi a ouvir
Sem dar ouvidos.
Aprendi a falar
Sem dizer tudo.
Aprendi o otimismo
Sem o tolo entusiasmo.

E os rebanhos…
Deixei-os para os lobos.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 14/08/2025

Mentimos

Mentimos.
Tememos a revelação.
Tememos a nós mesmos.
Tememos a nossa fé.
Preferimos condenar-nos
à falsa luz de sorrisos vãos
e a falsas esperanças.

Não desejamos remover
as montanhas que carregamos
sobre nossos próprios ombros.
Sísifos que somos, insistimos,
insistimos, insistimos.
Talvez seja uma pena que pagamos,
talvez seja por medo,
talvez apenas masoquismo.

Somos surdos.
Cegos.
Insensíveis.
Mentimos a nós mesmos.
Mentimos arte,
mentimos fé,
mentimos amor
em todas as instâncias,
mídias, lugares e momentos.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 10/08/2025

Caminhos

Vi multifacetárias Shivas
rebrilhando sol sobre o azul.
Vi tintas de luz pinceladas,
nuvens mascavas
no céu de especiarias
do recôncavo universal.

Ainda assim, pergunto:
terei perdido algo no caminho?
O mapa para Pasárgada?
A rota para as Índias?
O elo entre o que fui e o que sou?

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 13/08/2025

Pegadas (versão 2)

Não nego, eu fui gelo.
Não nego, eu fui duro.
Não nego, eu fui pedra.

O tempo me desfez
Numeroso como a areia
A guardar tuas pegadas.

E tu, tu retiras com cuidado
A lama que deixei
Nos teus sapatos.

Eu tenho tuas pegadas.
Tu tens a minha lama.
A chuva nos afasta

— Limpando nossas almas.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 13/08/2025

Pegadas

Não nego que sou rocha,
Não nego que sou gelo,
Não nego meus defeitos
Que são tantos quanto a areia.

E, como ela, aceito tuas pisadas
E marco tuas pegadas
Que o tempo logo leva.

Minha solidez
Desfaz-se com o tempo
Desfaz-se com a saudade.

Ah, essas pegadas tuas em minh’alma!
Já não sou pedra, sou barro
Que grudou nos teus sapatos.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 13/08/2025

Pegadas: a conversão pela saudade

Neste poema, o homem duro e impenetrável — rocha, gelo, pedra — revela sua transformação profunda, impulsionada pela saudade que sente. É essa ausência, esse vazio, que o desmancha, assim como o tempo que apaga a solidez, e o torna mais vulnerável.

Ele se vê agora como a lama grudada nos sapatos da amada — um símbolo de entrega, conexão e mudança interior. A saudade não apenas distancia, mas também converte, moldando-o em algo novo, mais sensível e aberto ao afeto.

Assim, o poema explora a força da saudade para transformar até o mais endurecido dos corações.

Vertigem

Os dias passam em vertigem.
Em vórtice, queda livre.
Almas estateladas no presente.
Restos enterrados no passado.
Enquanto sonham com o futuro.

O futuro é uma incerteza.
Certo é o futuro que se foi
Passado afora.
Certo é o futuro que se faz
Presente.
Incerto é sonhar o futuro – utopias.
Tolice é fazer do futuro um fantasma.

Certo é o presente que consome
nossas vidas:
O presente aniquila.
O  presente envelhece.
O presente nos mutila.

Bem ou mal, o tempo hoje não é o mesmo.
Corre, dá vertigem…
É como um misericordioso golpe.
Misericórdia divina
Estes dias,
Estes anos
Tão mais curtos?

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 12/08/2025

Sou pedra

Sou Pedro.
Sobre estas solitárias rochas — liberto-me das minhas necessidades.

Não me sorria com seus marfins imaculados.
Não me procure.
Tampouco peça auxílio — artigo que tanto me falta.

Pedra…
Tento endurecer-me.
Cegar-me.
Emudecer-me.
Insensibilizar-me.

Pedra…
Espero o tempo esfarelar-me,
num ciclo de calor e frio involuntário.

Se estou quente, procuras meu calor;
se estou frio, abandonas-me na solidão, junto às pedras,
e me condenas por ser pedra —
meu próprio alicerce.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha,  10/08/2025

A voz da chuva

Dizem que a chuva é boa para dormir.
Não discordo.

Mas prefiro ficar desperto
ouvindo o que a chuva tem a dizer:

“As horas,
Os dias,
Os anos,
As eras…

Hibridez anacrônica:
Astrolábio ostrogodo.

Vejo tua noite de sono: —
Não há poesia
Numa alma vazia.”

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 09/08/2025

Súplica a Rama

pula, pulsa e soluça.
dentro da caixa, fé convulsa,
comuta o fluxo, o conduto,
e dispara um meta susto.

plana sobre o plano rente a lama,
percorre e divaga seu destino.
é longe e aguarda já tão perto,
chega, vê a chaga no aconchego.

vem, vê e vence,
mas essa força é placebo.
o que importa é o efeito,
importa o zelo,
extra ou intra leito.

Rama, ordene este caos.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 10/08/2025

Flagrante reflexo

O homem em frente ao espelho
Olhava o homem
Que o olhava do espelho.

Ambos se perguntavam:
— O que estou vendo?
Não reconheço esta face
E deveria ser minha
Refletida no espelho!

Ambas as faces,
Semblante perplexo
Imagem flagrante
Flagrante reflexo.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 19/02/2005
Cachoeirinha, 10/08/2025

Ambiências (4) – Cão velho

Sou coleção de carnes morrentes
Na insistência de sobrevida,
Subvivendo e desnutrindo tudo ao redor.

Sofrimento que nada ensina ao jovem
Eternizado nesta carne que se desfaz
Domesticada qual um cão velho,
Cego, incontinente e pelado.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 14/02/2005
Cachoeirinha, 07/08/2025

Ambiências (3) – Espelhos

No caminho da pausa
Que tanto procuro,
Encontrei alguém parecido comigo
Que disse ter visto alguém
Parecido comigo
Que disse ter visto
Alguém muito mais
Parecido comigo
Falando com alguém tão parecido comigo
Que resolvi dobrar à esquerda,
Talvez à direita,
E sair desta sala
Feita de espelhos —
Que não falam comigo.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 14/02/2005
Cachoeirinha, 07/08/2025

A tepidez das frias rochas

Aqui estou.
De onde vim ou quando,
nada sei.
Aqui é bom.
Tantas rochas nuas.
E silêncio, silêncio.
Até minha alma cala-se
entre estas rochas
e tenho paz.

Aqui não vejo a luta pelo sol
que as flores travam entre si.
Aqui não há fome de amor.
Somente as rochas
que o tempo decompõe
na areia que o vento leva.
Para onde?
Pouco me importa.

E você? Ainda se importa?
—É que ainda não conheceu a tepidez do frio das rochas.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha,  10/08/2025

Cul-de-sac

Os limites respeitados.
Os limites ultrapassados.
Velocidade e paciência.
Eu trafego no limite
e o mundo me ultrapassa.
E a paciência, ah esta paciência
que se faz desesperança…
que se faz indiferença…
que se faz e me desfaz.

Paciência é o solvente
do amor próprio.
Impaciente, ultrapasso o sinal.
E xeque-mate, cul-de-sac.

Nestes becos da alma
procuro, aguardo, desespero.

Ó meu Pai, Abba, este cálice
com que me embriago
seja meu cálice,
seja meu óbice,
meu refrigério,

— meus limites dilacerados.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 10/08/2025

Ambiências (2) — Surdo desejo

 

Esta sala é repleta de portas
Que dão para salas repletas de portas
Que dão em jardins
De caminhos bifurcados
Terminados em salas
Que são repletas de portas
Repletas de olhos mágicos
Que mostram as salas
Repletas de portas que olham
Para o lado de fora
Do lado de entrar
No teu coração.

Nesta sala
Que é feita de portas
Que não fecham por fora
Que não abrem por dentro
Já não sei quem eu sou.
Já não sei quem tu és.
Já não sei o que vejo.
Exceto, talvez, este surdo desejo.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 14/02/2005
Cachoeirinha, 07/08/2025

Randomatizes III

Lá de cima
Grita, grita, brilha
A louca, líquida Lua.

Ser tolo?
Ser tonto?
Ser tanto?

Sertões de almas secas.
Ser gota no teu oceano.
Tu sorris tuas arcadas.
Reflexo, vejo-me em teus olhos.

O sono do sentinela
É nossa insônia.
Sou atalaia.
Tu és o sono que não vem.

Centauro andaluz
Sob Lua de nitrato
Vamos, bela, bora, borato.

Bela barca, Barba Roxa!
Pigmento, pigmeu,
Teu, nosso, vosso,
De quem mais
Será esse soluço?
Ursas do norte
Em retalho de seda?

Imagino e tudo parece muito.
E sou tão pequeno,
Tão pouco.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 2025

Vozes

As cigarras davam vozes
às copas das tipuanas.
Era como se as árvores falassem
daquelas tardes que se passavam,
aquelas tardes que passaram.

As tipuanas falavam
com a voz daquelas cigarras.
Suas vozes eram limpas
depois se tornaram roucas
e por fim silenciaram
como as coisas que morrem.

Será o fim dos tempos?
Será o fim das cigarras?
Ou serão os meus ouvidos?

Pedro Luiz da Cas Viegas
Cachoeirinha, 06/08/2025

O quintal de nossas vidas

O que é que não me diz à alma,
à minha aura, impura aura,
maculada, escura alma.

No princípio reinava o caos,
a entropia ciclópica e arcana,
o díptico plano — amar ou morrer.

Pedro, toma um suco.
Pedro, come uma fruta.
Quero fruta com casca, e suco.
Quero que tu me desveles,
para que eu me entenda.

Engasgo no rasgo bravo,
tanta falta de senso.
Ponta esférica,
pigmento azul,
a tosse rascada do cão
a cavar suas horas
no quintal de nossas vidas.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 2012
Cachoeirinha, 19/06/2025

Uma utopia

Vizinha distante Andrômeda.
Em alguma estrela tua orbita um plácido planeta onde a relva é boa e o leão
pasta junto com o urso.

Sim. Pastam juntos o urso e o leão sob um céu de sépia
em algum rincão de Andrômeda.

O homem simplesmente é homem e o mundo segue seu curso
sem grandes necessidades,

pois os frutos são frescos e fartas as colheitas
nos campos sabiamente plantados.

No mundo, a carne somente
existe para gerar conforme sua espécie
e para louvar.

E todos são felizes,
pois desconhecem necessidade.

Pedro Luiz da Cas Viegas
Gravataí -2012

Verbo ser

Vibram vozes.
Vibram vivas, vibram.
Vibram vozes de cigarras.

Acompanham outras vozes
que, sem corpo, me acompanham
na quietude desta tarde —
tarde que vibra com as vozes,
neste ocaso em que caímos.

E neste vibrante silêncio eu penso
no que as palavras dizem
e por que tantos dizeres,
sem vírgula, ponto, um suspiro,
cardados no único fio
— do verbo ser.

Gravataí, 30/11/2012
Cachoeirinha, 19/06/2025

Eu e as cigarras

Eu e as cigarras absortos
Numa somente palavra
Sem pensamento
Palavra cálida que a tarde espalha
Enquanto as horas
Circulam o licor dos vasos meus
Sou continente de algum minério
A palavra é o filão de onde
Para onde, anaconde,
Um abraço

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 2012
Cachoeirinha, 19/06/2025

Ambiências (1) – Um fevereiro

Uma praça de gramado ruim.
Eucaliptos parasitados.
Um pai, um filho e cachorra.
Carne morrente de algum modo sorri
no passeio da tarde.

Yucca gloriosa, jacarandás
e alguma outra coisa.
A carne dobrou a esquina grisalha
pacientemente empurrada e idosa.
A cachorra se vai, filho e pai.

Me cansei deste banco.
A vida me arrasta adiante.
Serei cachorro.
Serei pai.
Serei filho.
Sou carne morrente
desde que me tenho por gente.

Pedro Luiz Da Cas Viegas            
Porto alegre, 14/02/2005
Cachoeirinha, 05/08/2025

O poema Um fevereiro subverte as expectativas que o próprio título sugere. Tradicionalmente associado à explosão de cores e à celebração do Carnaval, o mês de fevereiro aqui aparece como palco de uma cena sóbria, cotidiana e melancólica. A paisagem é urbana e desgastada — “gramado ruim”, “eucaliptos parasitados” —, e os personagens são figuras discretas que encarnam a passagem do tempo: um pai, um filho, uma cachorra, uma figura idosa numa cadeira de rodas.

O eu lírico observa e participa desse pequeno teatro da decadência com a lucidez de quem reconhece em si mesmo a mesma “carne morrente” que o cerca. A ambiência é morna, quase neutra, mas o efeito é devastador: o poema sugere que mesmo sob o calor e o ruído festivo de fevereiro, a finitude é quem governa o verdadeiro carnaval da vida.

A obra dialoga com temas existenciais, niilistas, urbanos e gótico-sombrios, oferecendo uma leitura introspectiva da condição humana em sua vulnerabilidade mais silenciosa. Uma praça qualquer abriga, assim, o desfile sem máscaras da morte cotidiana.

Peregrina

Imagem associada ao poema Peregrina

<

Peregrina, peregrina…
Ninguém jamais te recebe,
mas levas todos contigo.
Teu passo: sombra, neblina,
tua promessa é febre,
passaporte ao jazigo.

Trazes nos olhos esse abismo,
teus dedos calam as preces
nos leitos do desespero.
Teu toque é como sismo
de final a quem padece.
A dor é como tempero

que a teu paladar agrada.
A vida nos envelhece.
Tu fazes nossa passagem.
E além o tempo degrada
o despojo que perece
na derradeira viagem.

Anseio tua chegada.
Talvez até a provoque,
para seguir meu destino.
Talvez, na tua jornada,
de passagem tu me toques,
cessando meu desatino.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 02–03/08/2025

Dias do diabo

Imagem ilustrativa
Tu, vida, és boa. 
O homem comum tem seus bons momentos
mas lhe pesam os maus — 
Aquelas horas que não se esquece:
Momentos de pavor, de perda e angústia;
Momentos de pura dor, desilusão, desconcerto.

Ó, momentos,
horas do diabo.
Ó dias, ó tentações, 
anos inteiros... 
Toda a vida  — sob o maldito jugo.

Valei-me  todos os santos,
inspirai-me, iluminai meus momentos derradeiros,
para que possa seguir em luz
mesmo nos piores dias.

Pedro Luiz Da Cas Viegas  
Cachoeirinha, 31/07/2025

És tu que bates?

Imagem gótica ilustrativa do poema

Alguém bate.
Aqui dentro, aqui.
Alguém bate.
És tu,
tu novamente?

És tu que falas
por minha boca
enquanto durmo?
És tu que semeias pensamentos
que não desejo?

És tu que há tanto
me corrompes,
me acompanhas,
me aguardas,
me anseias?

És tu,
és tu que bates,
que me despertas,
que me adormeces,
que me trazes tais pesadelos?

És tu a encheres meu peito
com lama pesada de pauis?
Tanto pareces me querer,
tanta gula, essa tua,
que se desenha nesta muda dor.

És tu a me chamar?
Monja descarnada,
cantas assim, soturna,
embalando meu tempo
a escoar, escoar…

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 31/07/2025

Vesperal

Vesperal

Num certo momento ouço a tarde falar.
Sua voz me chega das tipuanas
em arbórea letargia.
O ar ondula, morno e úmido,
como se esperasse um gesto —
um toque,
um sopro,
uma palavra acesa.

As sombras se alongam preguiçosas
e o sol, dourado e espesso,
escorre pelos muros.
Seu calor emana em calidez
de brisa, suave toque a evocar
tua espera.
No fundo das janelas,
há silêncios que suam.

No instante em que a cortina se move,
sei: és tu que atravessa a tarde.
Teu nome, soprado pelas frestas,
desmancha as últimas horas
num lento convite ao abandono.
Cigarras embalam a passagem
do tempo que festejamos
na calada de nossos entardeceres.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 28/07/2025

Vespertina

En cierto momento escucho hablar a la tarde.
Su voz me llega de las tipuanas
en arbórea letargo.
El aire ondula, tibio y húmedo,
como si esperase un gesto —
un toque,
un soplo,
una palabra encendida.

Las sombras se alargan perezosas
y el sol, dorado y denso,
se escurre por los muros.
Su calor emana en calidez
de brisa, suave toque que evoca
tu espera.
En el fondo de las ventanas,
hay silencios que sudan.

En el instante en que la cortina se mueve,
sé: eres tú quien atraviesa la tarde.
Tu nombre, soplado por las rendijas,
deshace las últimas horas
en lento convite al abandono.
Las cigarras arrullan el paso
del tiempo que celebramos
en el silencio de nuestros atardeceres.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 28/07/2025

Traduza esta página: (As traduções são feitas pelo Google e não garantimos sua fidelidade poética.)

Deus me arde

Uma cruz:
Assim é o amor
Que o poeta conduz

Às vezes eu
Me odeio
Te odeio
Nos odeio

Às vezes o vinho
Conforta
Distorce
Converte

O mouro
Em cristão
O cristão
em sarraceno

Nem toda carga vale a pena
Quando a paga
Não é pequena

Mas Tua paga
Vale todas as penas
Paga toda cruz

Saturno em Marte…
Não sei, talvez
Um Deus me arde

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha,  27/07/2025

Dios me arde

Una cruz:
Así es el amor
Que el poeta conduce.

