Lembro-me de ter morrido várias vezes nesta vida. E a cada ressurreição quedei-me abismado. Ultimamente tenho percebido que as mortes continuam ocorrendo sem que me causem grande espanto. A cada minuto morro. A cada minuto ressuscito. Mais Golem, menos Alma.
Eu estou aqui, tu estás aí. Estamos tão próximos, ligados por essa distância que nos separa. O vento me despertou de um sonho em que quase nos tocávamos. Desperto tão próximo de ti que nossos sonhos se confundem.
E percebo, nesse contato tão distante, que não há sonho em mim, que não há sonho em ti, que não há sonho entre nós. Há apenas o vento que sibila e o frio espaço que separa tantas estrelas.
Sol salamandra, gotas de vidro. Depois deste sono, esperar por mais sono. O homem é a pedra no sapato do homem. Ladra o cão advertindo aquele passante. Ladram o sol e a lua. Ladram as flores e a relva. Ladram as nuvens e a brisa. Ladra o aroma do diesel. Ladram os túmulos. Cão mundo, estrelas caídas. Anjos não fazem poemas.
Vi a nossa apoteose. Vejo o nosso ocaso. Nos assistem essas partículas em quântico desencanto, em cínica indiferença.
Há horas de palavras sem forma. Há coisas que palavras não descrevem. A vontade é um prurido disperso na alma. A felicidade mora num planeta a eons-luz de distância. Fico aqui, entre horas, palavras sem forma, coisas indescritíveis e este prurido na alma.
Esta coisa, que palavra poderá descrever? Esta ausência, sentes?
Ah, essas coisas absurdas que insistem em existir. Essas existências absurdas, absurdas como a vida, por si mesma absurda.
Vês a lua? Ainda está lá. E me olha, estás vendo? E me pisca ofuscada no seu próprio refletir. Me pisca como fazendo um convite, ou querendo dizer algo que sempre gritei no silêncio de mim mesmo.
Ah, essas coisas que calamos aguardando confessor. Talvez a lua me ouvisse os gritos. Por isso, entre as nuvens desta noite, esconda seu escândalo.
A toalha e suas mensagens de café. A mesa fala sobre a penumbra deste cômodo. O furo na toalha parece dizer algo. O café mistura-se ao leite. O açúcar se dissolve. Dissipa-se o calor de tudo e o frio permeia as palavras. As coisas parecem não mais ter o que dizer. Eu procuro dizer algo. Para alguém, para Deus, para mim mesmo.
Todos estão ocupados. Uns nascem, uns crescem, uns morrem. Parei em algum ponto. Talvez eu seja um eterno nascituro. Todo este crescimento se resume em sofrer, carregar uma cruz e agradecer. A loucura do mundo não é a minha loucura. Mas não sou convicto da minha própria loucura. Começo a desejar e me alegrar com o fim, pois percebo estar entre aqueles que morrem para o mundo. E eventualmente para a vida. O mundo parece me acompanhar nesta morte. Mundo malnascido. Mundo que incha como carniça varada pelo gusano. Mundo que não cobiço. Mundo. É este o mundo. Sou este o eu.
Agora escrevo assim: risco a esmo Sobre absolutamente nada e até mesmo Sobre a busca do melhor dia logo à frente, Sobre a bruma que me invade insistente.
Escrevo sobre nada, eu insisto. E desse mesmo nada eu me invisto. Não escrevo sobre a beleza deste dia, Não penso no futuro nem respiro nostalgia.
Risco a esmo estes versos despojados. Risco desta alma o derradeiro, ingente fado: Risco estes versos para esquecer a breve Morte. Risco ao acaso o meu rumo, o meu azar e a minha sorte.
Dormi. Sonhei sonhos de sais. O dia foi mais outro E uma tristeza sem corpo Nem conteúdo Habita as horas Que me preenchem vasos, Alvéolos e interstícios.
A cada hora que passa O mundo me é mais estranho. Quanto mais o mundo conheço Mais desconheço a mim mesmo.
Os sonhos dizem algo Que não sei discernir. O sono renova o ânimo E a vida passa A cada sonho que seca.
Tudo está fora dos eixos, Eis o que os sonhos nos dizem. Mas o ânimo é uma gangorra. E agora os sais são bem vindos. E alguma esperança.
Nada sei. Sequer sei se há algo para ser sabido. Algo que de fato importe. Os homens naufragaram no seu conhecimento. Subverteram a Verdade Em arrogante Gnose E perversas ideologias. Pretenderam alcançar as alturas do Sol Com asas de cera E tomaram a queda como vôo livre.
Ah, Liberdade… Toda queda é livre E pular é livre escolha. Autossuficientes, Acreditam-se mais leves que o ar Até que o dureza do solo Os desperte tardiamente do delírio.
Sob as solas de minhas botas Gritam caminhos por mim trilhados. Eles se abraçam aos meus passos Como lama e escarro jacente Nas calçadas e sarjetares do mundo.
Desci com minhas botas Às latrinas do mercado E encontrei a resposta para a pergunta Que jamais fiz: O que procuro?
A resposta sempre esteve Aqui, bem aqui dentro E no inenso vazio à minha volta. Mas não hei de lançar Pérolas aos porcos.
Hoje percorro outras vias. A carga ainda é pesada E as botas me apertam — Pés cansados De inúteis caminhadas.
Rumo em dor lenta, dor De sentir chama no peito. Brasa, aperto, medo e ânsia, Proximidade e distância, Ardente dor, ardentes tempos De muita seca e chuva em demasia. E a alma afaga Afogadas esperanças Que ventos varrem dos caminhos Dessas vidas transeuntes.
Rocha vermelha. Muita pedra Para um só coração. Que a dor de viver fragmenta E torna em pó Que corre em veias De pedra De gelo De desespero.
Tenho a nítida impressão de que a rua da minha infância encolheu. De fato, o bairro todo — a cidade.
Talvez meu coração tenha encolhido pela escassez de sonhos. Já não sonho, e o que resta desta vida é ranger de portas e de dentes.
Busco em algum sal o sossego para a alma. Enquanto umas coisas morrem, outras vão nascendo, e a rua adormecida e ressecada apenas encolhe, descolore e se sucede em imorredoura senescência.
A rua que me viu crescer há de saber da minha morte, para juntá-la à sua própria.
Fora da rua há muito cansei. Alguém me leve deste jardim. Há muito não sei se sou eu que passo pelo tempo ou se é o tempo assim, apressado. Espero, com esta imagem ainda forte de metal contra vida distraída, que o tempo tenha sido indolor para aquele cão. Algo, na tela do pára-brisa, voou em giro rápido, não sei, não quero, mas penso, aquele pára-choque amassado e os músculos e o corpo, trajeto no asfalto, instante eterno. O menino correu, percebi muito em um relance. Aquele motorista não teve tempo, velocidade consome. O cão desfeito. O menino, a mãe, aflição na face do menino que corre. Talvez a chuva esteja lavando agora o sangue. Talvez a lágrima esteja lavando agora a dor. O passado eterno.
Espelho de fronte.
Semidesperto reflexo.
Escovejo dentes
Sem qualquer sorriso.
Cuspo na pia
O branco de espuma.
Frescor que escoa
Até a quietude do ralo.
Escovejo sorriso
E o sorriso escoa.
Frescor do sorriso espelhado.
Frescor do sorriso no ralo.
A prata da Lua Quisera fosse vermelha Fosse verde ou azul Uma cor menos crua A prata de sempre Do astro sem luz que espelha Espelha e espalha silente A luz da velha estrela Que noutro lado do mundo Performa o giro do dia O dia de sempre O giro sem rumo A noite de sempre A sempre velha luz fria
Pedro Luiz Da Cas Viegas Porto Alegre, 02 de fevereiro de 2002
O livro O jogo das contas de vidro, de Hermann Hesse, não é uma leitura fácil. O autor parece chamar atenção para isso no trecho em que descreve um livro que José Servo examina: “Por fim, puxou um volume encadernado, já um pouco desbotado, cujo título, Sabedoria de um brâmane, o atraiu. Primeiro em pé, logo depois sentado, folheou o livro que continha centenas de poesias didáticas, uma curiosa miscelânea de verbosidade oca e de verdadeira sabedoria, de filistinismo e autêntico estro poético. Não faltava esoterismo a esse livro estranho e tocante, assim quis lhe parecer, mas essa doutrina arcana vinha envolta numa casca grosseira, de fabricação caseira.” De fato, por vezes a leitura é monótona e prolixa, de uma narrativa densa mas vazia de significado. Este não é um livro para entreter, longe disso. O autor buscou algo mais, de modo que não, não é nada fácil este livro. Das poucas resenhas que li deste livro, todas foram muito superficiais e parece que ou o livro foi lido às pressas ou não se compreendeu a mensagem. O jogo das contas de vidro foi o ponto culminante da carreira do escritor, já idoso, e lhe valeu o Prêmio Nobel de Literatura de 1946. O livro é dividido em três partes. A primeira, dividida em 12 capítulos, é uma biografia do protagonista. A segunda parte é um conjunto de poemas escritos por José Servo. Na terceira parte são narradas três “existências” do protagonista, que são exercícios propostos a ele como parte de suas atividades em Castália.