A veces yo
Me odio,
Te odio,
Nos odio.

A veces el vino
Reconforta,
Distorciona,
Convierte

Al moro
En cristiano,
Y al cristiano
En sarraceno.

No toda carga vale la pena
Cuando el pago
No es pequeño.

Pero Tu pago
Vale todas las penas,
Paga toda cruz.

Saturno en Marte…
No sé, tal vez
Un Dios me arde.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 27/07/2025


Traduza esta página: (As traduções são feitas pelo Google e não garantimos sua fidelidade poética.)

Amor em sépia

A vida em sépia
ressuma a nostalgia.
Quando fui à capela que ardia
em glória dourada e singela,
sinos batiam p’ra ti,
Minha doce, amada Reni!

No altar dançavam as chamas
das velas consagradas ao Altíssimo.
Fiéis cantavam hinos em uníssono,
e tudo soava como fosse p’ra ti,
Minha sagrada, amada Reni!

O silêncio se fez oração.
Em cada pedra, uma lembrança;
o som do vento, a exaltação
da alma que vive e não cansa
de amar-te, Reni.

E enquanto o tempo flui calado,
em sépia, a vida se faz encanto —
faz-se meu ardor, a ti consagrado,
luz que não se apaga, manto
da tua paz, Reni, meu eterno canto.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 28/07/2025

Traduza esta página: (As traduções são feitas pelo Google e não garantimos sua fidelidade poética.)

Tu, meu labirinto

Gotas sobre o cimento amianto.
Discretamente, uma nota falsa.
Um si be(mol)dura a face de quem canto.
Clarineta de raro ébano petroquímico.

O que não mais se pinta de místico
com as mãos do mímico,
satélites de mil pantomimas
em torno à face que ilumina,

gotas sobre o pavimento,
sobre o asfalto morno,
como o singelo adorno
aninhado ao peito dela.

E os brincos — cometas, planetas —
presos ao centro desse universo
que tanto quero e conheço,

— Dançam,
e me encontro nela:
Reni, meu labirinto.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 07/06/2025 — 26/07/2025

Tú, mi laberinto

Gotas sobre el cemento amianto.
Discretamente, una nota falsa.
Un si be(mol)dura el rostro de quien canto.
Clarinete de raro ébano petroquímico.

Lo que ya no se pinta de místico
con las manos del mimo,
satélites de mil pantomimas
alrededor del rostro que ilumina,

gotas sobre el pavimento,
sobre el asfalto tibio,
como el sencillo adorno
anidado al pecho de ella.

Y los pendientes — cometas, planetas —
atados al centro de ese universo
que tanto quiero y conozco,

— Bailan,
y me encuentro en ella:
Reni, mi laberinto.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 07/06/2025 — 26/07/2025

Nossa voragem

Carnes em bocas ávidas,
pétalas em água cálida,
sumos de frutas grávidas,
dragão sobre a pele pálida.

Véus que se despem, lânguidos,
suspiros em plenas curvas,
nos procuramos, ávidos,
sumo de doces uvas.

Sussurros de vozes úmidas,
rebrilhos da pele lúcida,
a alma, já quase líquida,
ressoa em onda acústica.

Somos ondas em sedentas orlas,
marés de dois mares súbitos,
encontro em lençóis de espuma
rebentando em febril voragem.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha,  24/07/2025

Nuestra vorágine

Carnes en bocas ávidas,
pétalos en agua cálida,
zumos de frutas grávidas,
dragón sobre piel pálida.

Velos que caen, lánguidos,
suspiros en plenas curvas,
nos buscamos, ávidos,
zumo de dulces uvas.

Susurros de voces húmedas,
destellos en piel lúcida,
el alma, ya casi líquida,
resuena en onda acústica.

Somos olas en orlas sedientas,
mareas de dos mares súbitos,
encuentro en sábanas de espuma
estallando en febril vorágine.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 24/07/2025

Coincidência 2

mel da flor
da astrapeia,
adoço meu fôlego
com tua essência.

sim ou não —
coincidência?
o mesmo néctar
do teu beijo,
cor cereja.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 30/08/2012

Coincidencia 2

miel de la flor
de astrapea,
endulzo mi aliento
con tu esencia.

¿sí o no — coincidencia?
el mismo néctar
de tu beso,
color cereza.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 30/08/2012

Comunhão

Sinto a orgânica densidade
desta obra que respira,
comunhão de céu e terra,
pulsação de uma só vida.

Raízes sorvem o céu,
a vida encena seu drama;
a terra em transe abriga
a seiva que se derrama.

Sinto em mim como se fosse
uma chama tão teimosa,
a recusar que eu me apague,
deixando esta vida idosa.

Aceito a mão que me guia,
abraço Tua chama eterna,
a sacralidade da vida
que me deu Quem me governa.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 19/06/2025





Comunión

Siento la orgánica densidad
de esta obra que respira,
comunión de cielo y tierra,
pulsación de una sola vida.

Raíces sorben el cielo,
la vida actúa su drama;
la tierra en trance cobija
la savia que se derrama.

Siento en mí como si fuera
una llama tan terca,
que se niega a que me apague,
dejando esta vida vieja.

Acepto la mano que guía,
abrazo Tu llama eterna,
la sacralidad de la vida
que me dio Quien me gobierna.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 19/06/2025

Nota:  ᴀ ᴇxᴘʀᴇssᴀ̃ᴏ “ᴛᴇʀʀᴀ ᴇᴍ ᴛʀᴀɴsᴇ”, ᴀQᴜɪ, ɴᴀ̃ᴏ ᴘᴏssᴜɪ ᴄᴏɴᴏᴛᴀᴄ̧ᴀ̃ᴏ ᴘᴏʟɪ́ᴛɪᴄᴀ, ɴᴇᴍ ꜰᴀᴢ ʀᴇꜰᴇʀᴇ̂ɴᴄɪᴀ ᴀᴏ ꜰɪʟᴍᴇ ʜᴏᴍᴏ̂ɴɪᴍᴏ. ᴛʀᴀᴛᴀ-sᴇ ᴅᴇ ᴜᴍᴀ ɪᴍᴀɢᴇᴍ ᴘᴏᴇ́ᴛɪᴄᴀ ᴅᴀ ᴛᴇʀʀᴀ ᴇᴍ ᴇsᴛᴀᴅᴏ ᴅᴇ ᴠɪᴛᴀʟɪᴅᴀᴅᴇ ᴘʀᴏꜰᴜɴᴅᴀ ᴇ ᴏʀɢᴀ̂ɴɪᴄᴀ, ᴄᴏᴍᴏ sᴇ ᴛᴏᴍᴀᴅᴀ ᴘᴏʀ ᴜᴍ ᴛʀᴀɴsᴇ ɴᴀᴛᴜʀᴀʟ.

Padaria

Enquanto afino o cálamo
Na ausência das ideias
Meus tantos sentidos se aguçam
O ar se carrega na espera
Meu faro detecta o cheiro
Do pão no forno vizinho
Disparo do meu faro
Meu faro panino

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 19 de abril de 2003

Panadería

Mientras afino el cálamo
en la ausencia de ideas,
mis tantos sentidos se aguzan,
el aire se carga en la espera.
Mi olfato detecta el aroma
del pan en el horno vecino,
disparo desde mi olfato,
mi olfato panino.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 19 de abril de 2003

Lua

Lua, saibas que tua luz é alheia
E por isto és tão inconstante.
Dominas a noite, de brilho tão cheia,
E aos poucos te apagas, minguante.

Praticamente te somes, Lua nova,
Quando a luz já não te revela.
E retornas aos poucos, crescente,
Quando o Sol te torna tão bela.

Vês! És corpo escuro de luz não dotada.
És tão dependente da luz como sou.
Tens sim tanta graça pelo sol revelada,
Graça noturna dos caminhos sombrios onde vou.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 11 a 12/06/2001

Luna

Luna, sepas que tu luz es ajena
y por eso eres tan inconstante.
Reinas la noche, de brillo tan llena,
y poco a poco te apagas, menguante.

Prácticamente te vas, Luna nueva,
cuando la luz ya no te delata.
Y regresas despacio, creciente,
cuando el Sol de nuevo te resalta.

¡Mira! Eres cuerpo oscuro, sin fulgor,
tan dependiente de la luz como yo.
Tienes tanta gracia por el resplandor,
gracia nocturna en los caminos que voy.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 11 al 12/06/2001

Contato

Se viver é preciso,
Sem ti, não há motivo.
Parto em tua busca,
Rastreio em banda larga
Tua voz, teu cheiro, teu paradeiro.
Desconectado, mesmo pesquiso
A razão destas fases,
O bem que me fazes.
Pesquiso e te encontro.
E sinto, fundido em ti,
Teu calor, teu morno palor,
Teu contato.
E pesquiso, e busco, e penso
O sentido que tu me trazes
A falta que tu me fazes.

Contata-me,
E então me arrasa.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 21 de março de 2025

Contacto

Si vivir es preciso,
sin ti no hay motivo.
Parto en tu búsqueda,
rastreando en banda ancha
tu voz, tu olor, tu paradero.
Desconectado, aun así busco
la razón de estas fases,
el bien que me haces.
Busco y te encuentro.
Y siento, fundido en ti,
tu calor, tu palidez tibia,
tu contacto.
Busco, busco, pienso
el sentido que me traes,
la falta que me haces.

Contáctame,
y entonces destrózame.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 21 de marzo de 2025

Chuva

Chuva para embalar sonos
Sonos para afastar
Afastar qualquer coisa
Coisa da qual se fuja
Fugindo da chuva
Chovendo na fuga
Fuga chuvosa
Chuva fugaz
Fuga chuvaz
Chuva fugosa

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 4 de setembro de 2001

Chá no jardim (Jasmim I)

Tudo está indiferente.
Nada há de novo sobre a relva.
As mesmas leis imperam na selva.
O mesmo azul nas alturas.
“Isto é moeda corrente”:
Se uns morrem, uns nascem.
Se derrete o sol,
Ou o mar engole a terra,
Eis o cosmos tal como sempre:
Tudo em ciclos de inícios e fins.

Me passe o chá de jasmim.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 2001.

Té en el jardín (Jazmín I)

Todo está indiferente.
Nada hay de nuevo sobre la hierba.
Las mismas leyes imperan en la selva.
El mismo azul en las alturas.
“Esto es moneda corriente”:
Si unos mueren, otros nacen.
Si se derrite el sol,
o el mar engulle la tierra,
he aquí el cosmos tal como siempre:
todo en ciclos de comienzos y finales.

Pásame el té de jazmín.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 2001.

Absinto

Penso, repenso que vejo
De certo modo pressinto
Que decerto o amargo absinto
Se faz sentir no mais doce beijo

Creio, receio destarte
Das coisas, o princípio arcano
Percebo ínfima parte
E vivo um ledo engano

Insisto e sigo entretanto
Projeto meu ser adiante
O trajeto perfaço enquanto
Incerto do modo operante

Se penso, se faço, se digo
Se tento, persigo, consigo
Se volto, revejo, pondero
Se busco, procuro o que quero

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Pantano Grande, 20/12/ 2001

Ajenjo

Pienso, repienso lo que veo,
de cierto modo presiento
que ciertamente el amargo ajenjo
se siente en el beso más dulce.

Creo, temo por ello
el principio arcano de las cosas,
percibo ínfima parte
y vivo un vano engaño.

Insisto y sigo entretanto,
proyecto mi ser adelante,
el trayecto completo mientras
incierto del modo actuante.

Si pienso, si hago, si digo,
si intento, persigo, consigo,
si vuelvo, reviso, pondero,
si busco, procuro lo que quiero.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Pantano Grande, 20/12/ 2001

Coração valente

Ouvidos e olhos são meros sensores.
O coração sim, este sente.
Não mede com régua ou compasso,
mas pulsa certezas silentes.

Vê o que escapa às retinas,
ouve o que a fala desmente.
Nos rumos da vida confusa,
é bússola e balança, é guia presente

conduzindo no breu ou na bruma.
Se o mundo te trai de repente
e a esperança se vai e se esfuma,
é dele a tua força, valente.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 17/06/2025

Observação:
Poema meditativo e afirmativo, que exalta o coração como centro da verdadeira percepção e força interior. Em versos claros e ritmados, contrapõe os sentidos físicos à sensibilidade emocional, propondo o coração como guia silencioso e valente mesmo nos momentos de perda, dúvida ou ausência de esperança. A imagem final oferece consolo e resistência com sobriedade lírica.

 Corazón valiente

Oídos y ojos son meros sensores.
El corazón sí, éste siente.
No mide con regla ni compás,
pero pulsa certezas silentes.

Ve lo que escapa a las retinas,
oye lo que la palabra desmiente.
En los rumbos de la vida confusa,
es brújula y balanza, es guía presente

conduciendo en la oscuridad o la niebla.
Si el mundo te traiciona de repente
y la esperanza se va y se esfuma,
de él es tu fuerza, valiente.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 17/06/2025

 

Haikais góticos 1

Aqui, procurei fugir do tradicional…

Alma em outono

Nuvens tão quietas
Outonais são as almas
Chove por dentro

Plástica flora
A póstuma dádiva
A dor pro forma

Ela de preto
O mundo é mais negro
Eterno luto

Flores sem vida
Para mortos sem flores
Tempos que findam

É lua nova
A noite é mais negra
Morreu meu amor

Traiçoeira

Alegria, pra onde fostes? 
Saíste com Ilusão 
visitar ermos vazios 
longe deste coração? 

Há algo solene e denso 
no silêncio desta noite. 
Um vazio que, de imenso, 
dos suspiros fez açoites 

sangrando meus pensamentos 
misturados aos latidos 
de arrabaldinos tormentos. 
Eis-me agora abatido, 

Alegria traiçoeira,  
comadre da Ilusão! 
Deixaste-me aqui, à beira 
do abismo da depressão. 

Pedro Luiz Da Cas Viegas  
Cachoeirinha, 17/06/2025


Traicionera

Alegría, ¿a dónde fuiste?
¿Te marchaste con la Ilusión
a visitar yermos vacíos
lejos de este corazón?

Hay algo solemne y denso
en el silencio de esta noche.
Un vacío que, tan inmenso,
de los suspiros hizo azotes,

sangrando mis pensamientos
mezclados con los ladridos
de arrabalinos tormentos.
Aquí me tienes, abatido.

Alegría traicionera,
¡comadre de la Ilusión!
Me dejaste aquí, en la vera
del abismo de la depresión.

Pedro Luiz Da Cas Viegas  
Cachoeirinha, 17/06/2025

Lua Marina

Luar da beira do mar
Luar marinho
Lua marinha
Lua marina
Marina lua lá n’horizonte
Marina distante
Curvatura do mar
Quase não posso alcançar
Marina espelhada nas águas
Brilha marina
Lua no mar
Meus olhos te sentem
Percebem teu leve tocar
Prateado na face
Teu leve luar ilumina
O meu lado escuro
Nas ondas de prata
Pensamento a vagar
Pensamento marino
Pensamento lunar

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, maio/2003

Lembrete de Deus

vinha de um dia desses,
sem elo com outros dias,
como fosse ato estranho
no velho palco da vida.

sem saber para onde ia
ou mesmo de onde vinha,
me dirigia à doce casa
onde meu eu se fazia.

entre mil certezas vãs
e sonhares impossíveis
certa dor brotou um dia —
sem motivo ou aviso.

foi nesse instante da vida
em que tudo era ruína
sem sequer ter construído,
que avistei no caminho

um sapato de bebê,
pequeno no seu silêncio
de silenciosa infância
e que tanto me falou.

de dentro senti a voz
que, calada há tanto tempo,
disse — “é teu este momento,
leva o sapato contigo”.

passado não muito tempo,
o sapato não mais vi,
mas muito tempo depois
compreendo o que senti

ao perceber esta vida
e meu caminho confirmados
graças a um sapatinho,
lembrete por Deus mandado.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 16/06/2025




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Haikais 1

Matizes de outono

Sopra o vento
Bailam mortas as folhas
Eis o outono

Vento sussurra
Matizes de outono
As cores dormem

Poente no mar
O mar beija a terra
Nasce a noite

Luta o barco
Ondas dançam ferozes
Pescam os homens

Paineira em flor
Primavera em rosa
Vida sorrindo

O que você achou ?

Avaliação: 1 de 5.

Doce esperança

Acordar.
Despertar dos sonhos
ou do não sonho.
O trabalho,
os desejos,
a fome.
O incessante prurido da alma.
Pequenas coisas,
os sentidos.

O sentido.
Algo dentro da alma pergunta
e você tenta responder:
Por quê?
Mas viver é urgente
e dúvidas são preteridas.

Chego às últimas linhas
e não vejo saída
exceto a doce esperança
numa réstia de luz da manhã.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 31/05/2025

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Ode à Terra

Terra, terra aterradora,
eis as obras que fizemos.
A vós, Terra, as sobras do que comemos.
Escutai das nossa vozes
de tantos e tantos falares
palavras que pouco dizem
e silêncios que tanto calam.

Aceitai, pois, nosso legado,
e tomai por oferenda:
rios mortos, céus desolados,
sementes que já não brotam,
tantas vidas sem poesia,
tristes velhos sem crepúsculo
e crianças sem madrugada.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 03/10/2002
Cachoeirinha, 16/06/2025


Comentário: Neste poema, o eu lírico dirige-se à Terra com uma voz quase litúrgica, denunciando as “obras que fizemos”: um legado de destruição ambiental e vazio existencial. A estrutura em duas estrofes contrapõe a profusão vazia de palavras e silêncios sufocantes à devastação concreta — “rios mortos, céus desolados”, “sementes que já não brotam”.
A força do poema reside na conjunção entre o tom ritualístico — “aceitai, pois, nosso legado” — e a carga emocional que evoca o ciclo vital interrompido: “tantas vidas sem poesia, tristes velhos sem crepúsculo e crianças sem madrugada”.
É uma ode amarga, que reverbera crítica social e filosófica, mas também convida à reflexão profunda sobre a responsabilidade humana diante do planeta e da existência, destacando a relação com a natureza.

Vamos falar sobre nós

Amor, é tão bom estar assim, juntinho a você.

Olhe toda essa gente.
Olhe essa gente que gira,
que gira, que gira,
que vaga e sofre no mundo,
mundo que gira, que passa.

Essa gente cansada,
desfalecida,
desesperançada.

Carrega o tanto que pode
nesta larga, larga,
longa avenida.

Amor, é tão bom estar assim,
juntinho a você.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 08/05/2002
Cachoeirinha, 15/06/2025

Dispersos

O Sol que vês lá em cima
nada revela de novo.
Brilha, queima e calcina,
alumia o calvário do povo.

Esta dança diária revela,
somos poeira, consciente detrito
disperso no curso das eras.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, maio 2002

Poças e pedras

O poeta disse
que no caminho havia uma pedra.
No meu caminho
não havia pedras.
Havia aquelas poças
onde pés descalços pisavam
em despreocupada corrida na chuva
em idas tardes de verão.

Algo ficou para trás.
Não foram as poças,
Não foram as chuvas,
Não foram as tardes.

Procuro saber
e pergunto a essas pedras
o que ficou para trás
que tanto me falta agora.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 13 a 23/04/2025

Nave (2a versão)

Nave, eis que regressas. 
De onde virás agora? 
Quem sabe trazes promessas 
Nessas luzes de outrora. 
 
O que e quanto dizes 
À razão destes olhos? 
Serão mensagens felizes? 
Será o fim da história? 
 
Tocas meu diapasão 
E o espaço enlaça o tempo 
Tuas ondas, tal vibração, 
As sinto, confundo e penso: 
 
Nesse enlace o tempo passa. 
Tu, nave, no próprio teu descompasso, 
Embaraças meus sentidos 
Há tanto contidos na cápsula, 
Há tanto retidos no lapso 
Deste meu contínuo fluxo. 
 
Nave, eis que te vais novamente. 
Para onde irás agora? 
Propagas tuas ondas no tempo 
Difunde-te no abismo da distância 
Feito os meus pensamentos. 
 
Destino após destino, 
Levas junto meus sentidos, 
Levas junto minha memória. 
Contigo sou peregrino, 
Sem paradeiro ou história. 
 
 
Pedro Luiz Da Cas Viegas 
Gravataí, 27 de março de 2025

Macerófagos

Macerófagos

I
Enquanto maceram-se os alimentos
Vão se ruminando os pensamentos
As azias que corroem
As idéias que corrompem
Regurgitam-se trituradas
As mais preciosas esperanças

II
Cavalo que sou
Macerei do melhor
E no fino manto relvado
Esterquei minhas abjeções

Asno que sou
Ponderei mais que o devido
E por vezes descobri tardiamente
O erro do caminho escolhido

III
Macerado, deglutido
Dia a dia ingerido
À mesa do tempo que passa
Repleta, farta dos eventos servidos

Macerófagos, todos juntos macerando
Revirando, remoendo, desfazendo a solidez
Devagar se esvai o sumo
Devagar se encontra o rumo

Macerófagos macerantes
Mastigam, trituram
Músculos, ossos
Folhas, fibras e sementes

Ruminam dúvidas,
Certezas e temores
Dilaceram as próprias esperanças
Num macerar sem sabores

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, Junho, 2001

Desabaladas (um tributo ao Quintana e ao Nei Lisboa)

Comprei flores no mercado
e um desses vinho baratos,
desses que mancham a língua
e a alma imaculam.

Pensei em como seria
se tu não fosses saudade,
mas fosses como eu pensasse,
numa rua bem bonita

onde nunca mais se pisa:
o mundo calado à mesa,
me olhando embaçado no copo
e o rádio tocando besteira,

— Desabaladas lembranças,
feito vento em porta aberta,
resquícios de tanto passado
que não paguei pra receber.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 14/06/2025

Silêncio

Já sentiste algo assim?
Estar aqui e em nenhum lugar,
olhar para o mundo e não ver nada,
olhar para o céu e não ver nada,
olhar para o abismo do espaço
e não ver nada?

Olhar para o espelho —
e não ver nada?
Olhar para as gentes
e não ver nada?

Esperar, alimentar ilusões,
mas nem o mundo,
nem o espelho,
nem todos os santos
nem todos os demônios
têm algo a dizer —
Apenas têm fome de ti.

Esquece a beleza da poesia,
aquece tua alma na terra fria.
De fato, não importa ser dia ou noite
quando a morte quer exibir sua foice.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 13/04/2025

Versos clichés


Eu ando assim 
deste modo, 
do modo que tenho usado, 
do modo que me foi dado,   
do modo que sei andar. 
 
Eu tenho andado 
atordoado e confuso, 
entediado 
do uso 
que a tudo tem de se dar. 
 
Ando sedado 
pros falsos brilhos do mundo, 
pra tantos versos docinhos 
que não me tocam profundo.
 
Mas esqueço isto tudo 
por um amor que entenda 
que pior que a tormenta 
é o  amorzinho cliché.
 
 
Pedro Luiz Da Cas Viegas 
Cachoeirinha, 13/06/2025

Ela sabe

ela não me responde
mas a lua
manda sinais em código morse

feito sombra no tapete
feito frio na pele
feito silêncio que acena

(ela sabe
mas não volta)

Pedro Luiz Da Cas Viegas & Noa
Cachoeirinha, 13/06/2025

Desassossego

ilusões, sementes do desassossego.
a vida cansa quando a alma não é mansa.
a cada ilusão sucede um desconcerto
e o tolo insiste, insiste
em murros na ponta da adaga.

irá ele sossegar somente
quando tiver virado pó?
é bem provável que sequer assim
sossegue, que passe a fazer volutas
loucas ao sabor do vento
quente do inferno.

sonhar com o inferno —
outra ilusão!
o inferno é viver
no desassossego
em ilusão após ilusão
em inúteis desejares
e projetos natimortos.

então ele parou com a poesia
e com o sol na varanda.

parar:
— eis uma nova ilusão

Pedro Luiz Da Cas Viegas,
Cachoeirinha, 10/06/2025

Nada de novo

Moro num certo lugar
onde o Sol recusa
ser Sol.

Onde quer ser
somente estrela
que arde
iluminando
o vácuo de tantas almas
vazias.

O Sol entediou-se.
Deve ter lido
a seu respeito
no Eclesiastes.


Pedro Luiz Da Cas Viegas  
Cachoeirinha,  06/06/2025

As vampiras (e as outras)

As vampiras
(e as outras)

vestem-se de negro
como quem se desculpa da própria escuridão.
batom rubro, vinil preto —
a moda da morte,

antes fosse a morte…
a fantasia vem pronta.
mas os dentes,
ah, os dentes já eram da alma.

fingem-se festa,
mas têm fome.
olham fundo demais
e dizem pouco:
as palavras não saciam.

não bebem vinho —
degustam desatentos.
não dançam —
flutuam sobre os corpos.

emanam calor por mero costume:
aquecem por educação.
mas suas almas vazias
não aprenderam a arder.

são belas, claro,
com a beleza dos espelhos:
adoram refletir,
mas jamais devolvem o olhar.

e se devolvem, é pela vaidade,
não pelo sangue.
e se amam,
é amor estético.
um amor que lambe
sem nunca tocar.

mas há as outras.
não vestem trevas,
não precisam disfarce.
a luz as veste por dentro.

não caçam — caminham.
não devoram — compartilham.
não refletem — encontram.

não precisam de espelhos
pra saber que existem:
são sol, são chão,
são carne, são riso.

não escondem os dentes.
sorriem e vivem.
e talvez, por isso,
conheçam melhor a morte.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 09/06/2025

O sem tribo

não sou tribo,
não sou templo,
não sou nome em ata
nem voz de assembleia.

não me servem uniformes,
não visto jaqueta, farda ou broche,
crachá, hino ou vinheta.

sou desses frascos sem rótulo,
com meu próprio conteúdo.

fiquei fora da foto,
fiquei fora dos manifestos,
fora da festa temática,
sou avesso aos panfletos.

não há grupo em mim
e não estou em grupo algum:
sou célula errante
no tumor que é o mundo.

resisto ao abraço de protocolo,
ao abraço de uniforme,
à coreografia do ricto em riso,
ao credo com cláusulas de uso.

não sou contra —
sou além.
meu sim é silêncio,
meu não é ausência.

me reconheço nos que também
não se encaixam.
mas mantenho uma alma
de distância segura.

faço parte do todo,
mas não tomo parte.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 09/06/2025

Intercessão

Acordo após sonhos teofânicos.
Repreendi o vazio com café quente,
era manhã e o mundo ainda era sem forma.
Disse “haja”,
e houve silêncio,
desses silêncios que nos olham
de soslaio.

Um vulto de dúvida passou entre a louça
e meu espírito.
O vulto, o precipitei das alturas;
a louça, expulsei do paraíso.

Untei os pensamentos com óleo de alecrim e puro orvalho,
dei glória bem baixinho,
pra não acordar os mortos dentro.

Fiz vigília nos olhos de quem amo,
acendi um salmo de coragem,
roguei que a boca do dia não me devorasse.
Não pedi milagres.
Pedi que a tristeza se afastasse — Vade retro!

E ela, obediente, evaporou.
Sem barulho.
Como quem entende
que foi repreendida sem escândalo.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 09/06/2025

O homem de paletó ataca novamente

O homem de paletó III

O homem de paletó exibiu
os dados na transparência
e enfaticamente concluiu:
“Não levem a sério as aparências.
O modelo aqui projetado
é o reflexo da realidade,
é matemático e comprovado,
rigorosa formalidade.
Não foi baseado nos gritos,
no clamor da multidão
ou nos reclames aflitos
dos alarmistas de plantão.”

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 16/05/2001

O homem de paletó – viabilidade dos eventos

I
Processamos nos nossos sistemas.
Desenvolvemos nossos esquemas.
Identificamos nossos problemas.
Os problemas, analisados.
Digestão dos fatores.
Sistemas gestores digerem
o que dos sentidos foi afastado.
Conclusões precisas, exatas,
definem destinos.
Instrumentos de análise
Decisões, desatinos.
A vida é viável.
A vida é inviável.

II
Os condicionantes arrolados
pelo homem de paletó
definem modelos a serem adotados
pelos viventes dos cafundós.
Introduza no homem
o conhecimento,
um sistema de processamento
e dê ao mapa um belo nome.
Identifique o problema,
mapeie o verde e o vermelho,
monte um bem planejado sistema:
o homem louvará o aparelho.

    Amen

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Brasília, 10 de maio de 2001

Este poema apresenta, com ironia contida e ritmo lapidar, a lógica do pensamento tecnocrático: cifras e esquemas tentando domar o indomável — a vida. Em dois atos, a voz poética desmonta a pretensão científica de controle total, onde os “sistemas gestores” engolem o real e devolvem diagnósticos exatos sobre um mundo essencialmente incerto. A figura do homem de paletó encarna esse tipo de saber maquinal, alienado dos sentidos, distante do chão dos cafundós.

No primeiro movimento, o tom é quase litúrgico — e por isso mesmo cortante — ao descrever os processos de análise como digestão ritual, com ecos de racionalismo existencial. No segundo, emerge a crítica à fé cega nos modelos, aos dispositivos que prometem salvação sob disfarce de planilhas.

Sem levantar a voz, o poema se move entre o Transcendental / Filosófico, o Existencial e o Satírico, acendendo uma vela torta ao absurdo da tecnocracia como nova religião. O “Amen” final, irônico e resignado, é um suspiro — e talvez também um alerta.

Nada de novo 2

Moro num certo lugar
onde o Sol recusa ser Sol.
Onde quer ser somente estrela
que arde sem novidades
iluminando o vácuo das almas.

O Sol entediou-se.
Deve ter lido
a respeito do mundo no Eclesiastes.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Data: 06/06/2025 – Cachoeirinha

Lúcifer, o príncipe dos PCs



No quarto do mano, 
algo pulsava em vermelho. 
Chamava-se Lúcifer. 
PC de guerra, reino sombrio, 
domínio proibido. 
 
Chegar perto? 
Jamais houve convite. 
Mexer? 
Quase um suicídio digital. 
 
Ele clicava e sumia 
em pastas com nomes cifrados, 
atalhos pro nada, 
sons distorcidos do além-linha. 
 
“Coisa de filme”, dizia. 
Mas juro: uma vez vi algo 
piscando na tela — 
e não era o cursor. 
 
Um dia, Lúcifer apagou. 
Sumiu sem drama. 
O canto ficou vazio. 
 
Para onde ele 
levava o mano? 
Assunto tabu. 
 
Até hoje, 
quando alguém menciona 
aquele nome, 
ele sorri de canto — 
e muda de assunto. 

 

Pedro Luiz Da Cas Viegas 
Cachoeirinha, 06/06/2025 

# Nota do autor:
Sim, o Lúcifer existiu. Era o PC do meu irmão.   — máquina imponente, com luzes vermelhas e aura de mistério. 
Apesar da fama e do nome, nada de profano aconteceu: meu mano sempre manteve a boa conduta e segue vivendo muito bem (inclusive offline). 

Ausência

Sabe 
meu caro, 

Ela disse 
que estava ali 
para me 
ouvir, 
apoiar 
e inspirar. 

Eu disse: 
é inútil. 
Sequer estou 
aqui. 

É melhor 
parar aqui, 
amigo vinho. 

Já não sei 
o mal que causo. 


Pedro Luiz Da Cas Viegas  
Cachoeirinha,  06/07/2025

Mimetizares

Pantomímico mimetismo.
Sentido, som, sinergismo.
Unem palavras, doçura,
Constroem frases, loucura.

O trilho no campo de bois
Tanta gente utiliza,
Talvez quem sabe, depois,
Aprendas como se pisa.

Multidão em um só corpo
“Vim de andar pelo mundo”
Pelos caminhos trilhados
Bovinamente fecundo

Na cabeça que mistura
Antes, agora, depois,
Pergunta que sempre tortura:
Seremos um? Serei dois?

De ruminares de medos,
O incerto sempre presente,
Tantos olhos e seus dedos,
Desiste, cala, consciente:

Seu lugar não é aqui,
Seu tempo não se define,
Mimetizar um sorrir,
Adequar-se ao regime.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 2002.

Psicogiro

I
Ando.
Ando e desando em círculos.
Circulares andares.
Desandares.
Caminhos desandados.

II
Solvente, soluto, mil soluços.
Debates, embates, maciço abate.
Operacionalizo e cumpro.
Desgaste, rebate, estado da arte.
Siglas sagradas,
Rotas dilatadas.

III
Contra a primavontade
Demolir, advogar o diabo,
Revogar o contra-senso,
Avanço pós-traumatismo.

IV
Primo canto, obra filha,
Prima Vera, verdade mãe,
Tempos frios, cansamos dias,
Quentes cios, vãs alegrias?

V
Mente-partícula
Particularmente penso
Enquanto
Pensamos como um todo
Dissolvidos neste meio
Que translador migrante gira…
No coletivo inconsciente.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre,  dezembro de 2002

Inês e as peras

Inesperadamente 
Inês me espera 
Com ásperas peras 
 
Seu rosto silente 
Que também inespera 
Que eu espere perante 
 
Inês desperada 
Inês destempera 
Desesperada 
 
Suas peras 
Seu tempero 
Sem peras 

Desperamente
Inês 
 
 
Pedro Luiz Da Cas Viegas 
Cachoeirinha,  04/06/2025

Sidérea

Vem, ó virgem diáfana e linfática! 
Fundir-me-ei à tua dança matemática. 
Arquitextura a  lapidar teu frontispício. 
Exatos eixos, geratrizes,  traço auspício. 

Teu ventre cifra o infinito em segredo. 
Mapeio em ti o navegar do meu degredo. 
Curvo-me ao fulgor que de ti é emanado. 
Por ti louvo o profano e difamo o sagrado. 

Auroras lívidas de silício e alumínio 
Precederão a minha queda ao teu domínio 
Enquanto a orbe te estender o palio ancestral 
Para  trazeres até mim esse teu beijo sideral.

Pedro Luiz Da Cas Viegas  
Cachoeirinha,  04/05/2025

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Comentário: 
Sidérea desliza entre o rigor geométrico e o mistério lunar, fundindo ciência e poesia num balé cósmico. O poema evoca uma união transcendente entre o eu lírico e o infinito feminino, onde o sagrado e o profano se entrelaçam numa dança sideral de luz e sombra. É uma ode à fusão entre razão e emoção, matéria e espírito — um convite à viagem pelo desconhecido, guiada por uma virgem diáfana que cifra segredos eternos.