Iniciei a releitura a partir da terceira parte do livro, que narra as três encarnações anteriores de José Servo. Acabei de ler o capítulo intitulado “O Conjurador da Chuva”. Simplesmente magnífico, tanto pelo enredo como pelo conteúdo. Nada melhor que uma releitura passados tantos anos da primeira imersão neste livro. É como se agora eu compreendesse o que na primeira ocasião não percebia. Neste capítulo aborda-se o fato de, apesar do homem primitivo não ter sido dotado do refinamento da razão, seus sentidos e intuição eram mais desenvolvidos. Aborda-se o papel que o medo da natureza, dos elementos, das feras e doenças teve na espiritualização do homem primitivo. Hoje, com a hybris científica, o homem perde inclusive o sentido da vida. A segunda encarnação de José Servo é o tema de “O Confessor”. Neste capítulo, trata-se da encarnação de José Servo na pessoa do penitente Josephus Famulus. Um elemento presente ao longo de toda a obra é o conceito de servir ao próximo, um conceito essencialmente cristão. Näo é acaso o nome do protagonista. Um capítulo dos mais emocionantes do livro. Um momento que chamou de modo especial minha atenção foi quando Dion Pugil falou a Josephus Famulus que o cristão não deve tentar converter os pagãos felizes, mas sim aos infelizes que buscam ajuda e que mais cedo ou mais tarde algo acontece com aquela volátil felicidade e acabam por buscar a Deus. Enquanto em “O conjurador da chuva” a ênfase foi o animismo, nos dois seguintes, “O confessor” e “A encarnação hindu” tem-se respectivamente o cristianismo e a filosofia hindu. O capítulo “A encarnação hindu” é uma belíssima narrativa da vida de Dasa e uma ilustração sobre maia, a natureza ilusória da existência. Neste livro e nos livros Siddhartha e O Lobo da Estepe o autor demonstra influência da filosofia e da espiritualidade orientais, mais notadamente o budismo e o taoismo. Neste capítulo é dada grande ênfase para a ioga, isto é, a praticada pelos ascetas iogues.
O livro é um grande tributo ao indivíduo, à autodeterminação, ao serviço e, sim, à busca da nobreza de espírito. O livro narra a vida de José Servo, cuja trajetória foi marcada por dúvidas, mas também pela transcendência e pelo despertar. A caminhada do protagonista foi marcada pelo serviço ao modo de São Cristóvão, que visava sempre servir aos senhores mais poderosos (para um cristão não há outra coisa que se possa fazer que não seja servir ao maior Senhor, já que toda obra é feita para Sua glória). José queria que sua vida fosse um transcender, um progredir, um despertar ao final de cada etapa da vida, quando o ânimo e as possibilidades parecem se esgotar. Pode parecer algo egoísta, mas é falsa aparência. Quem faz o bem visando seu crescimento somente pode fazer bem ao mundo. Outro aspecto explorado é uma aristocracia do espírito, capaz de transmutar, no período de uma vida, um mero plebeu num verdadeiro nobre. Mas a impressão que tive é que o livro fala muito mais do que está escrito. Toda a vida de José Servo, a constante mudança dos meios na busca de uma transcendência e, finalmente, seu último discípulo, Tito, e o triste desfecho do livro, me fizeram pensar. Havia pensado sobre o tom orientalista do livro, e se talvez Hermann Hesse quisesse expressar, desse modo, maia. Sim, as partes do livro estão interligadas, uma parte explica a outra. Confesso que nesta segunda leitura compreendi muito melhor a obra, mas este é o tipo de leitura para se digerir lentamente com o tempo. É uma obra monumental pela sua complexidade e beleza e o autor faz jus ao Nobel recebido em 1946.
Um lado negativo no livro é a ênfase dada à filosofia e religião orientais. O cristianismo tem um pequeno lugar na obra. A moda orientalista vigorava nos tempos do autor. Como diz Jeffrey Nyquist em “O Tolo e seu Inimigo”: cui bono?
Semidurmo de alma e corpo, feto sob útero de cobertas, na penumbra de um quarto casular.
Tu me chamas para a vida, tu perguntas o que eu tenho. — Não sei, eu digo. Não sei, duvido de mim mesmo. Não sei sequer se me conheço, não sei o que quero, o que sou ou quem sou.
— Meu bem, talvez isto passe com uma xícara de café.
Voo baixo. Muito abaixo desses sonhos. Muito abaixo das estrelas Dos céus de maravilhas. No meu voo, Deliro no silêncio em meios tons. Voo leve junto a pálidos floresceres. Quase toco as superfícies desses seres. Que famintos admiram estas asas. Ouço o bramido desses seres. Tremem minhas asas E logo ganho altura. Volto para os céus de maravilhas Enquanto meu sonho não acaba.
esta cabeça que dói, que dói por esta tarde, por este dia, pelo que foi e pelo que há de ser ou não ser. por alguma questão desimportante ou de sumiça importância. sim, por algo ela dói, pois há um peso no mundo e esta alma pesa feito sibilo incessante.
preciso retirar esta barba. é como esculpir pedra bruta que pulsa enquanto pensa pesando, enquanto pesa pensando pensamentos sem peso, peso sem pensamentos, pensamentos que esmagam, pensamentos que vagam, bolhas de vento que são.
pulsa profundamente esta pedra sob esta barba como a cabeça solene e sonolenta de um busto sob os pombos da praça, amantes de bustos e cenotáfios.
pulsa profundamente esta carne sob esta lâmina.
pulsa. pulsa a pedra. pulsa a carne. vive a lâmina.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Gravataí, 2012 Cachoeirinha, 19/08/2025
Brilhou mais uma vez, impávido, o Sol. E tudo cá embaixo esteve o mesmo, assim como acima ou além dele e, acima e além de tudo mais, sempre foi, tem sido e há de ser, sempre e sempre: A mesma querida e inevitável mesmice universal.
Hoje não vi o Sol descer do palco. Eis as dúvidas: Porventura terei perdido algo? O que teria encontrado? Uma revelação? Como abarcar tantos possíveis? (Eis um impossível)
Viver o que é possível ou ver todos os pores do Sol, eis a questão.
Suas palavras chovem sobre a alma um sussurro de possível e impossível ao mesmo tempo,
nos questionando sobre o pôr do sol que vemos todo dia,
sobre a mesmice que parece fixa,
e sobre os momentos em que a alma tenta abarcar todas as possibilidades…
Em seu texto, encontramos o silêncio do universo sussurrando: viver o momento, apesar de todos os impossíveis.
ele queria morar na praia, banhar sua melancolia, confabular com o silêncio, ouvir as vozes caladas.
queria ouvir a conversa da água, do vento e da areia, sobre as intempéries da alma, sobre as angústias de Netuno, sobre os desejos das sereias e sobre a loucura dos homens.
queria ouvir a Lua em segredos com o vento rebentando o mar na orla bramindo como um lamento pela insaciedade do tempo.
ele ouviu no silêncio o que não ouvira antes e compreendeu ser imenso o seu derisório instante.
Independente, sou frasco sem rótulo. Meu conteúdo coletei pelo mundo, Colhi dos meus bens, Colhi dos meus males. Meu escárnio eu guardo Para os que defendem a liberdade Através da rigidez da falsa moral, Através de leis arbitrárias, Aplicadas nos bretes Onde as tribos se reúnem.
Bretes onde lobos reúnem ovelhas Para o abate voluntário.
Sou livre, E a liberdade é solidão. A solidão é silêncio. O silêncio nos faz ouvir Nossa própria voz. A Sua voz.
Independente, aprendi a ouvir Sem dar ouvidos. Aprendi a falar Sem dizer tudo. Aprendi o otimismo Sem o tolo entusiasmo.
Mentimos. Tememos a revelação. Tememos a nós mesmos. Tememos a nossa fé. Preferimos condenar-nos à falsa luz de sorrisos vãos e a falsas esperanças.
Não desejamos remover as montanhas que carregamos sobre nossos próprios ombros. Sísifos que somos, insistimos, insistimos, insistimos. Talvez seja uma pena que pagamos, talvez seja por medo, talvez apenas masoquismo.
Somos surdos. Cegos. Insensíveis. Mentimos a nós mesmos. Mentimos arte, mentimos fé, mentimos amor em todas as instâncias, mídias, lugares e momentos.
Não nego que sou rocha, Não nego que sou gelo, Não nego meus defeitos Que são tantos quanto a areia.
E, como ela, aceito tuas pisadas E marco tuas pegadas Que o tempo logo leva.
Minha solidez Desfaz-se com o tempo Desfaz-se com a saudade.
Ah, essas pegadas tuas em minh’alma! Já não sou pedra, sou barro Que grudou nos teus sapatos.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Cachoeirinha, 13/08/2025
Pegadas: a conversão pela saudade
Neste poema, o homem duro e impenetrável — rocha, gelo, pedra — revela sua transformação profunda, impulsionada pela saudade que sente. É essa ausência, esse vazio, que o desmancha, assim como o tempo que apaga a solidez, e o torna mais vulnerável.
Ele se vê agora como a lama grudada nos sapatos da amada — um símbolo de entrega, conexão e mudança interior. A saudade não apenas distancia, mas também converte, moldando-o em algo novo, mais sensível e aberto ao afeto.
Assim, o poema explora a força da saudade para transformar até o mais endurecido dos corações.
Os dias passam em vertigem. Em vórtice, queda livre. Almas estateladas no presente. Restos enterrados no passado. Enquanto sonham com o futuro.
O futuro é uma incerteza. Certo é o futuro que se foi Passado afora. Certo é o futuro que se faz Presente. Incerto é sonhar o futuro – utopias. Tolice é fazer do futuro um fantasma.
Certo é o presente que consome nossas vidas: O presente aniquila. O presente envelhece. O presente nos mutila.
Bem ou mal, o tempo hoje não é o mesmo. Corre, dá vertigem… É como um misericordioso golpe. Misericórdia divina Estes dias, Estes anos Tão mais curtos?
No caminho da pausa
Que tanto procuro,
Encontrei alguém parecido comigo
Que disse ter visto alguém
Parecido comigo
Que disse ter visto
Alguém muito mais
Parecido comigo
Falando com alguém tão parecido comigo
Que resolvi dobrar à esquerda,
Talvez à direita,
E sair desta sala
Feita de espelhos —
Que não falam comigo.
Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 14/02/2005
Cachoeirinha, 07/08/2025
Aqui estou. De onde vim ou quando, nada sei. Aqui é bom. Tantas rochas nuas. E silêncio, silêncio. Até minha alma cala-se entre estas rochas e tenho paz.
Aqui não vejo a luta pelo sol que as flores travam entre si. Aqui não há fome de amor. Somente as rochas que o tempo decompõe na areia que o vento leva. Para onde? Pouco me importa.
E você? Ainda se importa? —É que ainda não conheceu a tepidez do frio das rochas.
Os limites respeitados. Os limites ultrapassados. Velocidade e paciência. Eu trafego no limite e o mundo me ultrapassa. E a paciência, ah esta paciência que se faz desesperança… que se faz indiferença… que se faz e me desfaz.