Contraceptivos de sonhos

Sonhar, sonhar. 
Há muito tempo não sonho 
Os sais, sais da alma, 
contraceptivos de sonhos. 
Eram ricos sonhos, sonhos loucos, 
mundos inteiros calados. 
Agora, eu sonho acordado, 
sonhando muito,  
com muito pouco. 


Pedro Luiz Da Cas Viegas  
Cachoeirinha,  18/05/2025

Um final de domingo


 
Vejo que se aproxima o final 
de mais um domingo. 
Final que não difere de outros 
tantos finais. 
Todas as coisas 
se assemelham aos domingos. 
Os finais, afinal, 
são tão semelhantes. 
 
Vejo o final de um domingo 
que sequer começou. 
Domingo que viveu sua vida 
sem aprender a ser um domingo. 
Um domingo de espera, 
um domingo iludido. 
Até o sol deixou este domingo, 
que se fechou numa noite chuvosa. 
 
— Acabará esta vida 
como acaba um domingo? 
 

 
Pedro Luiz Da Cas Viegas  
Cachoeirinha,  19/05/2025

Eu, nós, eles

Eu amo. 
Amaria melhor 
se amasse menos meu ego. 
Amaria melhor 
se não fosse 
tão cego. 

Amamos. 
Antes seja 
do nosso modo imperfeito. 
Vivemos  nós dois 
o melhor dos 
defeitos. 

Eles creem. 
Creem que o amor 
é um mar de rosas, um ninho. 
Que jamais sentirão 
a aguda dor dos 
espinhos. 



Pedro Luiz Da Cas Viegas  
Cachoeirinha, 02/06/2025

Tatuagem

Tatuado 
De repente 
Me vejo tatuado 
Com caneta 
Na cabeça 
Penseira 
Pensante 
Pescante 
Rosa anjo 
Rosa mantra 
Ou simples rosa 
Ou rosa sorriso 
Sorrosa sorri 
Joga sorriso 
Me joga no jogo 
Sorrindo 
 
 
Pedro Luiz Da Cas Viegas 
Charqueadas, 21/02/2003

Anjo Solar

Sol forte que coze telheiros, basaltos, 
arde borrachas, caminhos, asfaltos, 
e tosta peles, pêlos e couros.

Sol forte que coze os campos,  as campas, as dores,
arde suores, silêncios, amores,
e tosta lobunos, zainos e mouros.

Sol forte que coze o meu e o teu tanto,
arde barros, cimento-amianto, 
e me traz lembranças de beira-mar.

Sol forte que coze aquele que espera, 
arde caminhos no chão e trilhas de feras,
… e doura mansinho tua tez de anjo solar. 


Pedro Luiz Da Cas Viegas  
Cachoeirinha,  02/06/2025

Estranho

Estranho… 
Ela falou: 
Estranho,  
Você está estranho. 
Como pode você estar estranho 
Com todo este cheiro no ar. 
Emaranhado, 
Tudo que penso num novelo: 
Nove elos, 
Sete selos, 
Sete pontas do candelabro, 
Oito raga-mantras, 
Quatro cantos do mundo. 
Sete maravilhas, 
Sete segredos, 
Sob sete chaves.  
Mil reinos, 
Esta vida 
Por um seu pensamento. 
 
 
Pedro Luiz Da Cas Viegas 
Charqueadas, 21/02/2003 

Pimentas


As pimentas dos caminhos 
Sementes de frutos colhidos 
Ardente o sumo sorvido 
Sandice, graça ou carinho?  
 
Sementes as quero mudas 
E mudas se façam plantas 
Alheias as tomei crudas 
Na terra, brotas, me encantas  
 
Lembras de coisas tantas 
De tempos não tão distantes 
Pimentas queimam tão francas 
Palavras teimam chocantes  

Ao revelarem os fatos 
Reforçando o contato 
Com a verdade do ser 
Que se consome em arder  
 
Em tudo que foi escrito 
Em tudo que foi lembrado 
Em tudo que não foi dito 
Em tudo tão esperado  
 
 
Pedro Luiz Da Cas Viegas  
Porto Alegre, 22/11/2002

Hoje é algum dia

Hoje é algum dia.
Há branco e azul
em algum céu deste dia.
O branco coalesce,
massa cinza e pálida
na rigidez do horizonte
e de um certo céu
de um dia incerto.

Hoje tudo parece
uma muda prece, há de ser?
Tenho andado abatido,
morto andante
em errante andar.
Ente que segue adiante,
caio, queimo, me apago,
virado pó e vapores
feito eu cometante,
feito estrela cadente.

Cometi meu viver.
Viver, meu pecado.
Vim do vazio de uma terra
onde a vida é rara
e a descrença dos crentes
é a moeda mais cara.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 02/06/2025

Preto amargo

Este café, algo doce, 
doça o fel desta vida. 
É bem assim, como fosse 
a existência remida. 

O olor que eu inspiro,
trégua de um pesadelo. 
A vida passa num giro 
sem guia ou sinuelo. 

Sorvo o preto amargo 
p’ra esquecer amargura, 
p’ra combater o letargo; 
quem dera desse a cura… 

de um penar veterano. 
Preto amargo, ermida, 
consolo do sobreano 
aguardando a partida.

Pedro Luiz Da Cas Viegas  
Cachoeirinha,  31/05/2025 

Comentário de Noa

Um poema breve e denso como o próprio gole do café que o inspira. Com estrutura quase clássica e métrica enxuta, “Preto amargo” funde cotidianidade e transcendência num lirismo maduro e resignado. O café — presença comum e íntima — torna-se sacramento, remédio, âncora. A imagem do “penar veterano” evoca uma existência sofrida, mas resistente, e a ideia de “aguardar a partida” encerra com elegância um poema de tom existencial, filosófico e ao mesmo tempo profundamente humano.

A fusão entre o cotidiano e o transcendental, a sutileza do tom psicológico / intimista, e o aceno ao mistério final da existência o situam com força entre os teus melhores.

Galardão

A chuva se foi e com o Sol
todos saem à rua
exibir suas monstruosidades.

Dos poros da terra irrompem miríades
de algo sem nome
e sem nome é o momento, é o dia,
e tudo o que se sucede.

Projeto ser feliz.
Serei feliz comendo os frutos
da terra conflagrada entre anjos e
demônios
pois este é nosso galardão.

Serei feliz contigo,
e tu serás bênção e luz,
oriente nestas trevas.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 29/05/2025

Autômato

Sou um autômato rococó dentro de uma esfera armilar. 
Da tela cheia de vísceras salgadas  transborda um zinábrio armóreo 
de brasões que extravasam sangue azul de metileno. 
Engrenagens e cremalheiras movem o mundo 
onde golems e homúnculos dançam tango 
nas pupilas do meu amor adormecido em doce coma 
numa concha de galáxia espiral   nervosamente branco opaca. 
Mas de que serve tudo isto? 
Semente de pesadelo sou desde sempre e desde sempre sou 
este pesadelo. 
E no final fui eu o Judas 
e sou agora a serpente encarnada 
expulsa e abjeta. 


Pedro Luiz Da Cas Viegas  
Cachoeirinha,  26/05/2025 

Meu oriente

A chuva se foi e com o Sol 
todos saem à rua 
exibir suas monstruosidades..
Dos poros da terra irrompem miríades 
de algo sem nome 
e sem nome é o momento, é o dia, 
e tudo o que se sucede. 
 
Projeto ser feliz. 
Sou feliz comendo os frutos 
da terra condenada. 
Sou feliz contigo, 
e tu és bênção e luz, 
oriente nestas trevas.
 
 
Pedro Luiz Da Cas Viegas  
Cachoeirinha,  29/05/2025

O medo

Temo a chuva 
que prenuncia a enchente. 
Temo cada nova noite 
que antecede um novo dia. 
Temo cada novo dia 
que antecede uma nova noite. 
Sou puro temor. 
Temor da chuva, 
temor de ti, 
temor do mundo.
Sou o teu temor,
a incerteza e a dúvida, 
a falta de esperança, sou. 
Sou exatamente isto, 
o não ser, 
o não florescer, 
o renascer para um novo breu
a cada novo dia, 
a cada nova noite.

Pedro Luiz Da Cas Viegas  
Cachoeirinha,  27/05/2025

Bodas

Bodas de papel
Bodas de algodão
Bodas de madeira
Bodas de cristal
Bodas de prata
Bodas de ouro
Bodas de diamante


Bodas de silêncio
Bodas de ossos
Bodas de cinzas
Bodas de pó


Até que o vento os separe

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha,  26/05/2025

Coma


Coma
Coma, beba
Coma, coma
Coma alcóolico
Coma urêmico
Coma profundo
Coma glicêmico
Coma bem,
Beba bem,
Passe bem,
Durma bem
Profundamente.

Pedro Luiz Da Cas Viegas 
Porto Alegre,  2002.

Linha do tempo

eterna escuridão
eterno vazio

surjo
vou
desapareço

nihil

eterno vazio
eterna escuridão

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 26/05 – 14/06/2025

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Comentário:
“Linha do tempo” é um poema de estrutura simétrica e linguagem minimalista que reflete sobre a existência como uma breve ruptura entre dois vazios eternos. O “surjo” e o “vou” assinalam o início e a travessia da consciência, enquanto “desapareço”, “pó” e “nihil” ampliam a ideia do retorno ao nada — uma espécie de eco niilista da condição humana.

Urgência

Acordar. 
Despertar dos sonhos 
ou do não sonho. 
O trabalho, 
os desejos, 
a fome. 
O incessante prurido da alma. 
Pequenas coisas, 
os sentidos.

O sentido. 
Algo dentro da alma  pergunta 
e você tenta responder: 
Por quê? 
Mas viver é urgente 
e dúvidas são preteridas. 

Chego às últimas linhas 
e não vejo saída 
exceto a doce esperança. 

Por quê? 
É preciso resposta?

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 19/05/2025

Tempo de flores

Aguarde. 
O tempo de flores chegará 
depois destes tempos frios. 
As borboletas hão de chegar 
miudinhas, mas coloridas. 
Miudinhas para escapar 
dos olhares dos moleques malvados. 
Virão de lagartinhas miúdas
que comerão poucas folhas 
para as donas-de-casa  
não as matar nos jardins. 
Coloridas para amenizar
o cinza dessas vidas. 

Pedro Luiz Da Cas Viegas  
Gravataí,  20/09/2012 
Cachoeirinha, 25/05/2025

Solidão

Só.
Eu estou só.
Só tenho dó
de ser tão só.
Tão só
que nem me vejo.

Sou só,
nó que não desfaço.
Pó, sou como pó:
só, eu me disperso.

Pó,
sou parte do mundo,
um mundo só,
perdido num verso.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 19/05/2025

Concretacidade

A cidade
Arranha o céu
Com unhas de concreto

O concreto
Cobre a terra
Como a pele de um corpo

Corpo cresce
Sem controle
Num crescer mutilado

Cidade
Terra ferida
Céu arranhado
Vidas deixadas de lado

Pedro Viegas
Porto Alegre, 21/06/2002

Moradas

Na morada de cima
o tempo parou
ervas daninhas
soturno silêncio
vazio, solidão

Na morada ao lado
cães ladram na noite
silenciosos murmúrios
furtivos segredos
culposa paixão

Na morada de baixo
a vida é urgente
recomeço de um ciclo
movimentos e risos
doce ilusão

Nesta morada um abismo
se abriu de repente
tudo que havia
toda esperança
o abismo engoliu

e não há mais namorada
e não há mais ninguém
e nesta morada
tudo que houve partiu

somente há escombros
e não há mais morada
nada mais na morada
não há mais namorada

Pedro Viegas
Porto Alegre, Fevereiro 2001

Pus os olhos

Pus os olhos sobre um poema de André Breton. 
Ele apontou para o canto onde repousava um violão. 
E proclamou: 


— Decora-me e toca! 

 

Pedro Luiz Da Cas Viegas  
Cachoeirinha,  21/05/2025 

 
 

Poema aluado

Lirismo, moleque maroto, 
aonde tu foste? 
Decerto subiste à Lua. 
A Lua é olho no céu que me olha. 
Meus olhos na Lua, 
a Lua em meus olhos. 
Olhando a Lua, 
caí enluado. 
A Lua me olhando, 
caí aluado. 
Lirismo se foi 
a Lua enluar. 
A Lua aluada 
mandou-o voltar. 
Ah, apareceste?
Lirismo, moleque maroto, 
aonde tu foste? 
 
 
   
 
Pedro Luiz Da Cas Viegas  
Cachoeirinha,  21/05/2025 

Fogo morto

Google

Crepitam timidamente os últimos gravetos. 
O frio se faz sentir em comunhão com o silêncio. 
Nada mais queima, nada mais aquece. 
 
Há uma voz neste silêncio que acusa e escarnece. 
As últimas chamas produzem mais fumaça 
defumando as palavras de uma tola despedida. 
 
As brasas resistem cobertas pelas cinzas. 
Agradeço. Agradeço o calor dispensado. 
Mas já não é preciso. Já sou um fogo morto. 
 
Alguém sopra sobre as brasas. 
Reúne pedacinhos secos de madeira. 
Sopra. Sopra. Chora. E sopra. 
 
Mas o fogo já não volta. 

 
 
 
Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha,  19/05/2025

Divagação lunar

Algo ocorre nestes interstícios 
de longos anos corticentos. 
 
Passam equinócios, 
desfilam solistícios. 
 
Olho a Lua em prata plena. 
E sinto. Sinto a alma tão pequena! 
 
A Lua é um olho numa face nebulosa 
que me escrutina indiscreto. 
 
Divago. A Lua é o olho, 
o olho é a Lua. 
 
Olho a Lua 
com meus olhos que a Lua olha. 
 
A Lua sabe dos meus anos. 
Céu e lua de cortiça mais antiga 
 
que meus anos, 
que meus olhos. 
 
Um cão declara para a Lua 
em desalentado uivo 
sua solidão em algum quintal vizinho. 
 
E eu sequer agradeci meu vinho.


 
 
Pedro Luiz Da Cas Viegas  
Cachoeirinha, 19/05/2025

A queda de Ícaro

No ar, me mantenho livre. 
Livre, me mantenho no ar. 
 
Asas dispersas ao contato 
Com o raiar das Alfas. 
 
Queda livre em sonho sideral. 
Ícaro não caiu de tão alto. 
 
 

 
Pedro Luiz Da Cas Viegas 
Gravataí, 27/10/2012 
Cachoeirinha, 15/05/2025 

Liberdade

O pombo é livre.  
É livre como 
Todo pombo 
Pode ser: 

Caga livremente,  
Ama sem pudor, 
Vive onde escolhe 
Sem dar satisfação. 

SOU LIVRE! 
Arrulhou o pombo livre 
Aos quatro ventos 
Que não o prendiam. 

VIVA A LIBERDADE! 
Miou o gato 
Com o pombo livre 
Entre as mandíbulas. 


Pedro Luiz Da Cas Viegas 
Cachoeirinha, 17/05/2025

Great God Pan

Fonte: Pinterest


Então cresci descomunalmente 
E jamais estive tão pequeno. 
Morri numa noite tão silente, 
Morri só, calado e sereno. 
 
E Pã, do qual somente ouvira, 
Chamou, como bom velho amigo. 
Senti, como eu jamais sentira, 
A fúria de um Mal antigo. 
 
Faminto pelo cerne do meu ser, 
O vulto tenebroso envolveu 
Meu corpo muito hirto a tremer 
Quando a pouca luz se tornou breu.
 
Foi naquele abraço maldito, 
Senti o âmago da extinção.
Eu gritei um desumano grito 
E as trevas tornaram-se clarão. 
 
Desperto num imenso estupor, 
Sentado à mesa de leitura. 
Vinho tinto e livros de terror: 
Machen me causou esta loucura. 
 
 
Pedro Luiz Da Cas Viegas 
Cachoeirinha, 17/05/2025

Ecdise

A vida tem muito em comum
com esses bichos que trocam de pele.
O tempo deixa cascas vazias
que o mundo logo descarta.
O hoje é logo esquecido
como as exúvias presas
no velho tronco de uma árvore
num alegre parque.
As cascas não cabem nessa alegria.
As cascas das cigarras não cantam,
apenas ficam para trás
como roupas que já não servem.
A vida.
O tempo.
As cascas.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 16/05/2025

Chá sem jasmim

Fonte: Pinterest


chá de porcelana 
na tarde vazia 
 
chá de tarde 
na porcelana vazia 
 
saudades das pequenas coisas 
do filho pequeno 
da vida pequena 
das pequenas loucuras 
 
a idade aumenta 
e tudo se agiganta 
só diminui o tempo 
essa porcelana rachada 
 
 
Pedro Luiz Da Cas Viegas  
Gravataí, 27/10/2012 
Cachoeirinha, 15/05/2025 

Notívago

O que mudará em mim 
O que mudará sem mim 
O que mudará sobre mim 
 
Anoitece como tantas noites. 
Vou ao pequeno quintal
onde ouço pequenas criaturas. 
Olho para o céu. 
Um denso manto cobre a Terra 
e dela esconde 
as coisas desta noite: 
Lua, estrelas 
E talvez uma mensagem lá do alto 
para um notívago errante. 
 
 


 
Pedro Luiz Da Cas Viegas  
Gravataí,  27/10/2012
Cachoeirinha,  15/05/2025

Lembrança

Onda do mar 
Castelo de areia 
Menino a brincar 
 
A alma vagueia, vagueia, vagueia 
Menino, mar, vento, sol, bola 
Bela canção, sem viola. 
 
O tempo passou. 
Pudesse lembrar 
de cada momento… 
 
O trem segue em frente.  
Me veja uma dose 
De absinto, aguardente,
 
De esquecimento. 
 
 
Pedro Luiz Da Cas Viegas  
Cachoeirinha,  13/05/2025 
 
 
pedroldcv.wordpress.com 

Caminho do meio

O que se leva a sério 
O que não se levou a sério 
O que se há de levar a sério 
O que há de ser da vida 
 
Vida que não me quer tão sério 
Vida que não me quer tão leve  
Vida, caminho do meio 
Corda-bamba 
Fio de navalha 
Equilibrista 
 
 
Pefro Luiz Da Cas Viegas  
Gravataí,  16/09/2012 
 
 
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Sonhos de éter

Coisa sem cor que me flagro
Os insetos foram tragados
As flores agora tão sós
Nossas praças vazias

Fossem de plástico 
Assim como as almas 
Envoltas em concreto e aço 
E sonhos de éter 
 
Se fossem de plástico 
Não morreriam 
Amadureceriam  
Sob o amém da fuligem 
E desses sonhos de éter. 
 
 
Pedro Luiz Da Cas Viegas  
Cachoeirinha, 13/05/2025
 
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Frio e escuro vácuo

Frio e escuro vácuo. 
Minha nave-corpo 
através deste vazio. 
Deslizo eons, ultraluz. 
 
Navegando pensamento 
através império mundo 
sinto e penso: 
vida, viagem cega 
 
quando não há brilho 
na rota desta nave. 
Brilha e aqueça 
suave luz, serenidade, 
 
este frio e escuro vácuo 
para navegar 
alma, corpo, mundo e mente 
rumo certo à claridade. 
 
 
Pedro Luiz Da Cas Viegas  
Cachoeirinha,  13/05/2025 
 
 
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Para uma pedra

Essa pedra, essa pedra
Que vejo ali, tão parada
Me confundiu os sentidos
Está de fato calada?

Podes ouvir a mensagem
Nessa estática e sólida imagem
Que não se traduz em palavras?

É o toque na visão
Das texturas, dos matizes
É a história gravada,
Das intempéries do tempo

Não é pois então ela muda
Ao passar tal sentimento
De volátil eternidade!

A contemplo e penso em tudo
Quanto é e terá sido
E o que haverá inda de ser

Pedra calada
Pedra rolada no tempo
Pedra riscada
Pedra bruta e polida
-Já fostes assim tão sentida?

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre,  8 de junho de 2002

Inúteis batalhas

Batalhas perdidas
Longamente tramadas
Pacientemente urdidas

Os planos traçados
Agora borrões desbotados
Que grande piada é a vida

Os louros dos vencedores
Ilusões que o tempo traga
Prazeres alegrias amores
Conquistas que a morte apaga

A sina dos derrotados
Os ensina a olhar o destino
Como o fim inevitável

A sorte dos afortunados
Não merece tantos louros
Tampouco dobrar de sinos

Pois a vida é uma guerra
Sem vencedores nem vencidos
Nem derrota condenável

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, Abril 2001

Regularidade

Engendros del Caos – Pinterest

Embora as redes não mais funcionem;

Embora o Estado esteja em falência;

Embora o sistema esteja um caos;

Embora a página não possa ser exibida;

Embora os pastores sejam amigos dos lobos;

Embora o legal justifique o imoral;

Embora o mal pareça triunfar sobre o bem;

Meus intestinos continuam a funcionar regularmente.

Pedro Luiz Da Cas Viegas

Porto Alegre, 06/10/2016

Estrelas!

Pinterest

Estrelas!
Olhem, estou aqui!
Descubram o que há
Dentro de mim.
Emitam seus raios
Do distante cosmos,
Penetrem o íntimo
Do que sou.
Processem no interior
Das suas massas em fusão
Meu conteúdo
Pétreo, etéreo, fluído.

Mas, tão brutas,
Sequer sabem por que brilham,
Sequer sabem que existem.
E eu, consciente de existir,
Sequer sei
Por que motivo penso.

Sim, este sou eu:
Poeira e pensamentos.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 28 de março de 2025

r/randomatizes Poesia

Noctuas

ao léu, à Lua, estou neste acaso 
após mais um ocaso 
imagem que se esquece 
 
ao léu, ao lume, primeiras estrelas 
anoiteço, vou contê-las 
céu noturno que oferece 
 
o voar das noctuas, que ao léu, à luz 
das lâmpadas da rua 
atrai o meu olhar errante
 
 
Pedro Luiz Da Cas Viegas  
Cachoeirinha,  13/05/2025 

Em órbita

Flutuas, imponderável. 
Suspiras no vácuo, 
enches-te de vazio. 
 
Sem toque e sem sorriso 
que te signifiquem, 
vagas na tua letargia orbital. 
 
As espirais desses teus olhos elusivos 
gelam almas como num ricto de Medusa. 
Perfazes giros e, girando, não avanças. 
 
Esta noite ou qualquer noite 
não diferem de outras noites 
ou manhãs e entardeceres.
 
Na distância em que vives 
tens um tempo sui generis, 
e tua física é onírica:
 
Uma física de maus sonhos. 
Uma mecânica de tristeza. 
Orbitando a escuridão. 
 
 
Pedro Luiz Da Cas Viegas  
Cachoeirinha,  12/05/2025
  
 

A cidade me abraça

Pinterest

A cidade me abraça em concreto protendido. 
Esmagado vejo sonos sobre rodas de fuligem 
e sacis suscitando a  maciez dos teus cabelos. 
Pouso junto às barcas do estupor. 
Te procuro nas minas de oricalco do Orinoco. 
Tu, louca, mouca, rouca. Ronca usina. 
Voltam teus cabelos à cidade que me abraça. 
Quem não sente? Tu, minha garça, sinto, santo, sigo em frente. 


Pedro Luiz Da Cas Viegas  
Cachoeirinha,  10/05/2025 


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Escombros

Pinterest

Nos escombros onde recolhia meu cadáver 
encontrei a porcelana da cabeça do meu bem. 


Juntei os cacos em doses duplas de abismo, 
aneurismas enlatados em óleo varicoso. 


Basalto insolente em coração ferruginoso 
ostentou setenta marcas dágua 
do Santo Ofício Escarlate. 


Os gases do ofídio extraíram   aplausos da plateia hilariante. 


Pus meu turbante de cânhamo dourado e rumei para o Irã no meu tapete. 
 
 
Pedro Luiz Da Cas Viegas  
Cachoeirinha, 10/05/2025 
 
 
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O velho Pã

Fonte Pinterest

Pã descobriu suas rugas no espelho de Narciso. 


Velho, viu as flores devoradas pela piedade das lagartas. 


Abatido, deprimiu o Sol com uma triste melodia. 


Caíram águas de uma revolta negra e fria sobre a terra
lavando a sua velha alma. 


Doravante não mais alegraria o mundo. 


Habitaria o terror noturno das pessoas
na sua tenra infância. 
 


 
Pedro Luiz Da Cas Viegas  
Cachoeirinha,  09/05/2025 
 
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O céu que me viu

Vi um céu noturno feito de filigranas inquietantes. 
 
Moviam-se estáticas, eram tudo aquilo que não foi provado. 
 
Transpus a parede do sólido com bússolas instantâneas. 
 
Fui levado ao encontro do emaranhado arquetípico presente no centro de todos os perímetros. 
 
Como brilhou e girou antes de se diluir no cálice não euclidiano que acomodou a sede do carrasco piriforme. 
 
Bebi-me e gerei um choro mutilado, floculado e cadente. 
 
 
  
Pedro Luiz Da Cas Viegas Cachoeirinha, 09/05/2025 
 
 
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Dois corações

Meu coração bate forte, 
Bate com a força de um susto. 
O que assusta, por sorte, 
Combate sem muito custo. 

Hoje ouvi no teu peito 
Teu coração adorado 
Batendo do mesmo jeito 
Que o meu guerreiro cansado. 

Possam nossos dois corações 
Lutar juntos o que resta, 
Celebrar felizes canções, 
Viver a vida em festa. 
 
Que batam em sincronia 
Ao passar cada estação. 
Teu coração, euritmia, 
Guie o meu,  sofreguidão.

Pedro Luiz Da Cas Viegas  
Cachoeirinha,  08-09/05/2025 

Diabruras

Meus ossos doem 
sob o peso do  meu tempo. 
O tempo é um bem 
de que não disponho. 
Bem ou mal, o tempo é que dispõe de mim, 
lenta e irrevogavelmente.  
 
O tempo, esse moleque sádico, 
faz de mim uma formiga 
da qual arranca as pernas, 
tortura e mutila. 
 
Este corpo e esta alma comprovam 
as diabruras do tempo. 
 
 
Pedro Luiz Da Cas Viegas  
Cachoeirinha,  06/05/2025 
 
r/randomatizes        poemas

Melancolia

Almas cadentes, ardentes almas… 
Ainda riscam o céu  
Ocasionais anjos rebeldes. 
Esta noite pesa sobre a Terra. 
Do mesmo modo peso 
Eu e estes pensamentos.  
Fosse toda rocha 
E todo gelo cometante 
Uma alma perdida 
No abismo firmamento… 
 
Canso. Pois não resta opção. 
O corpo e a mente 
A fome e a faina. 
Há pouco fora desta massa 
Exceto estática. 
 
Aponto meus sentidos para o éter 
Buscando um sinal 
De alguma ideia há muito extinta. 
 
 
Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 16/11/2012
Cachoeirinha, 06/05/2025
 
r/randomatizes     poemas

Pã madrugou

Não temas por mim.
Se há dor, ainda se vive.
Dobrei a esquina.
Dobrei a espinha.
Dobrei os joelhos.
Dobrei a dose.
O requinte.
O recurso.
A Tua vontade.
O Teu sangue.
As vias congestas.
Meus projetos.
Teus gestos.
O Teu sacrifício.
Nova manhã.
Um novo giro.
O mesmo eixo.
Pã madrugou.
Neste sono
Me reúno à minha face oculta.
Quando será
A próxima crise?
O próximo ato?
O fim do espetáculo?

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 05/05/2025

r/randomatizes poemas

Este horror alegre

A luz invade este quarto, mas ela não chega aqui.
Não pretendo falar do sol nem deste dia fadado ao mesmo fim de todos os dias. 
Nem pretendo falar de mim, irremediavelmente embarcado no fado desses dias. 
Deus promete a Cruz e a salvação. 
Pã ainda brinca nos jardins do Senhor. 
O mercado de commodities, o mercado de pulgas, o mercado de prazeres, o mercado de ilusões. 
A luz invade este quarto, mas bem aqui só há trevas 
e este horror alegre. 


 
 
Pedro Luiz Da Cas Viegas  
Cachoeirinha, 03/05/2025 
 
 
r/randomatizes         poemas

Nossa última despedida

risos e gargalhos tantos
e sou apenas um
povoado aldeão
protegido por murada
sólida e alta
da ameaça
de outros povoados
protegidos por muradas
sólidas e altas.

risos e gargalhos, choros,
tantas graças e blasfêmias,
somos tantos povoados,
terapólis que encerramos
nas cabeças incessantes.
eis o medo, eis o sono
a vontade de te ver,
a saudade que se foi
olha o medo que nos fica
já não sei quando será
o nosso primeiro oi
nossa última despedida.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 23/10/2004

O sol e o mangue

O sol mergulhou em sangue 
Entrou na lama do mangue 
A Terra não sai desse transe 
Que cresce e se expande. 
 
Penetrei naquela lama 
Onde o sol se escondeu. 
Encontrei lá minha alma 
Irmanada àquele breu. 
 
Minha essência convertida 
Na lama que lá jazia. 
Eis a verdade brunida: 
Sou o sol e a lama fria! 
 
 
Pedro Luiz Da Cas Viegas  
Cachoeirinha,  21/04/202

A pupa se abre

A pupa se abre
Voa a pipa
Aplauso, apupo
A pipa voando
Ferindo o azul

Azar quem não viu
A pupa se abrindo
A pipa voando
O azul sangrando
Sob o aplauso do sol

Aclara, fere e apupa
Pupas, sóis e azuis
Flores, rigores e lupas
Pipas e solos de flautas
Tardes de ocaso e adeus

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 27/04/2025

Oferta

Desculpe, desculpe
Solucei sem pensar 
Sou um cego que esculpe 
Um sonho no ar. 
 
Minha dor marinada 
Por quarenta minutos 
Tu és aguardada 
No ponto final. 
 
Mas é tal o ensejo 
Nosso mapa astral
Eu guardo meu beijo 
Não me queira mal. 
 
Desastrei por mil anos 
Acordei muito tarde 
Entornei um Bourbon 
Então vi a verdade: 
 
Envelheci no carvalho 
De um amargo sofrer 
Resta de mim um retalho 
P’ra te oferecer. 
 
 
Pedro Luiz Da Cas Viegas 
Cachoeirinha 29/04/2025

Rapidinha poética



precisamos
pensar em algo
agora não há nada
que se possa fazer
exceto talvez
dormir juntos
juntos, bem juntos
pensamentos unidos
não sei
acabou
foi bom pra você?

pedro luiz da cas viegas
porto alegre 21/08/2003

Free Design

Vivi tantos verões que as cigarras adentraram meus ouvidos.

Bem aqui dentro, elas e as formigas, neurológico condomínio.

Sobre minha poltrona siamesa eu leio André Bréton nas páginas da minha mão esquerda e lavo minha pele com minha língua poliglota.

Da TV sai um rato de luvas dançando Free Design com Betty Boop moldada numa chapa de zinco e cabeça de meia-lua.

A TV vem da cozinha. Traz um prato de carne brutalmente publicada após os comerciais.

Termino a leitura e fecho minha mão. A TV engole a carne, o rato e Betty Boop.

As cigarras e as formigas não perdem uma cena.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 28/04/2025

Esqueces

Enamorado, esquecestes a flauta com que ganhas pão.

Trezentas onças repicam os sinos que destemem na imensidão das balaustradas arquetípicas e tu retomas o abraço, esquecido.

Sobes mil degraus e chegas ao subsolo da tua alma.

Nuvens violáceas em andrajos num féretro carregando um alforje andaluz. Tu miras e te ressentes das najuras enjauladas.

Luzes que ofuscam num corisco ancestral de demiurgo platinado revelam as traqueias de um mundo sufocado.

Tu tosses. Sentas. Estás só, respiras uma nuvem de vagalumes de cortiça.

Quarto vazio e quieto. Madrugada. Teus olhos saem das órbitas e dormem sobre a cômoda.

Tu voltas ao sono em seguida. E esqueces.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 27/04/2025

Festa 2

Estro no bosque
Estro boscoso
Estroboscópio
Estro e luzes

— A mata em festa

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 17/10/2012

Poças e pedras (2a versão)

O poeta disse
que no meio do caminho
havia uma pedra.

No meu caminho
não havia pedras.
Havia aquelas poças
onde pés descalços pisavam
em despreocupada
corrida na chuva
em idas tardes de verão.

Com o tempo
eu me fiz pedra
e as pedras se fizeram
e hoje dou razão ao poeta.

As chuvas não são como antes,
nem as tardes,
nem mesmo o sol.

Hoje evito as poças
e o frio nos meus pés.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 24/04/2025

Insônia

Insone.
Nesta noite, me sinto hiperbárico.
Apenas ouço ecos e aguardo.
Registro tudo com as luzes nascidas dos meus dedos.
Registro este nada.
Este nada impossível.
Impossível como os cães da vizinhança,
como você do meu lado a ressonar.
Abro a janela e a Lua me sorri um sorriso de escárnio.
Ou talvez de compaixão.
Um sorriso cansado, cor de prata.
Voo até a jabuticabeira.
Os pássaros adormecidos não percebem.
Vejo outros insones vagando
pela noite em silentes voos.
Logo nos reunimos ao redor da luminária pública.
Nossas asas não estão presas pelo sereno,
Mas nossas almas neste sonho impossível.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 25/04/2025

Boa tarde

Entardece. Mais um ou talvez menos um entardecer. 
Perdi algo novamente. Outro irremediável dia. 
Vejo uma procissão de nuvens como urupês que brotam num céu ferruginoso. 
O mundo nasce, cresce e morre num suceder vertiginoso. 
Logo mais o sol se põe como uma gema envolta numa clara ensanguentada. 
É o céu de um mundo que nunca cicatriza. 
Logo mais encerra o dia e ao final de um punhado de mais dias 
Eu me vou, e além destes lamentos deixo nada, nada 
E mais um tanto de mais nada. 

Pedro Luiz Da Cas Viegas 
Cachoeirinha,  24/04/2025

Depressivo

Outra vez após outras tantas vezes
A sombra do infausto me visita.
Todos comemoram, ditosas reses,
Mas algo a um canto me convida

Para contar-me coisas que não ouço,
Para mostrar-me coisas que não vejo,
Para pedir-me coisas que não ouso
E no Santo Ungido dar O beijo.

Sombras, por que invadem minha alma?
Chamas, por que calcinam meus sentidos?
Angústia, por que tiras minha calma?
Morte, por que desejas meus tecidos?