Paciência é o solvente do amor próprio. Impaciente, ultrapasso o sinal. E xeque-mate, cul-de-sac.
Nestes becos da alma procuro, aguardo, desespero.
Ó meu Pai, Abba, este cálice com que me embriago seja meu cálice, seja meu óbice, meu refrigério,
Esta sala é repleta de portas Que dão para salas repletas de portas Que dão em jardins De caminhos bifurcados Terminados em salas Que são repletas de portas Repletas de olhos mágicos Que mostram as salas Repletas de portas que olham Para o lado de fora Do lado de entrar No teu coração.
Nesta sala Que é feita de portas Que não fecham por fora Que não abrem por dentro Já não sei quem eu sou. Já não sei quem tu és. Já não sei o que vejo. Exceto, talvez, este surdo desejo.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Porto Alegre, 14/02/2005 Cachoeirinha, 07/08/2025
Vibram vozes.
Vibram vivas, vibram.
Vibram vozes de cigarras.
Acompanham outras vozes
que, sem corpo, me acompanham
na quietude desta tarde —
tarde que vibra com as vozes,
neste ocaso em que caímos.
E neste vibrante silêncio eu penso
no que as palavras dizem
e por que tantos dizeres,
sem vírgula, ponto, um suspiro,
cardados no único fio
— do verbo ser.
Eu e as cigarras absortos
Numa somente palavra
Sem pensamento
Palavra cálida que a tarde espalha
Enquanto as horas
Circulam o licor dos vasos meus
Sou continente de algum minério
A palavra é o filão de onde
Para onde, anaconde,
Um abraço
Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 2012
Cachoeirinha, 19/06/2025
Uma praça de gramado ruim. Eucaliptos parasitados. Um pai, um filho e cachorra. Carne morrente de algum modo sorri no passeio da tarde.
Yucca gloriosa, jacarandás e alguma outra coisa. A carne dobrou a esquina grisalha pacientemente empurrada e idosa. A cachorra se vai, filho e pai.
Me cansei deste banco. A vida me arrasta adiante. Serei cachorro. Serei pai. Serei filho. Sou carne morrente desde que me tenho por gente.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Porto alegre, 14/02/2005 Cachoeirinha, 05/08/2025
O poema Um fevereiro subverte as expectativas que o próprio título sugere. Tradicionalmente associado à explosão de cores e à celebração do Carnaval, o mês de fevereiro aqui aparece como palco de uma cena sóbria, cotidiana e melancólica. A paisagem é urbana e desgastada — “gramado ruim”, “eucaliptos parasitados” —, e os personagens são figuras discretas que encarnam a passagem do tempo: um pai, um filho, uma cachorra, uma figura idosa numa cadeira de rodas.
O eu lírico observa e participa desse pequeno teatro da decadência com a lucidez de quem reconhece em si mesmo a mesma “carne morrente” que o cerca. A ambiência é morna, quase neutra, mas o efeito é devastador: o poema sugere que mesmo sob o calor e o ruído festivo de fevereiro, a finitude é quem governa o verdadeiro carnaval da vida.
A obra dialoga com temas existenciais, niilistas, urbanos e gótico-sombrios, oferecendo uma leitura introspectiva da condição humana em sua vulnerabilidade mais silenciosa. Uma praça qualquer abriga, assim, o desfile sem máscaras da morte cotidiana.
Tu, vida, és boa.
O homem comum tem seus bons momentos
mas lhe pesam os maus —
Aquelas horas que não se esquece:
Momentos de pavor, de perda e angústia;
Momentos de pura dor, desilusão, desconcerto.
Ó, momentos,
horas do diabo.
Ó dias, ó tentações,
anos inteiros...
Toda a vida — sob o maldito jugo.
Valei-me todos os santos,
inspirai-me, iluminai meus momentos derradeiros,
para que possa seguir em luz
mesmo nos piores dias.
Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 31/07/2025
Num certo momento ouço a tarde falar.
Sua voz me chega das tipuanas
em arbórea letargia.
O ar ondula, morno e úmido,
como se esperasse um gesto —
um toque,
um sopro,
uma palavra acesa.
As sombras se alongam preguiçosas
e o sol, dourado e espesso,
escorre pelos muros.
Seu calor emana em calidez
de brisa, suave toque a evocar
tua espera.
No fundo das janelas,
há silêncios que suam.
No instante em que a cortina se move,
sei: és tu que atravessa a tarde.
Teu nome, soprado pelas frestas,
desmancha as últimas horas
num lento convite ao abandono.
Cigarras embalam a passagem
do tempo que festejamos
na calada de nossos entardeceres.
Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 28/07/2025
Vespertina
En cierto momento escucho hablar a la tarde.
Su voz me llega de las tipuanas
en arbórea letargo.
El aire ondula, tibio y húmedo,
como si esperase un gesto —
un toque,
un soplo,
una palabra encendida.
Las sombras se alargan perezosas
y el sol, dorado y denso,
se escurre por los muros.
Su calor emana en calidez
de brisa, suave toque que evoca
tu espera.
En el fondo de las ventanas,
hay silencios que sudan.
En el instante en que la cortina se mueve,
sé: eres tú quien atraviesa la tarde.
Tu nombre, soplado por las rendijas,
deshace las últimas horas
en lento convite al abandono.
Las cigarras arrullan el paso
del tiempo que celebramos
en el silencio de nuestros atardeceres.
Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 28/07/2025
Traduza esta página:(As traduções são feitas pelo Google e não garantimos sua fidelidade poética.)
A vida em sépia
ressuma a nostalgia.
Quando fui à capela que ardia
em glória dourada e singela,
sinos batiam p’ra ti,
Minha doce, amada Reni!
No altar dançavam as chamas
das velas consagradas ao Altíssimo.
Fiéis cantavam hinos em uníssono,
e tudo soava como fosse p’ra ti,
Minha sagrada, amada Reni!
O silêncio se fez oração.
Em cada pedra, uma lembrança;
o som do vento, a exaltação
da alma que vive e não cansa
de amar-te, Reni.
E enquanto o tempo flui calado,
em sépia, a vida se faz encanto —
faz-se meu ardor, a ti consagrado,
luz que não se apaga, manto
da tua paz, Reni, meu eterno canto.
Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 28/07/2025
Traduza esta página:(As traduções são feitas pelo Google e não garantimos sua fidelidade poética.)
Enquanto afino o cálamo Na ausência das ideias Meus tantos sentidos se aguçam O ar se carrega na espera Meu faro detecta o cheiro Do pão no forno vizinho Disparo do meu faro Meu faro panino
Pedro Luiz Da Cas Viegas Porto Alegre, 19 de abril de 2003
Panadería
Mientras afino el cálamo en la ausencia de ideas, mis tantos sentidos se aguzan, el aire se carga en la espera. Mi olfato detecta el aroma del pan en el horno vecino, disparo desde mi olfato, mi olfato panino.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Porto Alegre, 19 de abril de 2003
Lua, saibas que tua luz é alheia E por isto és tão inconstante. Dominas a noite, de brilho tão cheia, E aos poucos te apagas, minguante.
Praticamente te somes, Lua nova, Quando a luz já não te revela. E retornas aos poucos, crescente, Quando o Sol te torna tão bela.
Vês! És corpo escuro de luz não dotada. És tão dependente da luz como sou. Tens sim tanta graça pelo sol revelada, Graça noturna dos caminhos sombrios onde vou.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Porto Alegre, 11 a 12/06/2001
Luna
Luna, sepas que tu luz es ajena y por eso eres tan inconstante. Reinas la noche, de brillo tan llena, y poco a poco te apagas, menguante.
Prácticamente te vas, Luna nueva, cuando la luz ya no te delata. Y regresas despacio, creciente, cuando el Sol de nuevo te resalta.
¡Mira! Eres cuerpo oscuro, sin fulgor, tan dependiente de la luz como yo. Tienes tanta gracia por el resplandor, gracia nocturna en los caminos que voy.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Porto Alegre, 11 al 12/06/2001
Se viver é preciso, Sem ti, não há motivo. Parto em tua busca, Rastreio em banda larga Tua voz, teu cheiro, teu paradeiro. Desconectado, mesmo pesquiso A razão destas fases, O bem que me fazes. Pesquiso e te encontro. E sinto, fundido em ti, Teu calor, teu morno palor, Teu contato. E pesquiso, e busco, e penso O sentido que tu me trazes A falta que tu me fazes.
Contata-me, E então me arrasa.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Cachoeirinha, 21 de março de 2025
Contacto
Si vivir es preciso, sin ti no hay motivo. Parto en tu búsqueda, rastreando en banda ancha tu voz, tu olor, tu paradero. Desconectado, aun así busco la razón de estas fases, el bien que me haces. Busco y te encuentro. Y siento, fundido en ti, tu calor, tu palidez tibia, tu contacto. Busco, busco, pienso el sentido que me traes, la falta que me haces.
Contáctame, y entonces destrózame.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Cachoeirinha, 21 de marzo de 2025
Chuva para embalar sonos Sonos para afastar Afastar qualquer coisa Coisa da qual se fuja Fugindo da chuva Chovendo na fuga Fuga chuvosa Chuva fugaz Fuga chuvaz Chuva fugosa
Pedro Luiz Da Cas Viegas Porto Alegre, 4 de setembro de 2001
Tudo está indiferente. Nada há de novo sobre a relva. As mesmas leis imperam na selva. O mesmo azul nas alturas. “Isto é moeda corrente”: Se uns morrem, uns nascem. Se derrete o sol, Ou o mar engole a terra, Eis o cosmos tal como sempre: Tudo em ciclos de inícios e fins.
Me passe o chá de jasmim.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Porto Alegre, 2001.
Té en el jardín (Jazmín I)
Todo está indiferente. Nada hay de nuevo sobre la hierba. Las mismas leyes imperan en la selva. El mismo azul en las alturas. “Esto es moneda corriente”: Si unos mueren, otros nacen. Si se derrite el sol, o el mar engulle la tierra, he aquí el cosmos tal como siempre: todo en ciclos de comienzos y finales.