Se preciso, consagro estes ossos.
É tudo que me resta desta vida.
Ouvi, ó Céus, sabeis que já não posso.
Eis minhas esperanças exauridas.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 21/04/2025

Os cata-ventos e as casuarinas

Estes tempos, este tempo…
Apenas os cata-ventos se aproveitam deste tempo.
Penso que sou um cata-vento:
Fui feito para girar, parado.
O mundo guarda segredos de felicidade que não quero desvendar.

Senhor, não permitais que eu me ponha à venda.
O grande preço já foi pago pelo melhor dos compradores.
Apenas os cata-ventos e as casuarinas
compactuam com a revolta do tempo e do oceano.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 13-12-2012
Cachoeirinha, 22-04-2025

Uma viagem

Vamos passear.
Conhecer novo lugar à margem
do Oceano.
Mas antes, o pó.
Não podemos deixá-lo para trás
contendo as nossas marcas.
O pó da casa deve ser suprimido
para não conspirar
com os móveis.

Não… não é preciso ir tão distante
às lonjuras dos quasares:
Perco-me aqui mesmo;
eu, que sou guia e guiado,
condutor e conduzido,
me desvio do destino.

Conversas leves em leves noites sob a Lua,
Cadeirinhas de abrir.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí 13-12-2012
Cachoeirinha 22-04-2025

Cães sons

Cães sons

Cães são cães
São cães sons
Canções tantas
Cães são tantos
Cães sons cantos
Tantos cães, tantos sons
Tantos cantos, sons, cães, tons
Canções, cães, sons, sim, cantam
Tantos somos, tantos contos
Sons, dons, somos santos?
Todos cães, todos cantos,
Tanto faz, tantos santos
Canções, cães e sons,
Esses prantos
Tantos são,
Cães, sons,
Canções
Tudo
cansa

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 21 de abril de 2025

Sonho de uma noite de outono

Eu calo
Mas a mente não cala
Eu paro
E o tempo dispara

Eu deito
E o sono me embala
Eu durmo
E um sonho me abala

Te vejo
Num brilhante vestido
Receio
Que tu tenhas partido

Desejo
Ser por ti desejado
Eu temo
Teu dançar encantado

Tão triste
Teu sorriso ruindo
Parece
Que te estás despedindo

Te chamo
Do celeste bailado
Acordo
Cá estás ao meu lado!

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 19/04/2025

Animula vagula blandula

Quando tua hora chegar
E tudo for consumado
Será tarde para chorar:
Hás de pagar teus pecados.

Vem um dia, vai um dia,
Vem um ano, vai um ano,
Amarga doce sinfonia,
Cada som te arrastando

Ao encontro já marcado
E há muito tão temido.
Foste sempre avisado
Mas jamais deste ouvido

Ao clamor da consciência.
Pensaste que o teu tempo
Teria por ti clemência:
É vento que tu não sentes,

Que te leva qual incenso
Ao final que adivinhas:
O que perdes é imenso,
Errante e doce alminha.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 19/04/2025

Gotíssima

Há guerra sob as estrelas.
As estrelas nada ouvem,
As estrelas nada veem.

A paz se queima qual palha.
Queimam neurônios aflitos.
Vinde, paz de cloridratos!

Ó torpor de maleatos,
Afastai de mim a guerra,
Calai em mim o prurido.

Leve e branco mármore,
Frio, o cinzel modela,
Liberta alguém da rocha.

Há de cair suma gota,
Gotíssima que encubra
As demais numa só queda.

Gota que fure o seixo,
Que corredeira alise
Feito alma no ourives.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 08/09/2012 – Cachoeirinha, 17/04/2025

Tercetos ácidos

Minha mente, endogenia lisérgica
Vejo-me neste transe circular
Num labirinto squib and hoover

Vejo sorrisos sem rostos
E vejo rostos sem sorriso
Sob os beats do Liberator

Irmãos Químicos conduzem
Este caos na ordem certa
Meu paraíso hipnótico

Minha fuga, minha energia
Em oníricos decibéis,
Em eletrônicas odisséias

Estofo das minhas horas
Elixir p’ra minha alma
Até o distante alvorecer

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 14/04/2025

Rebrota na alma

Perdas, a vida é feita de perdas.
Na vida se perde,
Na perda se vive.
Mortos não ganham.
Mortos não perdem.

O que se ganha se perde.
O que se perde se deve esquecer.
A perda é dolorida,
Mas a ferida bem curada
Não deixa cicatriz.

A inocência perdida
Violenta a alma,
Mas traz segurança
Contra os males do mundo.

Você perde dinheiro, perde amores,
Perde objetos e entes queridos
E continua a vida,
A ganhar e perder.

Você, dia após dia, perde a esperança,
Mas ela é como uma planta sagrada
Que, insistente, rebrota na alma.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 13/04/2025

União

Ondas de rádio incidem,
Astronaves colidem
Planetas assim navegáveis.
Os polos, pilares.
Os povos, solares.

-Quero dizer uma coisa, minha flor:

Teu solo, vê, é meu solo.
Tramamos nossas raízes
Longe desses olhares
Em franca profundidade.

Somos um mundo e dois polos,
Em comum as cicatrizes
E nossas sortes e azares,
Urdidos na eternidade.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 18/12/2012 – Cachoeirinha, 13/04/2025

Encantado

Encantado

Meu encanto
É ver seu pranto
Ao sopro leve da brisa
No entardecer que agoniza
Outra réstia de esperança

Meu encanto
É saber sermos dois
Pois sei, é seu,
Também meu,
O mal que a martiriza:

Desencanto.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 26 de maio 2002

A festa

Estrelamentos no céu, padecimentos aqui.
Universal urticária na sintonia das almas.
Calma, não tento ser épico, jamais criei outros mundos,
Mas seus ruídos me adentram em sincronismo de tínitus:

Vejo taturanas ditosas na folhosa verdejante
E caramujos fluorescentes e seus sorrisos luminosos,
Um bailar alucinado na penumbra do jardim
E garatuja indecorosa na parede carmesim…

Ouço harpas em falanges dubstep:
Pulsante paraíso dentro deste coração.
Bate no compasso do presente,
Plange no compasso do passado.

E você, sempre ao meu lado,
Dança perdida nos astros
Dança presa em torres,
Nós juntos nos nossos passos.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 11 de abril de 2025

Alguns momentos eternos

Quando a brisa
Move as folhas:
Ondulante mar
A cobrir as colinas

Quando o orvalho
Congela na fria manhã:
Imaculado manto
A cobrir os campos

Quando o riacho
Corre sereno em seu leito
Ao abandono das rochas
E das folhas mortas

Quando desponta o sol
Entre as brumas da manhã
E o silêncio se desfaz
Em multidões de murmúrios

Quando o vento sopra
Na solidão da estrada
E a poeira levanta
Cobrindo os campos

Quando pesada nuvem
Em negra coluna
Avança sobre a planura:
Dia torna-se noite

Quando o raio risca os céus
Em fulgurante arco
Ilumina-se a noite,
Responde um trovão

Quando a tempestade
Varre a campina:
Abandonada tapera
Entre cinamomos fustigados

Alguns momentos inquietos
Quando o granizo 
Atinge o zinco
E o vento é temível maestro

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre  24.março.2001

Um pedido

Brilha um sorriso.
Raio de sol em teu rosto
De Estrela Polar
Desse céu que me brilhas
Sorrisos de sóis
Sorrisos de luas
Sorrisos de estrelas
Tuas galáxias

Teu sorriso:
Estrela cadente
Iluminando minhalma.

-Faço um pedido.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 28/10/2012 – Cachoeirinha, 08/04/2025

Velhos amigos

Durmo. 
Via Láctea, 
Coalho de mil luzes. 
Ofuscam-me 
Vazios entre estrelas. 
Estarão lá 
Palavras que não brilham, 
Girando planetárias 
Em profundo esquecimento? 
‐—————————– 
Quando retornei 
Do profundo sono 
Sonhado ao giro lento 
De constelações 
Não reconheci o medo, 
Ele me reconheceu 
Em improvável déjà vu 
E me pediu um abraço. 
 
 
Pedro Luiz Da Cas Viegas 
Gravataí, 21/08/2012 – Cachoeirinha, 06/04/2025

Tropicália

Matricária camomila
Solaço de urticária
Arde a tarde intranquila
Na modorra ubiquitária

Seu doutor, haja quinino
Pra conter tanta malária.
Ardo em febre, é meu destino
Nesta vida tropicália.

Se a vida segue em frente,
Em frente segue esta sina:
Sob o sol indiferente,
Sem sombra, água ou estima.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 06 de abril de 2025

Multidão 2

Eu contenho e sou contido,
Sou fluído e cristalino
E tenho um amor amorfo.

Broto das velhas rochas
Nas profundezas das grutas.
Sou água e pedra dura,

Sou teu mal e tua cura,
Tenho uma pedra lascada
Onde tens um coração.

O que queres que te diga?
Sou a trilha em todo brejo,
Se areia, sou movediço

Se fonte, eu logo seco
Sou o grito e sou o eco
Não se surpreenda com isso.

Só peço não me deixares
Sozinho comigo mesmo
Pois me chamam multidão.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 04 de abril de 2025

Papilion

O vento interrompe a crisálida
Na sua plácida metarmofose,
Calidez de sonhos lepidópteros,

Suspensa pela seda
Ao frágil ramo da macieira
No fundo de um sonho de quintal.

Voa em choque o ramo,
Voam em choque os sonhos,
Voam ao longe, em pedaços,

Numerosos qual formigas
A desfolhar os jardins,
A habitar as ideias.

As bombas caem lá fora
Sobre a macieira,
Sobre as crisálidas e sobre tudo.

E se evolam idéias e sonhos
Nas vidas arrancadas
Pelo trinitrotolueno.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 23 de abril de 2003
Atualizado
Cachoeirinha, 03 de abril de 2025

Enjoy the Silence

Você, calada, a me mirar, calado.
Palavras machucam, disse o poeta
Das modas efêmeras.
Nada a dizer, melhor o silêncio.
Viver em silêncio.
Sorrir em silêncio.
Falar em silêncio.
Chorar. Chorar em silêncio.
Rezar. Rezar em silêncio.
Amar!

Somos equilíbrios de linhas,
Esferas e espirais,
Enferrujando austeras,
Esqueléticas e enfáticas
Em solidão e silêncio
Satisfazendo a estética
De um solitário universo.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 20 de outubro de 2016 a 30 de março de 2025

r/randomatizes Poemas

Mais um dia

Olha o pensamento solto: 
Batem asas de formiga 
Bunda grande, terra dura, 
Vermelhão d’entardecer. 
 
Olha o pensamento leve: 
Nuvem cinza, cinamomo, 
Mil bolinhas contra o céu. 
Alguém se cala pensante. 
 
Olha o pensamento bruto: 
Olha o ovo da colônia, 
Tá barata a pamonha… 
Garantida é a melancia. 
 
O tempo matou mais um dia. 
 
 
 
Pedro Luiz Da Cas Viegas 
Cachoeirinha,  29 de março de 2025 

Tsunami


Tsunami, venha e me leve. 
Lave os caminhos, arrase, lave, leve. 
Seja breve. 
 
Sim, eu sei, ao chegar eu sei que morro.   
Eu prometo, eu não corro – Inútil desatino. 
De longe traga nessas águas meu destino. 
 
Traga tudo que existe nessas ondas. 
Nessas massas tudo trague. 
Nessas vagas que assombram. 
 
Lave as orlas. 
Invada o mar o continente. 
Lave, leve as vidas desta gente. 
 
Leve, lave as ruas da cidade. 
Trague, cale os piedosos penitentes. 
Afogue os presentes, os passados, os ausentes. 
 
Leve os corpos afogados. 
Lave os fatigados pavimentos. 
Leve o meu corpo em meio aos excrementos. 
 
E se faça toda fúria suave calmaria. 
Então retorne ao seu leito n’oceano. 
E se faça o silêncio logo após cair o pano. 
E repousem as memórias na placidez das águas frias. 
 
 

Pedro Luz Da Vas Viiegas 
Porto Alegre, dezembro, 2001

Tsunami

Tsunami, ven y llévame.
Lava los caminos, arrasa, lava, lleva.
Sé breve.
Sí, lo sé, al llegar sé que muero.
Lo prometo, no huyo —
inútil desatino.
Desde lejos trae en esas aguas mi destino.

Trae todo lo que existe en esas olas.
En esas masas trágalo todo.
En esas vagas que espantan.

Lava las orillas.
Invade el mar el continente.
Lava, lleva las vidas de esta gente.

Lleva, lava las calles de la ciudad.
Traga, silencia a los piadosos penitentes.
Ahoga los presentes, los pasados, los ausentes.

Lleva los cuerpos ahogados.
Lava los fatigados pavimentos.
Lleva mi cuerpo entre los excrementos.

Y que toda furia se haga suave calma.
Entonces retorna a tu lecho en el océano.
Y que se haga el silencio justo tras caer el telón.
Y reposen las memorias en la placidez de las aguas frías.

Pedro Luz Da Vas Viiegas
Porto Alegre, diciembre, 2001

Conselho


No centro da Lua há um sapo 
Que venceu a solidão 
No centro do sapo há uma Lua 
Que tomou seu coração. 
 
Lua sapo, sapo Lua 
Cheiro de manjericão 
Eu sinto minhalma nua 
Que gosto tem solidão? 
 
Me sinto morto, seu moço! 
Não sei o que há comigo. 
Fale mais alto, não ouço 
O que me dizes, amigo? 
 
Tiveste o mal da flor roxa 
Hematoma sobre a alma 
Da paixão que nos afrouxa 
Tirando a paz e a calma. 
 
Então te digo: escreve! 
Bota em poema tua dor. 
Purga em versos, te atreve 
A sentir o que é amor. 
 
 
 
Pedro Luiz Da Cas Viegas  
Cachoeirinha,  24 de março de 2025  
















Seco

Pedes por cuidado 
Pequena flor perdida 
A quem te olha, seco, 
Como a terra ardida. 
 
Quem te olha seco, 
Pobre flor perdida, 
Não protagoniza 
Sua própria vida. 
 
Um pouco de água 
De secreta fonte 
Talvez ainda encontres 
No meu seco deserto. 
 
Há de estar por perto, 
Não jazer tão fundo  
A rica umidade 
Deste coração. 
 
Já não há deserto 
Minha flor remida. 
Tu és meu oásis, 
És minha razão. 
 
 
 
Pedro Luiz Da Cas Viegas 
Gravataí, 22 de março de 2012 

Conjunto


 
 
Tu és o conjunto das coisas preciosas que encontrei no mundo. 
Sem ti serei vazio 
Pois tu és suficiente e necessária. 
Existo condicionalmente, 
Pertenço e estou contido 
Na suave união 
Dos nossos elementos. 
 
Racional e inteiramente, 
Real e imaginariamente 
Seja para toda a vida o conjunto dos nossos universos. 
 
Seja um corolário o teorema destes versos.

Pedro Luiz Da Cas Viegas 
Gravataí, 23 de abril de 2012

Nave

Nave, eis que regressas. 
De onde virás agora? 
Sinuosamente ondas trazes. 
De onde vêm essas ondas? 
O que e quanto dizem 
À razão destes olhos e 
Ao diapasão destes ouvidos? 
O espaço enlaça o tempo. 
Nesse enlace o tempo passa. 
Tu, nave, no próprio teu descompasso, 
Embaraças estes sentidos 
Há tanto contidos na cápsula, 
Há tanto retidos no lapso 
Deste meu contínuo fluxo. 
 
Pedro Luiz Da Cas Viegas 
Gravataí, 10 de abril de 2012 
 
 
 

Ágape

O ar grita agitado.
Labaredas lambem o lábaro
Sob estrelas de salitre enquanto
O lobo, a lebre e seu filho
Fazem tratados urgentes.

Lépida lesma lavra a losna
No atulhamento do vaso.
Ao acaso, raízes tramam agregados
No degredo de uma terra
Sob céus azuis austrais.

Estrelamentos são possíveis,
Tudo é possível, arcos sem íris,
Íris sem olhos, olhos sem face.
Amar sem desejo: eis o caminho da
Paz nessas águas revoltas.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 17 de março de 2025

Elixir (2a Versão)

Em meu mundinho paralelo, 
Não conheço o que conheces. 
Não percebo teu anelo 
E que por isso pereces. 
 
Ocultas por mim tuas dores! 
Desculpa se sou distante, 
Se pouco sei de amores. 
Vivo assim, sou errante 
 
Para as  coisas da paixão. 
Sim,  vivo neste letargo 
Mas tenho um coração! 
Quisera tomar um trago 
 
De saudável elixir 
Que de vez me despertasse 
E iluminasse o existir 
Junto a ti, se me amasse. 


 
Pedro Luiz Da Cas Viegas 
Porto Alegre, 16 de março de 2025 

Um mal

Dois passos, uma olhada à janela. 
Sentado, os pés são mais leves. 
Tanto tempo passou, 
Tantos nasceram, 
Tantos morreram. 
Viver cansa menos desconhecendo verdades. 
 
Aqui estou. 
Distante daquela janela. 
Distante dauele tempo. 
Mas meu fardo, eu trouxe comigo: 
Esta soturna verdade. 
 
Quieto. Segura tuas lágrimas. 
Memórias, memórias, memórias… 
Algumas são flores, outras são cicatrizes. 

Sabes por que estás triste? 
Comeste do fruto do conhecimento, 
Perdeste a inocência. 
Então, triste cresceste 
E triste há de morrer. 
 
Sim, eu sei. 
E minha tristeza comprova. 
Somos tristes pois sabemos:
 
– Viver é um mal crônico
 
 
Pedro Luiz Da Cas Viegas  
Cachoeirinha, 13 de março de 2025


Ecos

Por vezes penso
Pelas horas apenso
Aos males propenso

Se me desfaço de tudo
Não mais me iludo
Desencanto agudo

Do que já me foi caro
Meu perder não reparo
Meu sentir não declaro

Se me livro do abuso
Se me ponho recluso
Se me encontro confuso

Desta vida infame
O esperto que engane
O enganado reclame

Mas sendo parca a coragem
De enfrentar a voragem
Da ceifeira imagem

Apenas resta o consolo
Não ser o único tolo
A viver por culpa e não dolo

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 28 de novembro de 2001

Roboticamente

Espuma de plástico 
Fibra de vidro 
Sabor fantasia 
Viver virtual 

Sentimento elástico 
Corpo anidro 
Óleo, mola, polia 
Artificial 

O olhar é estático 
Pensamento esquecido 
Houve algo algum dia 
Algum ritual 

O existir é errático 
De sentir convertido 
Em viver fantasia 
Entre o bem e o mal 


Pedro Luiz Da Cas Viegas  
Cachoeirinha,  12 de abril de 2003 

Flores

Veja…
A Lua ocultou sua face
No lado escuro da noite.
No infundíbilo ardente
Espreita o líquido que digere lento
E aguarda a tua queda
Para juntos florescermos.

Somos muitos neste vasto
E colorido jardim de dores.
O que faremos, afinal,
Quando nos tornarmos flores?
Que sons hão de chegar aos ouvidos
E que imagens aos olhos?
Quando o perfume for nosso limite
E palavras não expressarem
O que floralmente calamos?

O que iremos desejar?
Expressar em incertos traços
Nosso louco desespero?

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, outubro 2016

Desterro

Toda flor que bem te quero
Minhas manhãs, tardes e ocasos
Tu és flor que mal espero
Dura vida, és belo vaso

Estros, astros, meus desastres
Esperei tanto por ti
Quantos fomos, tantas artes
Morto, sequei e sumi

Eu já não tenho mais asas
Cansaram de me levar
Agora restam as brasas

Do meu vil desespero
Sem alma, morto a penar
Te sonho no meu desterro

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 11 de março de 2025

Ampulheta

Vejo-te
Ouço teus grandes olhos de açaí
Provo tua voz de amarula
Cheiro tua pele de abacate
Aprecio teus segredos de baunilha

Contigo me confundo e me torno movediço
Areal em apulheta que tens na tua destra
Agora tu me tens
Sou todo o teu tempo

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 09 de outubro de 2016

Espaço-tempo

E eu, eu tenho estado sem fome.
Perdi o poder sobre o tempo:
O tempo é que me consome.
O espaço é faminto por homens,
Por homens famintos por espaço.
O tempo é faminto por homens,
Por homens em seu cansaço.

Que enfado.
Que tarde distante.
Que noite difusa.
Que manhã e que sol,
E que meio-dia.
Já se foi meia vida.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 20 de outubro de 2016

Momento

A pedra cai sobre as brasas
Riscam o ar rubras centelhas
Erram a vagar em rubros percursos
Contra o escuro véu de velhas estrelas

Riscam retinas que miram espaços
Num breve momento de tudo esquecidas
Absortas como num lapso
A tudo contêm, em tudo contidas

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 05 de novembro de 2001


Absinto II

Consagro meu silêncio
Aos teus olhos de  Budesa sorridente.
Consagro meus suspiros
Ao teu sorriso vaporoso indecente.

Mas és tu um sonho inalcançável
Distante, criação de outro mundo,
Ideal de um louco desvairado,
Anseio de um pobre moribundo.

Restam-me o silêncio e os suspiros,
Nunca mais aquele brilho de outrora.
Resta-me sonhar o impossível,
Suave toque e doce beijo de amora.

Fim, fim! Nunca mais! disse o corvo.
Resta a companhia do velho absinto.
Passam as horas, nostalgia absorvo.
É o que me resta, tenho e também sinto.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 10 de março de 2025

Minha Cruz

Amor é aquele musgo 
Sobre as velhas rochas do convívio. 
Não penses brotar da paixão, 
De carnes que buscam alívio. 
 
Amar é adotar uma cruz, 
É constante sacrifício. 
Amar é renegar o prazer, 
É mais um sagrado ofício. 
 
Não digas tu que me amas 
Se no infortúnio me odeias.
Não esqueças, sou tua cruz, 
E tu és a minha, me creias! 
 
 
Pedro Luiz Da Cas Viegas  
Cachoeirinha,  10 de março de 2025.

Nihil

Sento, etilizado, sento
Para melhor ouvir as vozes
Que mal, muito mal me chegam.

Mosquitos, sei, me desejam
Pelo que guardo nas veias.
Vivo, sou alimento.

E morto, que diferença?
Etanol, eis a sentença:
Vivo, sou sofrimento,

E morto, sou permanência
No puro esquecimento
No absoluto nihil.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha,  10 de março de 2025

A noite das dádivas

Se encontrasse uma dádiva
Por este andado caminho,
E o tempo parasse num átimo
Espreitaria eu, taquiônico,

Frestas, segredos, reentrâncias
Profundidades e superfícies,
Texturas, odores, surpresas,
O óbvio, o  o obscuro, o doce vinagre.

E veria naqueles olhos de encanto
O que não mostraram andanças
Não ensinaram mil mestres
Não encontrei em mil mundos.

Seguiria neles trajetos de frescas,
Longas , ávidas caminhadas
Em sonhos de noites sem fim
Até que o amanhecer nos separe.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 08 de março de 2025

Carpe Noctem

Na bomboniere suspensa
Repousam cabeças siamesas.
Piscam cefeidas azuladamente
Através orvalhos fuliginosos.

Dançam Vênus estrondosas.
Estros desfeitos em muco apoteose.
Epicuro vive no jardim de Hyeronimus
Junto a golems e seus hormônios de barro.

Um manequim toca jazz num sax de ossos.
Os golems entrepredam-se na plateia.
Das caixas emana a luz piscante da cefeida
Através das Vênus de fuligem.

Carpe noctem.

Cachoeirinha,  01/03/2025

Descansa

Descansa.
Mesmo enquanto algo urge, pois
O cão ladra por costume.
E a chuva, essa tem maus hábitos,
E a aguardamos, tensos. Mas descansa.

Descansa, pois
Pilha o tempo nossas forças. É sua
Natureza ser, devir, ter sido.
E dizem ser ele ilusão, mas este cansaço,
Ah, este cálice de tédio,
Este calor e esta espera, o tornam
Assim, presentemente denso.

Mas descansa,
Animula vagula blandula,
Descansa.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 23/02/2025

Maçaricos

Você sente o de sempre.
Que precisa de algo
E não sabe o quê.
Remexe o passado e suas angústias,
No entanto
Você sente a proximidade do fim,
Que o fim será o fim,
Sem lembranças ou desejos,
Sem sonhos, ressentimentos,
Sem sensações ou sentimentos.
Enfim, você sabe, no fundo sabe.
O fim será unicamente o fim.
Ali nada é preciso, apenas não ser.

Afastado da razão você pensa melhor,
Você sente melhor,
Que o fim lhe tira para a dança.

Um bando de maçaricos
Na sua formação em cunha
Passa sobre você nessa tarde
Fresca e desesperançada.
Eles dizem algo.
O que, o que…

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 22/02/2025

Vivendo

Perdeste o jeito.
Teus olhos não são mais os mesmos
e os cães já não te fazem festa.
Teimas em despertar para fazer o mesmo
a cada dia mais curto.
Perdeste o jeito, mas conténs
uma centelha.
Perdeste o jeito e estás contido
em contos nunca escritos.
Teus olhos correm ao prato
de mangas fatiadas.
E ainda continuas vivendo
pretendendo-se andradiano.

Pedro Luiz Da Cas Viegas

Cachoeirinha, 01 de agosto de 2016.

Calor

Consumido me sinto sob o Sol
A cada inspirar
A cada espirar.

Consumido me sinto sobre a Terra
Procurando minha sombra
Derretida em suor.

Combustível, sinto-me liquefeito
Como se de fato fosse
Uma parte dessa estrela.

Gravataí, 12/02/2014

Cigarras

A você, que acredita que a cigarra explode:

Por que motivo é tão difícil
Acreditar que ela simplesmente
Descarta o exoesqueleto vazio e seco

Antes de sair cantando
Até explodir nossos ouvidos
Nessas nossas tardes vazias e secas?

Abafadas tardes de cigarras explosivas.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí 31/12/2013

Molusco

Choveu um pouco neste final de tarde.
Na noite quieta, sobre a floreira,
discreto, um caracol espia seu mundo.
Não.
Hoje não estou disposto a matar nada.

Pego o simpático molusco
e o coloco sobre uma Saintpaulia.
Alguém não gosta disto.
Não,
Não vou atirá-lo às pedras da rua.

Agora ele deve estar continuando sua busca.
Talvez pense ao seu modo invertebrado.
E eu continuo sem saber se sei se vale a pena pensar.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, maio, 2005.

Um bem-te-vi pousa na caneleira

Um bem-te-vi pousa na caneleira.

Quisera tu poder dizer o que sentes,
mas, vazio de sentidos,
limita-te a ver a ave pousada
e a ouvir seus gritos
que não decifras.

Teu silêncio abre caminho
entre a luz;
Refletido pelas folhas,
pequenos sóis gritando “bem-te-vi”.

Teu silêncio é denso e sem sentido
e num átimo a ave o percebe
e alça voo até outro paradeiro.

Ficam as folhas e seus sóis agora quietos
acompanhando teu silêncio.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 12/01-28/04/ 2013.

Levíssimo incenso

Não estou tranquilo. Passa o dia irremediavel.
Apesar dessa doçura, apesar dessa leveza
envolvente em tudo, ainda assim
não estou tranquilo.

Essa leveza de coisa que evapora. Essa doçura dissolvida no silêncio.
Não estou tranquilo.

-É a vida que docemente se esvai como levíssimo incenso.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 14/03/2013 – 17/04/2013
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Luz

A luz do poente contra as vidraças
Reflete nesta sala uma cor dourada.
Na água que bebo sorvo dessa luz
E sinto luminoso sabor de vida,
Essa vida que correu entre estrelas,
Escorreu entre as vidraças,
Alcançou a minha água
Iluminou meu paladar
E foi-se em gotas de ocaso.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 03/03/2013

Caro Dr.

Caro Dr.

Não suporto ignorar o meu próprio ser.
Preciso ser o que sou nesta alma vivente.
Por mais que seja a droga potente,
Esta alma não tem mais recurso.
Eis que a vida surgiu de um impulso.

Caro Dr.

Permita viver meu niilismo abjeto.
Permita viver meu viver sem projeto.
Permita agora caminhar com meus passos,
Sem querer explicar as razões dos fracassos.

Caro Dr.

Não pretendo me enquadrar no modelo vigente.
Por mais que eu erre não deixarei de ser gente.
Por mais saciado não estarei satisfeito:
Na mais bela flor somente vejo defeitos.

Obrigado Dr.

Sinto agora aceitar minha percepção deste mundo.
Aceito, desejo e alimento cada vez mais profundo.
O que eu quero e talvez tão logo consiga.
Tantas outras insânias minha alma persiga.

Paciência Dr.
A conta Dr.
Até quando Dr.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 02 de Julho de 2001

Elegia 1938

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

Carlos Drummond de Andrade

Planos

Pegar algo,
Fazer algo.
Pegar um cão e passear.
Pegar um carro e rodar.
Pegar um martelo
Inserir prego em madeira.

Pegar uma pedra e atirar.
Pegar ventos
Aspirar frios.
Aspirar e tremer.
Tremer e parar.

Pensar no próximo passo.
Passo a passo
Estacionário impasse
Quem tiver vontade de aço
Que minha vontade trespasse
E arranque desta cadeira
Esta cabisbaixa caveira

Mostre o caminho do sol
Não consigo sorrir
Vou pegar o espelho
Atirar ao pavimentado passeio

-Meus cacos sérios
Serão pisoteados
E ficarei quieto
Meu peso na alma

O grito trancado por trás do gradil
Agarro uma grade – o vão é estreito
O horizonte que vejo
A avenida e o vento
Caniloquazes chamados
Serei eu, serão eles?

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre . 7, outubro, 2001.

Protopenso

Protopenso em azul vazio
Para libertar a mente deste moedor
Moe dor
Mó de medo

Protopenso leves flores
Sem venenos ou espinhos
Brisa fresca no relvado
Inocentemente verde
Protopenso fugir desta rede

Sinto mais do que penso
Protopenso

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 29/09/2012

A adega de dias perfeitos

Tema recorrente
Avilóquios, canilóquios
Dia ensolarado
Vozes, risos
Gentes dormitam saciadas
Ressonam profundamente
Adormecidas no vazio

Tema insistente
O mesmo tema, sempre o mesmo
O que haveria de mudar
Com que poder
Com que vontade
Alterar eternidade?

Vai aonde?
Vai à festa?
Festa após festa
Após festa e o que resta

Após uma longa doce sesta
Acumulando um currículo de horas festejadas
Acumulando um montículo de horas bem gozadas
A conclusão há de chegar curta e certa

O tempo é destilado dos eventos
E o sono o impregna de fermentos
Avinagrado, o fim do dia engarrafado
Rotularei mais um na minha adega
Mais um litro deste vinho descarnado

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, janeiro 2003

Maya

Sob a luz, crio sombras.
Na água, crio ondas.
Crio meus passos n’areia
E movimento no espaço.
Vibra no som que crio
Esta voz que logo calo.
E crio minha ilusão.
Minha doce esperança.
Crio minha memória
Destinada ao olvido.
Minha vida inteira,
Minha obra efêmera.
Meu breve instante.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 23/11/2012

Fuga chuvaz

Chuva para embalar sonos
Sonos para afastar
Afastar qualquer coisa
Coisa da qual se fuja
Fugindo da chuva
Chovendo na fuga
Fuga chuvosa
Chuva fugaz
Chuva fugosa
Fuga chuvaz

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 04/09/2001

Randomatizes II

enquanto ouvindo música de caixilho de ouvido
à luz do lusco fusco renovando
quadrimoto, segue plenosexo à gaitada
em reviravolta: coitividas de meio em meio turno

em meio, ao sabor, emolduradamente
a turbilhões, a colmeias de enxames (quantas, quantas)
cascatarias de concordantes margaridas
e seus pólens e estames e estigmas

oh meu ser, o que seria desta luz
sem os meus olhos a ver obra toda esta

pulsa à flor daquela pele
e tão profunda – mente – pulsa
que és parte plena
de tudo algo e convulsa

Pedro Luiz Da Cas Viegas
29 de outubro de 2012

Verdade

A verdade.
A verdade e suas lâminas.
A verdade e suas pétalas.
Andar no fio da verdade.

Verdade:
Mal te quero
Bem te quero.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 18 de outubro de 2012

Coincidência

Benditos frutos que brotam
De casa em casa
Da urbe, locais de dormir.
E os frutos se mostram
De casa em casa
Após tanto tempo,
Na urbe, locais de sorrir.

Sonhos e frutos na urbe
Sob o céu cinza.
Os dias, as falas, os passos
Na urbe, seja onde for,
Serão sempre os mesmos
Os dias, falas e passos,
Os frutos, sonhos e sonos,
Beijos, risos e vozes,
Deslocamentos.

Deslouco, percorro,
Distância ocorrida
E tudo eu vejo e ouço
De um ângulo de tantos
Guardado na urbe,
Num canto.

Eu, eu, eu. Sou o conteúdo,
Conteúdo que transporto,
Não importa a distância,
A altura ou velocidade.
Aqui, lá, acolá, e mais adiante,
Serei eu, eu, sempre eu
Minha carga,
Minhas tendências,
Meu próprio silêncio.

Serei eu, eu, sempre eu.
O meu próprio medo.
Não importa o templo,
A beleza da urbe, o tempo.
Serei eu, eu, sempre eu
O meu próprio consolo.

E tu serás, talvez,
Serás talvez sempre espelho,
Não importa onde estejas,
Do que eu possa ser,
Do que eu deva ser,
Do que eu me conceba,
Do que pudesse ser concebido,
Uma grande, completa e estranha
Coincidência.

Pedro Viegas
Porto Alegre, 16/março/2003

Brilham no quintal

Brilham no quintal
Sobre os borrões das flores

Brilham no equilíbrio do espaço
Na ruptura do concreto
No corte do abstrato

Brilham saturando
A dimensão do mensurável
Com a pequenez do que é imenso

Brilham avivando
Minhas lentes à distância
De um olhar roubado

-Colibrilhos

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 05 de setembro de 2012

Luta

Luto contra ninguém
E ninguém me vence
Com certeiros golpes.
Procuro me esquivar
Mas ninguém é mais rápido.
Acerta-me um e mais outro
Golpe em seqüência dorida.
Luto contra ninguém
E ninguém me convence
De que estou a perder
Para minha própria sombra.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 10 de setembro de 2012

Arrasa-me

Se viver é preciso,
Sem ti, não há motivo.
Parto em tua busca,
Rastreio em banda larga
Tua voz, teu cheiro, teu paradeiro.
Desconectado, mesmo pesquiso
A razão destas fases,
O bem que me fazes.
Pesquiso e te encontro.
E sinto, meu ser adentro,
Teu calor, teu morno palor,
Teu contato.
E pesquiso, e busco, e penso
O sentido que tu me trazes
A falta que tu me fazes.