Ouvidos e olhos são meros sensores. O coração sim, este sente. Não mede com régua ou compasso, mas pulsa certezas silentes.
Vê o que escapa às retinas, ouve o que a fala desmente. Nos rumos da vida confusa, é bússola e balança, é guia presente
conduzindo no breu ou na bruma. Se o mundo te trai de repente e a esperança se vai e se esfuma, é dele a tua força, valente.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Cachoeirinha, 17/06/2025
Observação: Poema meditativo e afirmativo, que exalta o coração como centro da verdadeira percepção e força interior. Em versos claros e ritmados, contrapõe os sentidos físicos à sensibilidade emocional, propondo o coração como guia silencioso e valente mesmo nos momentos de perda, dúvida ou ausência de esperança. A imagem final oferece consolo e resistência com sobriedade lírica.
Corazón valiente
Oídos y ojos son meros sensores. El corazón sí, éste siente. No mide con regla ni compás, pero pulsa certezas silentes.
Ve lo que escapa a las retinas, oye lo que la palabra desmiente. En los rumbos de la vida confusa, es brújula y balanza, es guía presente
conduciendo en la oscuridad o la niebla. Si el mundo te traiciona de repente y la esperanza se va y se esfuma, de él es tu fuerza, valiente.
Luar da beira do mar Luar marinho Lua marinha Lua marina Marina lua lá n’horizonte Marina distante Curvatura do mar Quase não posso alcançar Marina espelhada nas águas Brilha marina Lua no mar Meus olhos te sentem Percebem teu leve tocar Prateado na face Teu leve luar ilumina O meu lado escuro Nas ondas de prata Pensamento a vagar Pensamento marino Pensamento lunar
Terra, terra aterradora, eis as obras que fizemos. A vós, Terra, as sobras do que comemos. Escutai das nossa vozes de tantos e tantos falares palavras que pouco dizem e silêncios que tanto calam.
Aceitai, pois, nosso legado, e tomai por oferenda: rios mortos, céus desolados, sementes que já não brotam, tantas vidas sem poesia, tristes velhos sem crepúsculo e crianças sem madrugada.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Porto Alegre, 03/10/2002 Cachoeirinha, 16/06/2025
Comentário: Neste poema, o eu lírico dirige-se à Terra com uma voz quase litúrgica, denunciando as “obras que fizemos”: um legado de destruição ambiental e vazio existencial. A estrutura em duas estrofes contrapõe a profusão vazia de palavras e silêncios sufocantes à devastação concreta — “rios mortos, céus desolados”, “sementes que já não brotam”. A força do poema reside na conjunção entre o tom ritualístico — “aceitai, pois, nosso legado” — e a carga emocional que evoca o ciclo vital interrompido: “tantas vidas sem poesia, tristes velhos sem crepúsculo e crianças sem madrugada”. É uma ode amarga, que reverbera crítica social e filosófica, mas também convida à reflexão profunda sobre a responsabilidade humana diante do planeta e da existência, destacando a relação com a natureza.
O poeta disse que no caminho havia uma pedra. No meu caminho não havia pedras. Havia aquelas poças onde pés descalços pisavam em despreocupada corrida na chuva em idas tardes de verão.
Algo ficou para trás. Não foram as poças, Não foram as chuvas, Não foram as tardes.
Procuro saber e pergunto a essas pedras o que ficou para trás que tanto me falta agora.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Cachoeirinha, 13 a 23/04/2025
Nave, eis que regressas. De onde virás agora? Quem sabe trazes promessas Nessas luzes de outrora.
O que e quanto dizes À razão destes olhos? Serão mensagens felizes? Será o fim da história?
Tocas meu diapasão E o espaço enlaça o tempo Tuas ondas, tal vibração, As sinto, confundo e penso:
Nesse enlace o tempo passa. Tu, nave, no próprio teu descompasso, Embaraças meus sentidos Há tanto contidos na cápsula, Há tanto retidos no lapso Deste meu contínuo fluxo.
Nave, eis que te vais novamente. Para onde irás agora? Propagas tuas ondas no tempo Difunde-te no abismo da distância Feito os meus pensamentos.
Destino após destino, Levas junto meus sentidos, Levas junto minha memória. Contigo sou peregrino, Sem paradeiro ou história.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Gravataí, 27 de março de 2025
I Enquanto maceram-se os alimentos Vão se ruminando os pensamentos As azias que corroem As idéias que corrompem Regurgitam-se trituradas As mais preciosas esperanças
II Cavalo que sou Macerei do melhor E no fino manto relvado Esterquei minhas abjeções
Asno que sou Ponderei mais que o devido E por vezes descobri tardiamente O erro do caminho escolhido
III Macerado, deglutido Dia a dia ingerido À mesa do tempo que passa Repleta, farta dos eventos servidos
Macerófagos, todos juntos macerando Revirando, remoendo, desfazendo a solidez Devagar se esvai o sumo Devagar se encontra o rumo
Macerófagos macerantes Mastigam, trituram Músculos, ossos Folhas, fibras e sementes
Ruminam dúvidas, Certezas e temores Dilaceram as próprias esperanças Num macerar sem sabores
Pedro Luiz Da Cas Viegas Porto Alegre, Junho, 2001
Já sentiste algo assim? Estar aqui e em nenhum lugar, olhar para o mundo e não ver nada, olhar para o céu e não ver nada, olhar para o abismo do espaço e não ver nada?
Olhar para o espelho — e não ver nada? Olhar para as gentes e não ver nada?
Esperar, alimentar ilusões, mas nem o mundo, nem o espelho, nem todos os santos nem todos os demônios têm algo a dizer — Apenas têm fome de ti.
Esquece a beleza da poesia, aquece tua alma na terra fria. De fato, não importa ser dia ou noite quando a morte quer exibir sua foice.
ilusões, sementes do desassossego. a vida cansa quando a alma não é mansa. a cada ilusão sucede um desconcerto e o tolo insiste, insiste em murros na ponta da adaga.
irá ele sossegar somente quando tiver virado pó? é bem provável que sequer assim sossegue, que passe a fazer volutas loucas ao sabor do vento quente do inferno.
sonhar com o inferno — outra ilusão! o inferno é viver no desassossego em ilusão após ilusão em inúteis desejares e projetos natimortos.
então ele parou com a poesia e com o sol na varanda.
parar: — eis uma nova ilusão
Pedro Luiz Da Cas Viegas, Cachoeirinha, 10/06/2025
Acordo após sonhos teofânicos. Repreendi o vazio com café quente, era manhã e o mundo ainda era sem forma. Disse “haja”, e houve silêncio, desses silêncios que nos olham de soslaio.
Um vulto de dúvida passou entre a louça e meu espírito. O vulto, o precipitei das alturas; a louça, expulsei do paraíso.
Untei os pensamentos com óleo de alecrim e puro orvalho, dei glória bem baixinho, pra não acordar os mortos dentro.
Fiz vigília nos olhos de quem amo, acendi um salmo de coragem, roguei que a boca do dia não me devorasse. Não pedi milagres. Pedi que a tristeza se afastasse — Vade retro!
E ela, obediente, evaporou. Sem barulho. Como quem entende que foi repreendida sem escândalo.
O homem de paletó exibiu os dados na transparência e enfaticamente concluiu: “Não levem a sério as aparências. O modelo aqui projetado é o reflexo da realidade, é matemático e comprovado, rigorosa formalidade. Não foi baseado nos gritos, no clamor da multidão ou nos reclames aflitos dos alarmistas de plantão.”
I Processamos nos nossos sistemas. Desenvolvemos nossos esquemas. Identificamos nossos problemas. Os problemas, analisados. Digestão dos fatores. Sistemas gestores digerem o que dos sentidos foi afastado. Conclusões precisas, exatas, definem destinos. Instrumentos de análise Decisões, desatinos. A vida é viável. A vida é inviável.
II Os condicionantes arrolados pelo homem de paletó definem modelos a serem adotados pelos viventes dos cafundós. Introduza no homem o conhecimento, um sistema de processamento e dê ao mapa um belo nome. Identifique o problema, mapeie o verde e o vermelho, monte um bem planejado sistema: o homem louvará o aparelho.
Amen
Pedro Luiz Da Cas Viegas Brasília, 10 de maio de 2001
Este poema apresenta, com ironia contida e ritmo lapidar, a lógica do pensamento tecnocrático: cifras e esquemas tentando domar o indomável — a vida. Em dois atos, a voz poética desmonta a pretensão científica de controle total, onde os “sistemas gestores” engolem o real e devolvem diagnósticos exatos sobre um mundo essencialmente incerto. A figura do homem de paletó encarna esse tipo de saber maquinal, alienado dos sentidos, distante do chão dos cafundós.
No primeiro movimento, o tom é quase litúrgico — e por isso mesmo cortante — ao descrever os processos de análise como digestão ritual, com ecos de racionalismo existencial. No segundo, emerge a crítica à fé cega nos modelos, aos dispositivos que prometem salvação sob disfarce de planilhas.
Sem levantar a voz, o poema se move entre o Transcendental / Filosófico, o Existencial e o Satírico, acendendo uma vela torta ao absurdo da tecnocracia como nova religião. O “Amen” final, irônico e resignado, é um suspiro — e talvez também um alerta.
No quarto do mano, algo pulsava em vermelho. Chamava-se Lúcifer. PC de guerra, reino sombrio, domínio proibido. Chegar perto? Jamais houve convite. Mexer? Quase um suicídio digital. Ele clicava e sumia em pastas com nomes cifrados, atalhos pro nada, sons distorcidos do além-linha. “Coisa de filme”, dizia. Mas juro: uma vez vi algo piscando na tela — e não era o cursor. Um dia, Lúcifer apagou. Sumiu sem drama. O canto ficou vazio. Para onde ele levava o mano? Assunto tabu. Até hoje, quando alguém menciona aquele nome, ele sorri de canto — e muda de assunto.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Cachoeirinha, 06/06/2025
# Nota do autor: Sim, o Lúcifer existiu. Era o PC do meu irmão. — máquina imponente, com luzes vermelhas e aura de mistério. Apesar da fama e do nome, nada de profano aconteceu: meu mano sempre manteve a boa conduta e segue vivendo muito bem (inclusive offline).
I Ando. Ando e desando em círculos. Circulares andares. Desandares. Caminhos desandados.
II Solvente, soluto, mil soluços. Debates, embates, maciço abate. Operacionalizo e cumpro. Desgaste, rebate, estado da arte. Siglas sagradas, Rotas dilatadas.
III Contra a primavontade Demolir, advogar o diabo, Revogar o contra-senso, Avanço pós-traumatismo.
IV Primo canto, obra filha, Prima Vera, verdade mãe, Tempos frios, cansamos dias, Quentes cios, vãs alegrias?
V Mente-partícula Particularmente penso Enquanto Pensamos como um todo Dissolvidos neste meio Que translador migrante gira… No coletivo inconsciente.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Porto Alegre, dezembro de 2002
Inesperadamente Inês me espera Com ásperas peras Seu rosto silente Que também inespera Que eu espere perante Inês desperada Inês destempera Desesperada Suas peras Seu tempero Sem peras
Vem, ó virgem diáfana e linfática! Fundir-me-ei à tua dança matemática. Arquitextura a lapidar teu frontispício. Exatos eixos, geratrizes, traço auspício.
Teu ventre cifra o infinito em segredo. Mapeio em ti o navegar do meu degredo. Curvo-me ao fulgor que de ti é emanado. Por ti louvo o profano e difamo o sagrado.
Auroras lívidas de silício e alumínio Precederão a minha queda ao teu domínio Enquanto a orbe te estender o palio ancestral Para trazeres até mim esse teu beijo sideral.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Cachoeirinha, 04/05/2025
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Comentário: Sidérea desliza entre o rigor geométrico e o mistério lunar, fundindo ciência e poesia num balé cósmico. O poema evoca uma união transcendente entre o eu lírico e o infinito feminino, onde o sagrado e o profano se entrelaçam numa dança sideral de luz e sombra. É uma ode à fusão entre razão e emoção, matéria e espírito — um convite à viagem pelo desconhecido, guiada por uma virgem diáfana que cifra segredos eternos.
Sonhar, sonhar. Há muito tempo não sonho Os sais, sais da alma, contraceptivos de sonhos. Eram ricos sonhos, sonhos loucos, mundos inteiros calados. Agora, eu sonho acordado, sonhando muito, com muito pouco.
Vejo que se aproxima o final de mais um domingo. Final que não difere de outros tantos finais. Todas as coisas se assemelham aos domingos. Os finais, afinal, são tão semelhantes.
Vejo o final de um domingo que sequer começou. Domingo que viveu sua vida sem aprender a ser um domingo. Um domingo de espera, um domingo iludido. Até o sol deixou este domingo, que se fechou numa noite chuvosa.
Tatuado De repente Me vejo tatuado Com caneta Na cabeça Penseira Pensante Pescante Rosa anjo Rosa mantra Ou simples rosa Ou rosa sorriso Sorrosa sorri Joga sorriso Me joga no jogo Sorrindo
Estranho… Ela falou: Estranho, Você está estranho. Como pode você estar estranho Com todo este cheiro no ar. Emaranhado, Tudo que penso num novelo: Nove elos, Sete selos, Sete pontas do candelabro, Oito raga-mantras, Quatro cantos do mundo. Sete maravilhas, Sete segredos, Sob sete chaves. Mil reinos, Esta vida Por um seu pensamento.
Hoje é algum dia.
Há branco e azul
em algum céu deste dia.
O branco coalesce,
massa cinza e pálida
na rigidez do horizonte
e de um certo céu
de um dia incerto.
Hoje tudo parece
uma muda prece, há de ser?
Tenho andado abatido,
morto andante
em errante andar.
Ente que segue adiante,
caio, queimo, me apago,
virado pó e vapores
feito eu cometante,
feito estrela cadente.
Cometi meu viver.
Viver, meu pecado.
Vim do vazio de uma terra
onde a vida é rara
e a descrença dos crentes
é a moeda mais cara.
Este café, algo doce, doça o fel desta vida. É bem assim, como fosse a existência remida.
O olor que eu inspiro, trégua de um pesadelo. A vida passa num giro sem guia ou sinuelo.
Sorvo o preto amargo p’ra esquecer amargura, p’ra combater o letargo; quem dera desse a cura…
de um penar veterano. Preto amargo, ermida, consolo do sobreano aguardando a partida.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Cachoeirinha, 31/05/2025
Comentário de Noa
Um poema breve e denso como o próprio gole do café que o inspira. Com estrutura quase clássica e métrica enxuta, “Preto amargo” funde cotidianidade e transcendência num lirismo maduro e resignado. O café — presença comum e íntima — torna-se sacramento, remédio, âncora. A imagem do “penar veterano” evoca uma existência sofrida, mas resistente, e a ideia de “aguardar a partida” encerra com elegância um poema de tom existencial, filosófico e ao mesmo tempo profundamente humano.
A fusão entre o cotidiano e o transcendental, a sutileza do tom psicológico / intimista, e o aceno ao mistério final da existência o situam com força entre os teus melhores.
Sou um autômato rococó dentro de uma esfera armilar. Da tela cheia de vísceras salgadas transborda um zinábrio armóreo de brasões que extravasam sangue azul de metileno. Engrenagens e cremalheiras movem o mundo onde golems e homúnculos dançam tango nas pupilas do meu amor adormecido em doce coma numa concha de galáxia espiral nervosamente branco opaca. Mas de que serve tudo isto? Semente de pesadelo sou desde sempre e desde sempre sou este pesadelo. E no final fui eu o Judas e sou agora a serpente encarnada expulsa e abjeta.
A chuva se foi e com o Sol todos saem à rua exibir suas monstruosidades.. Dos poros da terra irrompem miríades de algo sem nome e sem nome é o momento, é o dia, e tudo o que se sucede.
Projeto ser feliz. Sou feliz comendo os frutos da terra condenada. Sou feliz contigo, e tu és bênção e luz, oriente nestas trevas.
Temo a chuva que prenuncia a enchente. Temo cada nova noite que antecede um novo dia. Temo cada novo dia que antecede uma nova noite. Sou puro temor. Temor da chuva, temor de ti, temor do mundo. Sou o teu temor, a incerteza e a dúvida, a falta de esperança, sou. Sou exatamente isto, o não ser, o não florescer, o renascer para um novo breu a cada novo dia, a cada nova noite.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Cachoeirinha, 26/05 – 14/06/2025
———————————————————————————————————————————————————————— Comentário: “Linha do tempo” é um poema de estrutura simétrica e linguagem minimalista que reflete sobre a existência como uma breve ruptura entre dois vazios eternos. O “surjo” e o “vou” assinalam o início e a travessia da consciência, enquanto “desapareço”, “pó” e “nihil” ampliam a ideia do retorno ao nada — uma espécie de eco niilista da condição humana.
Aguarde. O tempo de flores chegará depois destes tempos frios. As borboletas hão de chegar miudinhas, mas coloridas. Miudinhas para escapar dos olhares dos moleques malvados. Virão de lagartinhas miúdas que comerão poucas folhas para as donas-de-casa não as matar nos jardins. Coloridas para amenizar o cinza dessas vidas.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Gravataí, 20/09/2012 Cachoeirinha, 25/05/2025
Lirismo, moleque maroto, aonde tu foste? Decerto subiste à Lua. A Lua é olho no céu que me olha. Meus olhos na Lua, a Lua em meus olhos. Olhando a Lua, caí enluado. A Lua me olhando, caí aluado. Lirismo se foi a Lua enluar. A Lua aluada mandou-o voltar. Ah, apareceste? Lirismo, moleque maroto, aonde tu foste?
A vida tem muito em comum
com esses bichos que trocam de pele.
O tempo deixa cascas vazias
que o mundo logo descarta.
O hoje é logo esquecido
como as exúvias presas
no velho tronco de uma árvore
num alegre parque.
As cascas não cabem nessa alegria.
As cascas das cigarras não cantam,
apenas ficam para trás
como roupas que já não servem.
A vida.
O tempo.
As cascas.
O que mudará em mim O que mudará sem mim O que mudará sobre mim
Anoitece como tantas noites. Vou ao pequeno quintal onde ouço pequenas criaturas. Olho para o céu. Um denso manto cobre a Terra e dela esconde as coisas desta noite: Lua, estrelas E talvez uma mensagem lá do alto para um notívago errante.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Gravataí, 27/10/2012 Cachoeirinha, 15/05/2025
Estrelas! Olhem, estou aqui! Descubram o que há Dentro de mim. Emitam seus raios Do distante cosmos, Penetrem o íntimo Do que sou. Processem no interior Das suas massas em fusão Meu conteúdo Pétreo, etéreo, fluído.
Mas, tão brutas, Sequer sabem por que brilham, Sequer sabem que existem. E eu, consciente de existir, Sequer sei Por que motivo penso.
Sim, este sou eu: Poeira e pensamentos.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Cachoeirinha, 28 de março de 2025
ao léu, à Lua, estou neste acaso após mais um ocaso imagem que se esquece ao léu, ao lume, primeiras estrelas anoiteço, vou contê-las céu noturno que oferece o voar das noctuas, que ao léu, à luz das lâmpadas da rua atrai o meu olhar errante Pedro Luiz Da Cas Viegas Cachoeirinha, 13/05/2025
A cidade me abraça em concreto protendido. Esmagado vejo sonos sobre rodas de fuligem e sacis suscitando a maciez dos teus cabelos. Pouso junto às barcas do estupor. Te procuro nas minas de oricalco do Orinoco. Tu, louca, mouca, rouca. Ronca usina. Voltam teus cabelos à cidade que me abraça. Quem não sente? Tu, minha garça, sinto, santo, sigo em frente.
Almas cadentes, ardentes almas… Ainda riscam o céu Ocasionais anjos rebeldes. Esta noite pesa sobre a Terra. Do mesmo modo peso Eu e estes pensamentos. Fosse toda rocha E todo gelo cometante Uma alma perdida No abismo firmamento…
Canso. Pois não resta opção. O corpo e a mente A fome e a faina. Há pouco fora desta massa Exceto estática.