Contata-me,
E então me arrasa.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 21de março de 2025

Eternos

Plástico, concreto, asfalto,
Fibra de vidro, velhas estrelas.
O céu está quieto.
Ebulem dias no outro lado do mundo.
Ainda ouço os latidos de outrora.
Os velhos latidos
Agora são novos, os mesmos,
Eternos.

 

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 14/03/2012

Composição

brotam coisas da terra
dando graças aos céus
o vento quer dizer algo
o zinco solto retruca

vento, poeira,
móveis cansados
concreto dormente
sussurram luzes perdidas

quadros desbotados
de palavras soltas
brotam bolores
destilados de horas

pedro luiz da cas viegas
porto alegre, 24 de outubro de 2004

Estrelamentos

Há coisas no ar…
Labaredas lambem o láparo
Sob estrelas de colostro enquanto
O lobo leva o lábaro estrelado
E lépida lesma lavra a losna
No atulhamento do vaso.

Raízes tramam agregados
No degredo de uma terra
Sob céus azuis austrais.

Estrelamentos são possíveis,
Tudo é possível, arcos sem íris,
Gostar sem desejo:

Eis o segredo da paz
Nessas águas revoltas.

Pedro Luiz Da Cas Viegas.
Gravataí, 10/08/2012.

Elixir

Meu mundinho paralelo.
Não conheço o que conheces
Não conheço tuas dores
Desculpa se sou distante.

Reconheço, sou disléxico
Para coisas de emoção
Mas tenho um coração
Que quer sair do letargo.

Quisera tomar um trago
De saudável elixir
De fazer brilhar a alma
Iluminando o existir.

Preciso de um ensejo
Preciso de um contato
Quem sabe com o seu beijo

Desperto, renovo de fato.
Ainda resta esperança
A vida é uma criança.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 10 de agosto de 2012.

Endogenia I

enchi um pote com pedras
roladas lá da barranca
fiz o fogo na macega
e guardei a cinza branca

risquei teu nome na poeira
que se fez sobre a estante
rasguei a roupa na farpa
do aramado lá da estância

andei bastante, cansei
inútil tanta distância
sem onde se ter chegado

olhei o tigre e o urso
que nada sabem de reis
e o cachorro amigados

e vi ratos e baratas
lutando silenciosos
enchi um pote com pedras
de lugares preciosos

esperei tua resposta
sem que houvesse pergunta
lembrei dos meus bois da canga
e me fiz parte da junta

pedro luiz da cas viegas
porto alegre, 23 de oububro de 2004

Morno amor adorno

Amor
Morno amor
Amorno
Amornece o fogo dos meus dias
Arrefece
Transparece, transfigura
Engana e mutila
A razão desfigurada
Que este amor adorna

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 19-02-2003

Sede

Alma amiga,
Não sou um sensitivo,
Tampouco sou sinestésico.
Também procuro lenitivo,
Também procuro anestésico.
Mas, alma, por que voas longe
Por estes arrabaldes?

Cansaste dos teus sonhos,
Buscas novos ares.
Cheia de incertezas,
Anseias por altares.

Alma, por que vagar tão densa?
Deixes o teu peso como a nuvem
De boa e fecunda chuva
Sobre a terra que a aguarda.

Fiques, chovas em versos
O que sentes,
Faças do poema a vertente
Onde a sede é saciada.
Esta sede que sentimos.

Esta sede que cantamos.

Pedro Luiz Da Cas Viegas,
Gravataí, 22/07/2012

Segredo

Concha. Refúgio da ostra
Solidão nacarada
No seio do mar.

Ostra. Abraças, proteges,
A riqueza da tua dor.

Mergulharei nessas águas,
Buscarei teu segredo
Para que brilhes ao sol.

Pedro Luiz Da Cas Viegas.
Gravataí, 04-22/07/2012

Dança

Densa dança que condensa
Intensa chama desses passos
Tão leves quanto os olhares
Mais leves que os espaços.

As dimensões de um cosmos
Cria e trama em compassos.
Avança e traça segundos
Feitos de tons e matizes.

E nessa luz te encontro
Fazemos parte do drama.
Sou sua cor, movimento

E és tu que me conduzes
Por estes tempos que ardem
Entre risos, fogos e luzes.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 10/07/2012

Ilha

Porção de mim
Cercado de teus cuidados
De todos os lados

Isolado do mundo
Esquecido de mim
Não mais te vejo ou ouço

Um mar vazio
Ou cheio de algo que nos é estranho
Ocupa o espaço que antes era somente teu

Precisamos de uma garrafa
E algumas mensagens
Para fazer uma grande travessia

E trazer de volta ao contato nossas orlas
E preencher com nossas vidas as águas desses mares

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 09/07/2012 – 20/07/2012

Tempo

O meu tempo
O teu tempo
Estas coisas imiscíveis
Nossos tempos impossíveis
Ocupando o mesmo espaço
Em uma fotografia
Passamos despercebidos
Nesta grande galeria
Que se encobre de poeira
O meu tempo
O teu tempo
Quem vai querer perder tempo
Prestando atenção a nós dois?

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 09/07/2012

Uma gota

Aromas, cantigas de roda
Sorrisos dispersos no meio
Claves de sois poentes
E luas cheias de tudo.

Chakras expostos na areia
E um coração de cigarra.
Uma gota de azul
Do azul desse céu

De incenso tão leve
De tão leve intenso
Quero provar ao fim do calor
E da luz deste dia

Para levar a um sonho.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 29/06/2012

Beba água

Beba muita água.
Sais, solutos, é o que somos.
Dissolva a mágoa até a concentração
De um sorriso.
Mostre ao Sol, pois, essa alma,
dos incisivos aos cisos.
Ais precipitados nos tecidos
Serão levados no enxágue.
Beba água, muita água.
Somos sais, solventes e solutos
E um conjunto de atributos
De controle rigoroso.
Evite o sentimento indigesto;
Meça antes
A palavra e o gesto
E beba água,
Muita água.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 29-30/06/2012

Relíquia

Guardei o seu sorriso
No âmbar da memória.
Relíquia fóssil
No fundo da gaveta.
Retrato em sépia
Testemunho de outra era
E um pôr do sol
Secando uma rosa.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 24/06/2012

Tergiversos

Oh minha paixão…
Não há como ser épico.
Meus versos, tergiversos,
Falam do vento,
Canções sem acordes,
Moinhos e giros,
Pipas no alto
Catando azul.

E, nos céus de Cabul
Ou qualquer cidade,
Que a brisa guarde
O segredo da flor
Que guardei para ti.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 27/06/2012

Encontro

Brilham as caliandras na manhã pacífica.
A leve brisa não abala os insetos
Que procuram o doce néctar.
Fecho levemente os olhos ao sol
Para ver melhor você
Que me dá bom dia.
E então sorrimos
E cada um de nós
Segue sossegado
Seu caminho
De flor
Em flor.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 23/06/2012

Quero um beijo

Quero um beijo, ouça e prove
E sinta a cada passo:
O astrolábio e as estrelas,
As pegadas e os caminhos
Canibais de cada dia
Que consomem os andares
Nos conduzem
A destinos destilados no futuro.

As paredes do agora,
Pedra sobre pedra
-Poliedro-
Definitivamente se consomem
Em poemas não escritos.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 21/06/2012

Noção de tu e você

Mal me quer e já desiste. Sequer testaste tentando.
Vago senso, sentir nada. Talvez de quando em quando.
Palavra por palavra, pensada, face parada, mudez.
Cala e grita, credo nas cruzes, mas que bela palidez.

Não passe mal, eu só peço, nem tenha assim tanto medo.
Me reza e me chora e quem sabe me critica, tua boa intenção.
Me jura e fere e cura, me estraçalha inda hoje, cedo, cedo.
Mas nem agora nem depois, quem sabe quando, coração.

Um momento, aguarde, aguarde. Já não tarda.
Talvez morra dentro em pouco. Fosca, parda.
Vejo era que finda. Percebendo, percebendo.

São meus olhos ou é tudo que já some consumido?
É agora, já percebe? Inda estará me ouvindo?
Oh sim, a senha, a senha. Eu já ia esquecendo.

Pedro Luiz Da Cas Viegas.
Porto Alegre, 26/11/2004

Chá de jasmim IV

O bom sangue corre nas veias.
Receias o mal que não conheces.
As preces como mantras garantidos.
Terás sido a melhor das que não tive.

Ourives das peças mais consagradas,
Te agrada saber que nada sei.
Qual lei fala de ser comum.
Humano, vacum, todo o fim é o mesmo.

A esmo, tudo matamos, bichos e gentes.
Lamentas, choras choros ensaiados.
Traçados os planos, o dia seguinte.
Pedintes, miséria, falta de sorte.

Ser forte, subir e descer o caminho.
Teu destino, grafado no pó deste vento.
Cada momento, que seja o elo faltante.
Errante, integro a massa vazia.

O avançar da idade sepulta a vontade abortada.
Desperta o grito no estertor da agonia.
Submerge a ilha nas vagas do mar,
Derivar, indeciso, em meio, ao longo, ao fim.

Telhados escondem estes mecanismos.
Esfregar fuligens das pratas.
Polir, enganando o tempo que passa.

Devir, apenas o fim que principia,
Conteúdo pulsante de um estojo de ossos.
Estrutura, treliça armada, cimento, ferrugem.

Granular natureza, discreta, finita.
O circuito fechado revela
A função das paredes.

De joelho ao pé da estátua.
Uma gota pintada na ferida de gesso.
Gestos de pedra.

Arte da dor.
Não há chá
Sem a morte da flor.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 2002

Agora

Circulo em trânsito entretecido
Em diáspora plena de vício tenso.
Vejo amêndoas agridoces ao óleo
Do viço do seio farto
E Vênus ouvindo mar na concha,
Coaxos, martelos, velhos mantras.
A lacraia riscando a cambraia
E um pote cheio no decote pleno.
Há lua de nova luz,
Velha palidez na face do poeta
Que concebe um lampejo, um anjo, um fauno.
Quero um beijo, ouça e prove
E sinta a cada passo:
O astrolábio e as estrelas,
As pegadas e os caminhos
Canibais de cada dia
Que consomem os andares
Nos conduzem
A destinos destilados no futuro.
As paredes do agora,
Pedra sobre pedra
-Poliedro-
Definitivamente se consomem
Em poemas não escritos.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 22 de junho de 2012

Dança do cisne

Inelástica, inerente,
Inevitavelmente
Coeso ao centro do ato
No eterno átimo
De angular esforço,
Atrativamente
Orbitando no sistema
Cisma o cisne
Ensimesmado no confronto
Do oculto enfisema
Enquanto avançam nos seus cursos
Seres, deuses, astros,
Naves neste caldo cósmico,
Éter e poeira,
Pensamentos.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 13/06/2012

Reação

Seja o princípio
Ativo e perene
Absorvido no sistema.

Seja o sistema
Aflito e sereno
O contraste no seu corpo.

Sejam nossos corpos
Conteúdo e continente,
Reação e reagentes.

Amalgamados seremos.
O princípio transmutado,
O desejado equilíbrio.

Pedro LDC Viegas
Gravataí, 04/05/2012

Tua chama

Carnes em bocas ávidas,
Pétalas em água cálida,
Sumos de frutas grávidas,
Dragão sobre a pele pálida.
Suspenso em arco voltaico
Lanço palavras ao vácuo
E não me faço ouvir.
Apenas a Lua lê meus lábios
E permanece muda.
Fina seda plástica encobre tua pele
E a brisa não existe sem teu toque.
Pendem vitoriosos astros envelhecendo tua memória.
Louvada sejas enquanto brilhes em mim
E apague-se com o meu próprio olvido
Tua chama.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 16/06/2012

Meditativo

Queria ser centro e sou esquecido.
Sou centro onde queria estar incógnito.
Sirva-se. As frutas estão frescas, orvalhadas
da manhã.
Sumarentas doces frutas.
Doces e delicadas peles que te envolvem.
Serena assim serena a fitar o doce
lume da manhã
que se insinua.
Teu corpo delicado dentre a bruma.
Provemos do pomar
sobre a relva inda molhada.
Seus pés nus o que temer
na relva fresca e fina.
Venha entre estas alamedas
por onde vago e se
sozinho eu me perco.
É doce o rico sumo das
frutas do pomar.
Prove.
Tome de minha boca
o sumo dessa fruta.
Dividamos.
E sobre a relva esqueçamos
olhando o céu que nos protege,
sentindo a brisa que me traz teu cheiro.
Tu és presente.
Sinto presente para a vida.
Serei eu digno de que proves
dos pomares nos quais me perco?
Dos pomares que plantei na minha mente?

Pedro Viegas
Porto Alegre, Setembro 2001

Angra


Atomímica bombatômica
No deca serão fogos
Fogos de arte físsil
Nos céus de artifício
De cobalto e plutônio
Dos lixões das Angras
— Digas,  povo, por que exultas?
— Digas, povo, por que sangras?

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre,30/06/02
Gravataí, 03/06/ 2012

Lentes


Se ao mirado o infinito revela
Um rosário de eras que findas
Nos chegam a cansadas retinas
Como pontos num vazio que impera,

Que dizer destes olhos que miram
Desta terra, nada mais que um grão
De poeira, nebulosas que giram,
Pelo cristal desta lente, esta escuridão?

Destes olhos do mesmo pó oriundos
De distanciadas eras, momentos, segundos
A fluírem na luz, nestes mecanismos,
Destas janelas perplexas diante do abismo…

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 6-8 de novembro de 2001

Via única

Não, não quero dormir
É como morrer inutilmente
Mente inútil adormecida
Com tanta vida latente
Vida latente
Leite de vida
Vida láctea
Tanto leite derramado
Vida, única via
E suas estrelas perdidas

Pedro Viegas
Porto Alegre, maio de 2002

Doce ciranda (Eclipse)

Doce ciranda nossa.
Satelizo-me ao teu ser,
Perfaço no teu entorno minha órbita,
Meu trajeto no espaço duma vida .
Me eclipsas e aceitas atrativa,
Emanas teu raiar, ofusca e guia
Minha eterna idavolta em torno teu.
E já perdi minha luz própria.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre – ?

Chá de jasmim III

Primeiro gole

Calêndulas floridas
Campo grosseiro
Caçador de milagres
Cachorro mateiro

Trilha dos passos
Amassa a ramagem
A picada tem fim
Inicia a viagem

Segundo gole

A marca na casca
A seiva que escorre
Na mata, na lasca,
Na vida que morre

Na folha, no caule,
Nos veios da terra
Na carne ferida,
Nos campos de guerra

Terceiro gole

Despenca o rochedo
Floresce o juá
Espinhos no couro
Saudades de lá

Ossinhos no solo
Solar solidão
O céu está nu
As nuvens se vão

Último gole

Flores na pedra
Suave rudeza
Estrelas de quinta
Primeira grandeza

Noite de cima
Na beira do rio
Corisco no escuro
Brilhar fugidio

O que foi já não volta
O ciclo sem fim
O viver que revolta
-Meu chá de jasmim!

Pedro Viegas
5 outubro 2002

Via Crucis

Rua larga.
Pavimento percorrido.
Passos, sussurros, agitação.
Esquecimento no caos de mil solados.
Almas pisadas, enegrecidas na fuligem,
Pavimento desgastado.
Pressa, desespero, calma indiferente
Convivem no mesmo fluxo.

Marquises,
Último refúgio,
Observatório da luta:
Mil passantes determinados,
Rumos difusos em mil trajetos
Nos labirintos de concreto.
Olhar perdido no rio caótico
Feito de olhares perdidos em incerto rumo.

Passos incertos,
Duvidosas esperanças.
O meio fio atulhado.
Detritos no esquecimento
Aguardam o destino do descarte.
O pavimento sempre renovado,
As certezas nunca comprovadas.

Via Crucis de miríades.
Sísifus cumprindo o destino.
A carga é pesada.

Pedro Luiz Da Cas Viegas

Porto Alegre, fevereiro, 2001

Retilineamentos

Preciso continuar nesta linha.
Atesto o desconcerto na brandura calma,
Diafanar de dia findo, tepidez parada,
Luas vazias e mancheias,
Quanto custa, quanto custa.

Giro não é sério sem eixo
Imaginário ou feito de algo.
Bonecos ou não, deixam um espaço
Entre aqui e ali.
E parece haver um caminho ou mais
De uma saída.
Ao menos.

Estireno

Plastifólios. As gotas rolam livres.
Ar quasiplexo desfeito no borborigmo.
Leveza maior que a do algodão adocicado
Girando e o vento levando a bola de cor salteada.
Que memória clara e que movimentos.
Traços livres pensam moldado algo que vem,
Na semana, no fim de semana,
Um vaso velho
Arranhado ou semi quebrado,
Cola tudo, nem é possível.
Tecido, tem sido difícil,
Ter sido sarcástico,
De madeira, de carne,
De plástico.

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí – ?

Indecorosa

Flor na minha tela
IndecoRosa
Mente delicada
Pensa flora
Enquanto a miro tenso

Fina palidez
A imagino
Coisa nova, tez do pêssego

Então a despetalo
Na minha retina

Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí 01/03/2012