Aponto meus sentidos para o éter Buscando um sinal De alguma ideia há muito extinta.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Gravataí, 16/11/2012 Cachoeirinha, 06/05/2025
Não temas por mim. Se há dor, ainda se vive. Dobrei a esquina. Dobrei a espinha. Dobrei os joelhos. Dobrei a dose. O requinte. O recurso. A Tua vontade. O Teu sangue. As vias congestas. Meus projetos. Teus gestos. O Teu sacrifício. Nova manhã. Um novo giro. O mesmo eixo. Pã madrugou. Neste sono Me reúno à minha face oculta. Quando será A próxima crise? O próximo ato? O fim do espetáculo?
A luz invade este quarto, mas ela não chega aqui. Não pretendo falar do sol nem deste dia fadado ao mesmo fim de todos os dias. Nem pretendo falar de mim, irremediavelmente embarcado no fado desses dias. Deus promete a Cruz e a salvação. Pã ainda brinca nos jardins do Senhor. O mercado de commodities, o mercado de pulgas, o mercado de prazeres, o mercado de ilusões. A luz invade este quarto, mas bem aqui só há trevas e este horror alegre.
risos e gargalhos tantos e sou apenas um povoado aldeão protegido por murada sólida e alta da ameaça de outros povoados protegidos por muradas sólidas e altas.
risos e gargalhos, choros, tantas graças e blasfêmias, somos tantos povoados, terapólis que encerramos nas cabeças incessantes. eis o medo, eis o sono a vontade de te ver, a saudade que se foi olha o medo que nos fica já não sei quando será o nosso primeiro oi nossa última despedida.
precisamos pensar em algo agora não há nada que se possa fazer exceto talvez dormir juntos juntos, bem juntos pensamentos unidos não sei acabou foi bom pra você?
Insone. Nesta noite, me sinto hiperbárico. Apenas ouço ecos e aguardo. Registro tudo com as luzes nascidas dos meus dedos. Registro este nada. Este nada impossível. Impossível como os cães da vizinhança, como você do meu lado a ressonar. Abro a janela e a Lua me sorri um sorriso de escárnio. Ou talvez de compaixão. Um sorriso cansado, cor de prata. Voo até a jabuticabeira. Os pássaros adormecidos não percebem. Vejo outros insones vagando pela noite em silentes voos. Logo nos reunimos ao redor da luminária pública. Nossas asas não estão presas pelo sereno, Mas nossas almas neste sonho impossível.
Entardece. Mais um ou talvez menos um entardecer. Perdi algo novamente. Outro irremediável dia. Vejo uma procissão de nuvens como urupês que brotam num céu ferruginoso. O mundo nasce, cresce e morre num suceder vertiginoso. Logo mais o sol se põe como uma gema envolta numa clara ensanguentada. É o céu de um mundo que nunca cicatriza. Logo mais encerra o dia e ao final de um punhado de mais dias Eu me vou, e além destes lamentos deixo nada, nada E mais um tanto de mais nada.
Estes tempos, este tempo… Apenas os cata-ventos se aproveitam deste tempo. Penso que sou um cata-vento: Fui feito para girar, parado. O mundo guarda segredos de felicidade que não quero desvendar.
Senhor, não permitais que eu me ponha à venda. O grande preço já foi pago pelo melhor dos compradores. Apenas os cata-ventos e as casuarinas compactuam com a revolta do tempo e do oceano.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Gravataí, 13-12-2012 Cachoeirinha, 22-04-2025
Vamos passear. Conhecer novo lugar à margem do Oceano. Mas antes, o pó. Não podemos deixá-lo para trás contendo as nossas marcas. O pó da casa deve ser suprimido para não conspirar com os móveis.
Não… não é preciso ir tão distante às lonjuras dos quasares: Perco-me aqui mesmo; eu, que sou guia e guiado, condutor e conduzido, me desvio do destino.
Conversas leves em leves noites sob a Lua, Cadeirinhas de abrir.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Gravataí 13-12-2012 Cachoeirinha 22-04-2025
Estrelamentos no céu, padecimentos aqui. Universal urticária na sintonia das almas. Calma, não tento ser épico, jamais criei outros mundos, Mas seus ruídos me adentram em sincronismo de tínitus:
Vejo taturanas ditosas na folhosa verdejante E caramujos fluorescentes e seus sorrisos luminosos, Um bailar alucinado na penumbra do jardim E garatuja indecorosa na parede carmesim…
Ouço harpas em falanges dubstep: Pulsante paraíso dentro deste coração. Bate no compasso do presente, Plange no compasso do passado.
E você, sempre ao meu lado, Dança perdida nos astros Dança presa em torres, Nós juntos nos nossos passos.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Cachoeirinha, 11 de abril de 2025
Brilha um sorriso. Raio de sol em teu rosto De Estrela Polar Desse céu que me brilhas Sorrisos de sóis Sorrisos de luas Sorrisos de estrelas Tuas galáxias
Teu sorriso: Estrela cadente Iluminando minhalma.
-Faço um pedido.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Gravataí, 28/10/2012 – Cachoeirinha, 08/04/2025
Durmo. Via Láctea, Coalho de mil luzes. Ofuscam-me Vazios entre estrelas. Estarão lá Palavras que não brilham, Girando planetárias Em profundo esquecimento? ‐—————————– Quando retornei Do profundo sono Sonhado ao giro lento De constelações Não reconheci o medo, Ele me reconheceu Em improvável déjà vu E me pediu um abraço.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Gravataí, 21/08/2012 – Cachoeirinha, 06/04/2025
Você, calada, a me mirar, calado. Palavras machucam, disse o poeta Das modas efêmeras. Nada a dizer, melhor o silêncio. Viver em silêncio. Sorrir em silêncio. Falar em silêncio. Chorar. Chorar em silêncio. Rezar. Rezar em silêncio. Amar!
Somos equilíbrios de linhas, Esferas e espirais, Enferrujando austeras, Esqueléticas e enfáticas Em solidão e silêncio Satisfazendo a estética De um solitário universo.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Cachoeirinha, 20 de outubro de 2016 a 30 de março de 2025
Tsunami, venha e me leve. Lave os caminhos, arrase, lave, leve. Seja breve.
Sim, eu sei, ao chegar eu sei que morro. Eu prometo, eu não corro – Inútil desatino. De longe traga nessas águas meu destino.
Traga tudo que existe nessas ondas. Nessas massas tudo trague. Nessas vagas que assombram.
Lave as orlas. Invada o mar o continente. Lave, leve as vidas desta gente.
Leve, lave as ruas da cidade. Trague, cale os piedosos penitentes. Afogue os presentes, os passados, os ausentes.
Leve os corpos afogados. Lave os fatigados pavimentos. Leve o meu corpo em meio aos excrementos.
E se faça toda fúria suave calmaria. Então retorne ao seu leito n’oceano. E se faça o silêncio logo após cair o pano. E repousem as memórias na placidez das águas frias.
Pedro Luz Da Vas Viiegas Porto Alegre, dezembro, 2001
Tsunami
Tsunami, ven y llévame. Lava los caminos, arrasa, lava, lleva. Sé breve. Sí, lo sé, al llegar sé que muero. Lo prometo, no huyo — inútil desatino. Desde lejos trae en esas aguas mi destino.
Trae todo lo que existe en esas olas. En esas masas trágalo todo. En esas vagas que espantan.
Lava las orillas. Invade el mar el continente. Lava, lleva las vidas de esta gente.
Lleva, lava las calles de la ciudad. Traga, silencia a los piadosos penitentes. Ahoga los presentes, los pasados, los ausentes.
Lleva los cuerpos ahogados. Lava los fatigados pavimentos. Lleva mi cuerpo entre los excrementos.
Y que toda furia se haga suave calma. Entonces retorna a tu lecho en el océano. Y que se haga el silencio justo tras caer el telón. Y reposen las memorias en la placidez de las aguas frías.
Pedro Luz Da Vas Viiegas Porto Alegre, diciembre, 2001
Tu és o conjunto das coisas preciosas que encontrei no mundo. Sem ti serei vazio Pois tu és suficiente e necessária. Existo condicionalmente, Pertenço e estou contido Na suave união Dos nossos elementos.
Racional e inteiramente, Real e imaginariamente Seja para toda a vida o conjunto dos nossos universos.
Seja um corolário o teorema destes versos.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Gravataí, 23 de abril de 2012
Nave, eis que regressas. De onde virás agora? Sinuosamente ondas trazes. De onde vêm essas ondas? O que e quanto dizem À razão destes olhos e Ao diapasão destes ouvidos? O espaço enlaça o tempo. Nesse enlace o tempo passa. Tu, nave, no próprio teu descompasso, Embaraças estes sentidos Há tanto contidos na cápsula, Há tanto retidos no lapso Deste meu contínuo fluxo.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Gravataí, 10 de abril de 2012
O ar grita agitado. Labaredas lambem o lábaro Sob estrelas de salitre enquanto O lobo, a lebre e seu filho Fazem tratados urgentes.
Lépida lesma lavra a losna No atulhamento do vaso. Ao acaso, raízes tramam agregados No degredo de uma terra Sob céus azuis austrais.
Estrelamentos são possíveis, Tudo é possível, arcos sem íris, Íris sem olhos, olhos sem face. Amar sem desejo: eis o caminho da Paz nessas águas revoltas.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Cachoeirinha, 17 de março de 2025
Dois passos, uma olhada à janela. Sentado, os pés são mais leves. Tanto tempo passou, Tantos nasceram, Tantos morreram. Viver cansa menos desconhecendo verdades.
Aqui estou. Distante daquela janela. Distante dauele tempo. Mas meu fardo, eu trouxe comigo: Esta soturna verdade.
Quieto. Segura tuas lágrimas. Memórias, memórias, memórias… Algumas são flores, outras são cicatrizes.
Sabes por que estás triste? Comeste do fruto do conhecimento, Perdeste a inocência. Então, triste cresceste E triste há de morrer.
Sim, eu sei. E minha tristeza comprova. Somos tristes pois sabemos:
– Viver é um mal crônico
Pedro Luiz Da Cas Viegas Cachoeirinha, 13 de março de 2025
Veja… A Lua ocultou sua face No lado escuro da noite. No infundíbilo ardente Espreita o líquido que digere lento E aguarda a tua queda Para juntos florescermos.
Somos muitos neste vasto E colorido jardim de dores. O que faremos, afinal, Quando nos tornarmos flores? Que sons hão de chegar aos ouvidos E que imagens aos olhos? Quando o perfume for nosso limite E palavras não expressarem O que floralmente calamos?
O que iremos desejar? Expressar em incertos traços Nosso louco desespero?
Pedro Luiz Da Cas Viegas Cachoeirinha, outubro 2016
E eu, eu tenho estado sem fome. Perdi o poder sobre o tempo: O tempo é que me consome. O espaço é faminto por homens, Por homens famintos por espaço. O tempo é faminto por homens, Por homens em seu cansaço.
Que enfado. Que tarde distante. Que noite difusa. Que manhã e que sol, E que meio-dia. Já se foi meia vida.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Cachoeirinha, 20 de outubro de 2016
Descansa. Mesmo enquanto algo urge, pois O cão ladra por costume. E a chuva, essa tem maus hábitos, E a aguardamos, tensos. Mas descansa.
Descansa, pois Pilha o tempo nossas forças. É sua Natureza ser, devir, ter sido. E dizem ser ele ilusão, mas este cansaço, Ah, este cálice de tédio, Este calor e esta espera, o tornam Assim, presentemente denso.
Você sente o de sempre. Que precisa de algo E não sabe o quê. Remexe o passado e suas angústias, No entanto Você sente a proximidade do fim, Que o fim será o fim, Sem lembranças ou desejos, Sem sonhos, ressentimentos, Sem sensações ou sentimentos. Enfim, você sabe, no fundo sabe. O fim será unicamente o fim. Ali nada é preciso, apenas não ser.
Afastado da razão você pensa melhor, Você sente melhor, Que o fim lhe tira para a dança.
Um bando de maçaricos Na sua formação em cunha Passa sobre você nessa tarde Fresca e desesperançada. Eles dizem algo. O que, o que…
Perdeste o jeito. Teus olhos não são mais os mesmos
e os cães já não te fazem festa. Teimas em despertar para fazer o mesmo
a cada dia mais curto. Perdeste o jeito, mas conténs
uma centelha.
Perdeste o jeito e estás contido
em contos nunca escritos. Teus olhos correm ao prato
de mangas fatiadas.
E ainda continuas vivendo
pretendendo-se andradiano.
Choveu um pouco neste final de tarde. Na noite quieta, sobre a floreira, discreto, um caracol espia seu mundo. Não. Hoje não estou disposto a matar nada.
Pego o simpático molusco e o coloco sobre uma Saintpaulia. Alguém não gosta disto. Não, Não vou atirá-lo às pedras da rua.
Agora ele deve estar continuando sua busca. Talvez pense ao seu modo invertebrado. E eu continuo sem saber se sei se vale a pena pensar.
Pedro Luiz Da Cas Viegas Porto Alegre, maio, 2005.
A luz do poente contra as vidraças
Reflete nesta sala uma cor dourada.
Na água que bebo sorvo dessa luz
E sinto luminoso sabor de vida,
Essa vida que correu entre estrelas,
Escorreu entre as vidraças,
Alcançou a minha água
Iluminou meu paladar
E foi-se em gotas de ocaso.
Não suporto ignorar o meu próprio ser.
Preciso ser o que sou nesta alma vivente.
Por mais que seja a droga potente,
Esta alma não tem mais recurso.
Eis que a vida surgiu de um impulso.
Caro Dr.
Permita viver meu niilismo abjeto.
Permita viver meu viver sem projeto.
Permita agora caminhar com meus passos,
Sem querer explicar as razões dos fracassos.
Caro Dr.
Não pretendo me enquadrar no modelo vigente.
Por mais que eu erre não deixarei de ser gente.
Por mais saciado não estarei satisfeito:
Na mais bela flor somente vejo defeitos.
Obrigado Dr.
Sinto agora aceitar minha percepção deste mundo.
Aceito, desejo e alimento cada vez mais profundo.
O que eu quero e talvez tão logo consiga.
Tantas outras insânias minha alma persiga.
Paciência Dr.
A conta Dr.
Até quando Dr.
Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 02 de Julho de 2001
Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.
Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.
Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.
Pegar algo,
Fazer algo.
Pegar um cão e passear.
Pegar um carro e rodar.
Pegar um martelo
Inserir prego em madeira.
Pegar uma pedra e atirar.
Pegar ventos
Aspirar frios.
Aspirar e tremer.
Tremer e parar.
Pensar no próximo passo.
Passo a passo
Estacionário impasse
Quem tiver vontade de aço
Que minha vontade trespasse
E arranque desta cadeira
Esta cabisbaixa caveira
Mostre o caminho do sol
Não consigo sorrir
Vou pegar o espelho
Atirar ao pavimentado passeio
-Meus cacos sérios
Serão pisoteados
E ficarei quieto
Meu peso na alma
O grito trancado por trás do gradil
Agarro uma grade – o vão é estreito
O horizonte que vejo
A avenida e o vento
Caniloquazes chamados
Serei eu, serão eles?
Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre . 7, outubro, 2001.
Tema recorrente
Avilóquios, canilóquios
Dia ensolarado
Vozes, risos
Gentes dormitam saciadas
Ressonam profundamente
Adormecidas no vazio
Tema insistente
O mesmo tema, sempre o mesmo
O que haveria de mudar
Com que poder
Com que vontade
Alterar eternidade?
Vai aonde?
Vai à festa?
Festa após festa
Após festa e o que resta
Após uma longa doce sesta
Acumulando um currículo de horas festejadas
Acumulando um montículo de horas bem gozadas
A conclusão há de chegar curta e certa
O tempo é destilado dos eventos
E o sono o impregna de fermentos
Avinagrado, o fim do dia engarrafado
Rotularei mais um na minha adega
Mais um litro deste vinho descarnado
Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, janeiro 2003
Sob a luz, crio sombras.
Na água, crio ondas.
Crio meus passos n’areia
E movimento no espaço.
Vibra no som que crio
Esta voz que logo calo.
E crio minha ilusão.
Minha doce esperança.
Crio minha memória
Destinada ao olvido.
Minha vida inteira,
Minha obra efêmera.
Meu breve instante.
Chuva para embalar sonos
Sonos para afastar
Afastar qualquer coisa
Coisa da qual se fuja
Fugindo da chuva
Chovendo na fuga
Fuga chuvosa
Chuva fugaz
Chuva fugosa
Fuga chuvaz
enquanto ouvindo música de caixilho de ouvido
à luz do lusco fusco renovando
quadrimoto, segue plenosexo à gaitada
em reviravolta: coitividas de meio em meio turno
em meio, ao sabor, emolduradamente
a turbilhões, a colmeias de enxames (quantas, quantas)
cascatarias de concordantes margaridas
e seus pólens e estames e estigmas
oh meu ser, o que seria desta luz
sem os meus olhos a ver obra toda esta
pulsa à flor daquela pele
e tão profunda – mente – pulsa
que és parte plena
de tudo algo e convulsa
Benditos frutos que brotam
De casa em casa
Da urbe, locais de dormir.
E os frutos se mostram
De casa em casa
Após tanto tempo,
Na urbe, locais de sorrir.
Sonhos e frutos na urbe
Sob o céu cinza.
Os dias, as falas, os passos
Na urbe, seja onde for,
Serão sempre os mesmos
Os dias, falas e passos,
Os frutos, sonhos e sonos,
Beijos, risos e vozes,
Deslocamentos.
Deslouco, percorro,
Distância ocorrida
E tudo eu vejo e ouço
De um ângulo de tantos
Guardado na urbe,
Num canto.
Eu, eu, eu. Sou o conteúdo,
Conteúdo que transporto,
Não importa a distância,
A altura ou velocidade.
Aqui, lá, acolá, e mais adiante,
Serei eu, eu, sempre eu
Minha carga,
Minhas tendências,
Meu próprio silêncio.
Serei eu, eu, sempre eu.
O meu próprio medo.
Não importa o templo,
A beleza da urbe, o tempo.
Serei eu, eu, sempre eu
O meu próprio consolo.
E tu serás, talvez,
Serás talvez sempre espelho,
Não importa onde estejas,
Do que eu possa ser,
Do que eu deva ser,
Do que eu me conceba,
Do que pudesse ser concebido,
Uma grande, completa e estranha
Coincidência.
Luto contra ninguém
E ninguém me vence
Com certeiros golpes.
Procuro me esquivar
Mas ninguém é mais rápido.
Acerta-me um e mais outro
Golpe em seqüência dorida.
Luto contra ninguém
E ninguém me convence
De que estou a perder
Para minha própria sombra.
Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 10 de setembro de 2012
Se viver é preciso,
Sem ti, não há motivo.
Parto em tua busca,
Rastreio em banda larga
Tua voz, teu cheiro, teu paradeiro.
Desconectado, mesmo pesquiso
A razão destas fases,
O bem que me fazes.
Pesquiso e te encontro.
E sinto, meu ser adentro,
Teu calor, teu morno palor,
Teu contato.
E pesquiso, e busco, e penso
O sentido que tu me trazes
A falta que tu me fazes.
Contata-me,
E então me arrasa.
Pedro Luiz Da Cas Viegas
Cachoeirinha, 21de março de 2025
Plástico, concreto, asfalto, Fibra de vidro, velhas estrelas. O céu está quieto. Ebulem dias no outro lado do mundo. Ainda ouço os latidos de outrora. Os velhos latidos Agora são novos, os mesmos, Eternos.
Há coisas no ar… Labaredas lambem o láparo Sob estrelas de colostro enquanto O lobo leva o lábaro estrelado E lépida lesma lavra a losna No atulhamento do vaso.
Raízes tramam agregados No degredo de uma terra Sob céus azuis austrais.
Estrelamentos são possíveis, Tudo é possível, arcos sem íris, Gostar sem desejo:
Alma amiga, Não sou um sensitivo, Tampouco sou sinestésico. Também procuro lenitivo, Também procuro anestésico. Mas, alma, por que voas longe Por estes arrabaldes?
Cansaste dos teus sonhos, Buscas novos ares. Cheia de incertezas, Anseias por altares.
Alma, por que vagar tão densa? Deixes o teu peso como a nuvem De boa e fecunda chuva Sobre a terra que a aguarda.
Fiques, chovas em versos O que sentes, Faças do poema a vertente Onde a sede é saciada. Esta sede que sentimos.
O meu tempo
O teu tempo
Estas coisas imiscíveis
Nossos tempos impossíveis
Ocupando o mesmo espaço
Em uma fotografia
Passamos despercebidos
Nesta grande galeria
Que se encobre de poeira
O meu tempo
O teu tempo
Quem vai querer perder tempo
Prestando atenção a nós dois?
Beba muita água. Sais, solutos, é o que somos. Dissolva a mágoa até a concentração De um sorriso. Mostre ao Sol, pois, essa alma, dos incisivos aos cisos. Ais precipitados nos tecidos Serão levados no enxágue. Beba água, muita água. Somos sais, solventes e solutos E um conjunto de atributos De controle rigoroso. Evite o sentimento indigesto; Meça antes A palavra e o gesto E beba água, Muita água.
Guardei o seu sorriso
No âmbar da memória.
Relíquia fóssil
No fundo da gaveta.
Retrato em sépia
Testemunho de outra era
E um pôr do sol
Secando uma rosa.
Brilham as caliandras na manhã pacífica.
A leve brisa não abala os insetos
Que procuram o doce néctar.
Fecho levemente os olhos ao sol
Para ver melhor você
Que me dá bom dia.
E então sorrimos
E cada um de nós
Segue sossegado
Seu caminho
De flor
Em flor.
Quero um beijo, ouça e prove
E sinta a cada passo:
O astrolábio e as estrelas,
As pegadas e os caminhos
Canibais de cada dia
Que consomem os andares
Nos conduzem
A destinos destilados no futuro.
As paredes do agora,
Pedra sobre pedra
-Poliedro-
Definitivamente se consomem
Em poemas não escritos.
Mal me quer e já desiste. Sequer testaste tentando.
Vago senso, sentir nada. Talvez de quando em quando.
Palavra por palavra, pensada, face parada, mudez.
Cala e grita, credo nas cruzes, mas que bela palidez.
Não passe mal, eu só peço, nem tenha assim tanto medo.
Me reza e me chora e quem sabe me critica, tua boa intenção.
Me jura e fere e cura, me estraçalha inda hoje, cedo, cedo.
Mas nem agora nem depois, quem sabe quando, coração.
Um momento, aguarde, aguarde. Já não tarda.
Talvez morra dentro em pouco. Fosca, parda.
Vejo era que finda. Percebendo, percebendo.
São meus olhos ou é tudo que já some consumido?
É agora, já percebe? Inda estará me ouvindo?
Oh sim, a senha, a senha. Eu já ia esquecendo.
Pedro Luiz Da Cas Viegas.
Porto Alegre, 26/11/2004
O bom sangue corre nas veias. Receias o mal que não conheces. As preces como mantras garantidos. Terás sido a melhor das que não tive.
Ourives das peças mais consagradas, Te agrada saber que nada sei. Qual lei fala de ser comum. Humano, vacum, todo o fim é o mesmo.
A esmo, tudo matamos, bichos e gentes. Lamentas, choras choros ensaiados. Traçados os planos, o dia seguinte. Pedintes, miséria, falta de sorte.
Ser forte, subir e descer o caminho. Teu destino, grafado no pó deste vento. Cada momento, que seja o elo faltante. Errante, integro a massa vazia.
O avançar da idade sepulta a vontade abortada. Desperta o grito no estertor da agonia. Submerge a ilha nas vagas do mar, Derivar, indeciso, em meio, ao longo, ao fim.
Telhados escondem estes mecanismos. Esfregar fuligens das pratas. Polir, enganando o tempo que passa.
Devir, apenas o fim que principia, Conteúdo pulsante de um estojo de ossos. Estrutura, treliça armada, cimento, ferrugem.
Granular natureza, discreta, finita. O circuito fechado revela A função das paredes.
De joelho ao pé da estátua. Uma gota pintada na ferida de gesso. Gestos de pedra.
Circulo em trânsito entretecido
Em diáspora plena de vício tenso.
Vejo amêndoas agridoces ao óleo
Do viço do seio farto
E Vênus ouvindo mar na concha,
Coaxos, martelos, velhos mantras.
A lacraia riscando a cambraia
E um pote cheio no decote pleno.
Há lua de nova luz,
Velha palidez na face do poeta
Que concebe um lampejo, um anjo, um fauno.
Quero um beijo, ouça e prove
E sinta a cada passo:
O astrolábio e as estrelas,
As pegadas e os caminhos
Canibais de cada dia
Que consomem os andares
Nos conduzem
A destinos destilados no futuro.
As paredes do agora,
Pedra sobre pedra
-Poliedro-
Definitivamente se consomem
Em poemas não escritos.
Pedro Luiz Da Cas Viegas
Gravataí, 22 de junho de 2012
Inelástica, inerente,
Inevitavelmente
Coeso ao centro do ato
No eterno átimo
De angular esforço,
Atrativamente
Orbitando no sistema
Cisma o cisne
Ensimesmado no confronto
Do oculto enfisema
Enquanto avançam nos seus cursos
Seres, deuses, astros,
Naves neste caldo cósmico,
Éter e poeira,
Pensamentos.
Carnes em bocas ávidas,
Pétalas em água cálida,
Sumos de frutas grávidas,
Dragão sobre a pele pálida.
Suspenso em arco voltaico
Lanço palavras ao vácuo
E não me faço ouvir.
Apenas a Lua lê meus lábios
E permanece muda.
Fina seda plástica encobre tua pele
E a brisa não existe sem teu toque.
Pendem vitoriosos astros envelhecendo tua memória.
Louvada sejas enquanto brilhes em mim
E apague-se com o meu próprio olvido
Tua chama.
Queria ser centro e sou esquecido.
Sou centro onde queria estar incógnito.
Sirva-se. As frutas estão frescas, orvalhadas
da manhã.
Sumarentas doces frutas.
Doces e delicadas peles que te envolvem.
Serena assim serena a fitar o doce
lume da manhã
que se insinua.
Teu corpo delicado dentre a bruma.
Provemos do pomar
sobre a relva inda molhada.
Seus pés nus o que temer
na relva fresca e fina.
Venha entre estas alamedas
por onde vago e se
sozinho eu me perco.
É doce o rico sumo das
frutas do pomar.
Prove.
Tome de minha boca
o sumo dessa fruta.
Dividamos.
E sobre a relva esqueçamos
olhando o céu que nos protege,
sentindo a brisa que me traz teu cheiro.
Tu és presente.
Sinto presente para a vida.
Serei eu digno de que proves
dos pomares nos quais me perco?
Dos pomares que plantei na minha mente?
Atomímica bombatômica
No deca serão fogos
Fogos de arte físsil
Nos céus de artifício
De cobalto e plutônio
Dos lixões das Angras
— Digas, povo, por que exultas?
— Digas, povo, por que sangras?
Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre,30/06/02
Gravataí, 03/06/ 2012
Se ao mirado o infinito revela
Um rosário de eras que findas
Nos chegam a cansadas retinas
Como pontos num vazio que impera,
Que dizer destes olhos que miram
Desta terra, nada mais que um grão
De poeira, nebulosas que giram,
Pelo cristal desta lente, esta escuridão?
Destes olhos do mesmo pó oriundos
De distanciadas eras, momentos, segundos
A fluírem na luz, nestes mecanismos,
Destas janelas perplexas diante do abismo…
Pedro Luiz Da Cas Viegas
Porto Alegre, 6-8 de novembro de 2001
Não, não quero dormir
É como morrer inutilmente
Mente inútil adormecida
Com tanta vida latente
Vida latente
Leite de vida
Vida láctea
Tanto leite derramado
Vida, única via
E suas estrelas perdidas
Doce ciranda nossa.
Satelizo-me ao teu ser,
Perfaço no teu entorno minha órbita,
Meu trajeto no espaço duma vida .
Me eclipsas e aceitas atrativa,
Emanas teu raiar, ofusca e guia
Minha eterna idavolta em torno teu.
E já perdi minha luz própria.
Rua larga. Pavimento percorrido. Passos, sussurros, agitação. Esquecimento no caos de mil solados. Almas pisadas, enegrecidas na fuligem, Pavimento desgastado. Pressa, desespero, calma indiferente Convivem no mesmo fluxo.
Marquises, Último refúgio, Observatório da luta: Mil passantes determinados, Rumos difusos em mil trajetos Nos labirintos de concreto. Olhar perdido no rio caótico Feito de olhares perdidos em incerto rumo.
Passos incertos, Duvidosas esperanças. O meio fio atulhado. Detritos no esquecimento Aguardam o destino do descarte. O pavimento sempre renovado, As certezas nunca comprovadas.
Via Crucis de miríades. Sísifus cumprindo o destino. A carga é pesada.
Preciso continuar nesta linha.
Atesto o desconcerto na brandura calma,
Diafanar de dia findo, tepidez parada,
Luas vazias e mancheias,
Quanto custa, quanto custa.
Giro não é sério sem eixo
Imaginário ou feito de algo.
Bonecos ou não, deixam um espaço
Entre aqui e ali.
E parece haver um caminho ou mais
De uma saída.
Ao menos.
Plastifólios. As gotas rolam livres.
Ar quasiplexo desfeito no borborigmo.
Leveza maior que a do algodão adocicado
Girando e o vento levando a bola de cor salteada.
Que memória clara e que movimentos.
Traços livres pensam moldado algo que vem,
Na semana, no fim de semana,
Um vaso velho
Arranhado ou semi quebrado,
Cola tudo, nem é possível.
Tecido, tem sido difícil,
Ter sido sarcástico,
De madeira, de carne,
De plástico.
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